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VOL.4 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2013

PEQUENAS DESTRUIÇÕES, DANOS IRREPARÁVEIS: COMENTÁRIOS AOS MODOS SOCIAIS DE VIDA NO CAPITALISMO PÓS-MODERNO; IMPLICAÇÕES NA SAÚDE *

Madel T. Luz **

* – Este artigo resulta da reelaboração da Conferência de abertura do VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da ABRASCO, pronunciada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 14 de novembro de 2013. Algumas características principais do texto da conferência foram mantidas no artigo.

** – Graduada em Filosofia pela UFRJ. Mestre em Sociologia pela Universidade Católica de Louvain. Doutora em Política pela USP, com estágios pós-doutorais em Paris e Lisboa (2005; 2008; 2012). Professora titular aposentada da UFRJ e da UERJ. Professora colaboradora da UFRGS e da UFF. Autora de dez livros e inúmeros artigos e capítulos de livros psicanalíticos.

Resumo: O artigo, resultante de uma conferência pronunciada no VI Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Saúde, em 2013, trata da vulnerabilidade biopsíquica e social das pessoas vivendo na sociedade contemporânea, em função da destruição e perda de laços sociais fundantes da história da cultura humana. A fragilização da saúde das populações, em conseqüência da perda do reconhecimento do outro como semelhante, que necessita ser acolhido e respeitado como tal, incentivada pela competição, liderada pelas instituições centrais do capitalismo, sobretudo as econômicas, despidas atualmente de qualquer valor ligado à ética, vista no artigo como dimensão fundamental para a sustentação da vida humana, tem levado à morte (inclusive por suicídio) milhões de pessoas por adoecimentos possivelmente evitáveis em outro contexto social normativo, isto é, em outra ordem social. Analisando o papel das atuais tecnologias visuais e sonoras na contínua mistificação das mentalidades, e seu papel na reprodução do consumismo capitalista, o texto vê com preocupação a destruição, não apenas dos laços entre humanos, mas também da perda de sentidos e de ligação dos seres humanos com a vida como um todo, através da progressiva devastação do planeta provocada pelas instituições de produção e consumo, à qual a espécie humana assiste – quando não participa – atônita, sem uma resistência vigilante, exceto por certas organizações civis heróicas, que não ameaçam o processo de destruição do planeta em marcha.

Palavras-chave: Saúde; vulnerabilidade; laços sociais; ordem social.

Abstract: This article results from a lecture pronounced during the VIth Brazilian Congress of Social Sciences and Health, Rio, november 2013. It deals with the biopsychic vulnerability of people living in contemporary society, which is seen in the text as the consequence of destruction or loss of human ties which are part of the historical grounds of human culture. This loss conducts to the frailty of population’s health, as a consequence of the denial of the other (living human being) as our similar, who needs, to be healthy and happy, to be recognized and respected as we ourselves are. This social process of loss and vulnerability has its source in present capitalist institutions, mainly the economic ones. These institutions have no more links with any ethic values. The article adopts the point of view that ethics is an essential dimension for human existence, and its denial conducts to suffering, disease and death of millions of people, who are getting sick of chronic and acute diseases, and dying, as a consequence of this denial, including the increasing number of suicides each year. Seeing the role of media in convincing and leading people to continuous – and unnecessary – consuming, the article shows a great concern with the present destruction of human lives, but also with the possible destruction of life in the planet as a whole, since the efforts of some civil organizations do not seem to affect the ongoing destructive process of physical atmosphere and life in general.

Keywords: Health; consumption; human vulnerability; social ties; social order

1. Introdução: panorama da pletora atual de sons, imagens, mensagens

Quis escrever este texto como um ensaio sociológico, entre o artigo resultante de pesquisa e a reflexão teórica, elaborado como escrita apenas, sem qualquer imagem, nosso principal fetiche na cultura contemporânea.

Não traria para a exposição do texto as ilustrações: slides, fotos, gráficos etc., tão caras a estudantes, docentes, pesquisadores e gestores da área da saúde, inclusive na subárea disciplinar das ciências humanas e sociais.

Mas desisti de me fazer só ler ou ouvir, embora ouvir, no sentido de escutar, seja atualmente o de que mais necessitamos: ouvir a nós mesmos, em nossas necessidades, ansiedades e frustrações; ouvir o outro, seja o vizinho, o amigo, o amante, o adversário de equipe, o colega de trabalho, a multidão que protesta, enfim, ouvir a nós, humanos, no mundo, ou do mundo. Como dizem psicólogos e psicanalistas na clínica, abrir a escuta.1 E percebi que, neste caso, abrir a escuta do outro, na Saúde Coletiva, seria apresentar meu discurso na forma como os agentes desse campo podem mais facilmente apreender e compreender: palavras ilustradas por imagens.

