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VOL.4 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2013

EDITORIAL

Os artigos deste novo número da Revista Epos, genealogias, subjetivações e violência privilegiam, a partir de problemáticas singulares, o eixo das formas de subjetivação. Ressaltam tanto a constituição social e histórica dos processos de produção de modos de existência, quanto as diferentes possibilidades de invenção de novas formas de vida. Refletindo em campos teóricos diversos, cada um dos autores desenvolveu sua temática em uma perspectiva interdisciplinar, em que dialogam ciências sociais, filosofia, psicanálise e história, apontando o aspecto contingente e singular dos processos de subjetivação.

Em Pequenas destruições, danos irreparáveis: comentários aos modos sociais de vida no capitalismo pós-moderno; implicações na saúde, Madel T. Luz, procura ir além da chamada determinação social das doenças, ampliando as concepções de saúde e Saúde Coletiva, ao analisar o viver do sujeito no mundo contemporâneo, marcado que é por um individualismo consumidor. Desenvolvendo uma fina e arguta reflexão, propõe que os modos de vida em nossa sociedade tendem a provocar esgarçamentos e rupturas no tecido social, levando à fragilização da vida, à infelicidade coletiva, provocando adoecimento e morte.

Pensando o lugar central do corpo na experiência do viver, Carlos Augusto Peixoto Júnior, em seu artigo Sobre o corpo-afeto em Espinosa e Winnicot, nos traz uma interlocução entre o pensamento de Baruch de Espinosa e Donald Winnicott, através da qual apresenta uma importante reflexão sobre o lugar das dimensões do corpo e dos afetos para a subjetividade. Nesse contexto, propõe que para ambos os autores o corpo assume o papel de um motor criativo que afirma a potência imanente de afetar e ser afetado como instância de intensificação da vitalidade da existência.

Retomando o debate entre psicanálise e teoria queer, Eduardo Leal Cunha propõe em Sexualidade e perversão entre o homossexual e o transgênero: notas sobre psicanálise e teoria queer, que as diferentes reações de autores do campo psicanalítico às teses dos teóricos queer decorrem do modelo de sexualidade tomado como referência. Tecendo um percurso rico, demonstra que a mais relevante questão colocada para a psicanálise em relação ao transgênero encontra-se no campo da problematização da articulação entre sexualidade, norma e processos de subjetivação.

Em Higiene matrimonial, sexualidade e modos de subjetivação no Brasil do século XIX (1847-1870), Cristiane Oliveira analisa a difusão da lógica higienista dos casamentos pelo pensamento médico e suas ressonâncias, na transição da família patriarcal para a família nuclear no Brasil. Mostra que, através de um conjunto de prescrições, o casamento foi tomado como ideal normativo e modelar da sexualidade. Assim, a instituição matrimonial foi enaltecida como elemento essencial ao progresso da pátria, à custa da condenação das vivências sexuais que ocorriam em sua periferia que foram codificadas como excessivas e desviantes.

Partindo da ideia de que existe no mundo contemporâneo uma erosão da autoridade simbólica e evocando algumas imagens com as quais fomos confrontados nos últimos anos que recolocariam em cena a experiência infantil de desamparo, Leila Guimarães Lobo de Mendonça, em Fazer das tripas coração: a vivência do infantil como abertura à fraternidade no mundo atual, trabalha a hipótese de que um mundo propiciador de vivência de morte pode ser favorável à criação de laços fraternos, que se constituiriam pelo reconhecimento de nosso desamparo, e nos quais as subjetividades seriam reconhecidas em suas diferenças e singularidades.

Refletindo sobre a espetacularização da vida, a partir do manejo jurídico legal das chamadas ocorrências policiais com tomada de reféns, Bianca Sant’Anna de Sousa Cirilo, no artigo Resgate policial de reféns: uma forma de espetacularização da vida, propõe que a intervenção midiática que expõe o conflito parece ser fator fundamental na produção de agenciamentos subjetivos. No espetáculo propiciado pela cena de resgate, observa uma espécie de julgamento, onde os discursos não são livres, são recheados de direcionamentos que capturam, condenam, absolvem. A circulação de afetos, impressões e crenças produzidos pelo espetáculo define lugares e identidades, constituindo o crime e sua salvação.

Juliana Gomes Figueiredo e Elizabeth Maria Andrade Aragão, a partir de pesquisa que procurou resgatar a história da infância e juventude no Brasil, atravessada pelo aparato médico-jurídico, elaboraram o artigo Crianças e adolescentes acolhidos: histórias verdadeiras que às vezes parece que são inventadas, no qual deram voz a crianças e adolescentes abrigadas em casas de acolhimento. Assim, procuraram captar as experiências dessas jovens, suas formas de vida, seus modos de ser e estar no mundo. Nesse trabalho, iluminaram desejos, estranhamentos e tensões que atravessam o cotidiano, engendrando subjetividades singulares.

Reforçando a proposta do Grupo EPOS de divulgar e promover uma interlocução que amplie as discussões em torno da Saúde Coletiva, a revista conversou com o psiquiatra Pedro Gabriel Delgado, um dos importantes articuladores do projeto da Reforma Psiquiátrica no Brasil, que nos brindou com uma entrevista em que avalia algumas conquistas e desafios que se colocam hoje para tal projeto.

Finalizando este número e reavivando a memória coletiva sobre as atrocidades envolvidas nas respostas sociopolíticas brasileiras dadas à experiência da loucura pelo modelo asilar que atravessou o século XX, Silvana Araujo Tavares Ferreira, na resenha intitulada Por dentro dos muros, por dentro das coisas, convida-nos à leitura do livro de Daniela Arbex, Holocausto Brasileiro: genocídio – 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, revelando, através de sua experiência viva como psiquiatra, contribuições do referido livro-reportagem para fazer ressoar as vozes submersas na instituição asilar.

Silvia Alexim Nunes e Cristiane Oliveira
Editoras executivas