Para não ser dura nem com um nem com outro sentido: visão ou audição, ao finalmente formatar o conjunto de afirmações, interrogações, dúvidas e perplexidades sobre as implicações de nossos modos atuais de vida na saúde, decidi acolher esta forma de exposição: palavras entremeadas de imagens, de modo que o texto seja mais bem entendido por todos. Mas devo reconhecer, neste estilo de apresentação, a influência do último projeto de pesquisa que coordeno no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cadastrado na UFRGS em 2011, sobre o imaginário social e a retórica das imagens, que busca interpretar o papel das revistas de divulgação científica – sobretudo no que concerne às biociências na cultura atual em relação à vida e saúde.2

Como método de exposição optei por não trazer a forma mais comum de artigo, com abundantes referências bibliográficas ligadas à produção recente da área, citações e notas. Afinal, a estrutura discursiva científica que resulta não é necessariamente um discurso de criação, ou mesmo um discurso de invenção: ela pode no máximo ser, seguindo as exigências da produção acadêmica atual, o discurso de inovação, aquele que traz novidades tecnológicas para a(s) disciplina(s) (LUZ e SABINO, 2013a).

Mencionarei, entretanto, ao longo do texto algumas fontes de inspiração, de autores clássicos e “neoclássicos”, autores influentes no pensamento das ciências humanas e sociais.3 Mantenho também a intenção de apresentar este texto em escritura mais fenomenológica, entre aspas, isto é, em que alguns exemplos e comentários emergem do cotidiano, seja o meu, seja o de pessoas comuns, seja até mesmo aqueles presentes na imprensa, desde que relacionados ao tema do artigo.

Para iniciar o conteúdo deste texto é melhor esclarecer de saída o que entendo por saúde e por saúde coletiva: minha abordagem, compreensiva, faz-se no campo das ciências humanas, para além da epidemiologia social, costumeiramente presente nas abordagens da saúde coletiva. Embora reconhecendo e mencionando em partes do texto a importância desta área disciplinar para a saúde coletiva, minha intenção é ir além da chamada determinação social das doenças de indivíduos, grupos e coletividades. O objetivo central do texto é a análise do viver do sujeito, e não de suas patologias, já instaladas ou com altas probabilidades de serem contraídas, nem os métodos possíveis de controle e prevenção das mesmas.

Desejo tornar claro, através da abordagem compreensiva das ciências sociais, que o modo de viver, ou os modos de vida em sociedades específicas (BOURDIEU, 1993) podem provocar esgarçamentos e rupturas no tecido social, levando, consequentemente, à fragilização da vida, e à infelicidade coletiva, pela perda de sentidos implicada no processo social, provocando adoecimento e morte. Esta preocupação, teórica e empírica, já data de cerca de quinze anos, e repercutiu no campo da Saúde Coletiva desde o III Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da ABRASCO, presidido por mim em Florianópolis, que teve por tema os “Desafios da fragilidade da vida na sociedade contemporânea” (LUZ, 1997, 2004, 2005a, 2005b, 2007, 2008).

Insisto neste início que a felicidade e a infelicidade das pessoas não podem se desligar da sociedade em que vivem, e dos tipos de relações nela estabelecidas. A saúde, como a felicidade das pessoas, é socialmente forjada no encontro – ou desencontro – do conjunto humano em que vivemos. Não se trata de idealizações ou de ideologias, mas de construção social.

Deste ponto de vista posso afirmar que há sociedades mais saudáveis e outras menos, e que há sociedades francamente insalubres, ou doentes, como a nossa. Não é o PIB de uma sociedade, nem seu IDH, índices institucionais de medida de desenvolvimento socioeconômico capitalista, que nos esclarecem sobre uma coletividade mais feliz, ou mais saudável.

O Butão, país oriental longínquo de nós como lugar e cultura, estabeleceu como índice de desenvolvimento de sua sociedade o grau de felicidade de sua população. Este seria certamente considerado um índice folclórico, até mesmo nulo, pela inviabilidade de sua comprovação em termos de nossa economia tecnológica e quantitativista, que só recentemente, face às crescentes catástrofes naturais, empenhou-se em analisar o efeito de intervenção das tecnologias de produção na natureza, termo criado no início da modernidade (LUZ, 1988), agora redefinida como meio ambiente. Desejo assinalar, por outro lado, que as implicações na saúde coletiva, derivadas dos modos de vida mencionados, podem ser diretas ou indiretas, e provêm de fontes diferenciadas, no que qualifico como agressão à saúde humana. Citarei, para iniciar, as que atingem com mais dureza os nossos sentidos diretamente ligados ao mundo externo: audição e visão.

A pletora inquestionável de sons e imagens, que nos invadem ininterruptamente pelos olhos e ouvidos através de aparelhos eletrônicos tem nos causado, segundo dados das organizações internacionais de saúde (Organização Mundial e Pan-Americana de Saúde) e de estudos atuais de especialidades médicas, diversos tipos de disfunções, síndromes, doenças agudas ou crônicas, segundo o grau, a intensidade e o tempo de exposição dos indivíduos aos mesmos, dentre os quais predominam as patologias neurológicas. Quase diariamente há notícias difundidas em jornais e revistas sobre os “pequenos aparelhos” e os potenciais danos que podem trazer ao sistema neurológico, ou aos sentidos expostos aos mesmos.


Fonte: http://designativista.wordpress.com

Incluí como exemplos usuais desses agressores eletrônicos um conjunto variável de aparelhos que nos invadem pelos ouvidos, que denominei tecnoveículos: os celulares, os MP3, 4, ou 5, assim por diante, até as TVs com seus poderosos home theaters, rádios de automóveis, sons de rua etc.

Incluí também os aparelhos que nos invadem pela visão, captando-nos a atenção pelo olhar, cativo por horas a fio, seja em interlocuções virtuais, jogos eletrônicos, ou ‘chats’ envolvendo pessoas de todas as idades. Particularmente atingidos são os digitadores em seu trabalho cotidiano, ou pesquisadores e vários outros profissionais, em seu computador.4

Todos os aparelhos citados, através dos estímulos continuados que emitem, são danosos à saúde humana, não apenas no que concerne aos sentidos, como, sobretudo, ao seu coordenador mental, o cérebro. Mas causam dano principalmente à totalidade do biossistema planetário: a vida humana, a animal, a vegetal,

Tem sido discutido atualmente em reportagens impressas, em sites e em artigos de divulgação científica que os males produzidos pelos sons em altos decibéis são danosos não só ao sistema neurológico de seres humanos como de animais domésticos. É possível refletir que também vegetais submetidos ao regime continuado de ruídos em alto volume, assim como a estímulos visuais fortes ininterruptos possam estar sendo prejudicadas em seu desenvolvimento, já que experiências com música harmoniosa e em volume controlado resultam, em animais de criação, em melhor digestão e reprodução da espécie, e nas plantas, em desenvolvimento harmonioso.5

O importante a ressaltar, entretanto, é o efeito antissocial desses aparelhos, que costumam ser individuais, mas que intervêm no meio social, provocando, através de afastamento psicofísico entre as pessoas, obstáculos às comunicações, conversas, interlocuções, até o mero interesse de quem está “plugado” nos aparelhos pelo que se passa ao redor com os outros seres, esgarçando assim o tecido social, pela negação dos vínculos sociais, pelo isolamento social que pode resultar desta negação6 e pelo incentivo ao autointeresse como modo correto de ser e estar no mundo, desconhecendo, ou até mesmo hostilizando, o outro.


Fonte: Título – Multidão; autor: Eduardo Cambuí, ano: 12/12/2008, disponível em: http://www.arteporparte.com/2008/12/multido.html

O individualismo oficial se nutre desta negação. Delimita “fronteiras” a serem respeitadas em diversos espaços sociais: bancos, lojas, restaurantes, cinemas, estacionamento de veículos em prédios (FOUCAULT, 1989). Em todos esses espaços pode haver competição por “vagas”, gerando frequentes conflitos de certa gravidade. Um exemplo impressionante, retirado do noticiário do jornal O Globo (p. 26) de 30 de novembro passado:

“Idosa é agredida por mulher e filha menor” (Título da notícia)

(…) Vaga (em garagem) teria provocado discussão. Delegacia registra como agressão mútua. Policiais estão investigando as circunstâncias da agressão sofrida por uma dona de casa de 63 anos durante uma discussão num prédio comercial… as agressoras eram mãe e filha – uma adolescente de 16 anos que nas redes sociais se apresenta como praticante de boxe tailandês. As três teriam começado a discutir quando procuravam vaga no estacionamento do prédio (…) Laudo do Instituto Médico Legal e do Hospital do Andaraí, onde a dona de casa foi atendida, constataram que ela sofreu fratura no nariz e diversas fissuras em ossos da face. Os ferimentos deformaram seu rosto (…). 7

Origina-se neste contexto social insatisfação coletiva, marcada por estresse constante, embora pouco percebido. Impaciência e agressividade são atitudes típicas nesses espaços. Estresse contínuo é gerado nessas fronteiras invisíveis. E comportamentos induzidos por estresse podem ser agressivos.

Não nego, nesta “luta por espaços”, o papel da urbanização acelerada –diria exacerbada – que praticamente eliminou a separação campo/cidade existente até a primeira metade do século XX. Tampouco nego a multiplicação da população planetária em poucas décadas, sobretudo a população urbana. Mas o encolhimento do espaço físico para tantos não implica necessariamente hostilizar ou excluir o vizinho, quem está próximo ou quem consideramos descartáveis, como sobra social. São os valores sociais ligados à competição que originam a multidão que se estranha como espécie. E é uma multidão triste, de fisionomia fechada, esta que emerge desses valores, desfilando pelas ruas, fruto das tecnologias ligadas ao consumo e da desvinculação entre pessoas.

Falo aqui, por isso, com certa insistência, das implicações na saúde coletiva desses e de outros artefatos de intervenção eletrônica audiovisual na vida cotidiana, cuja onipresença em comunicação e informação tem o efeito de isolar-nos, reduzindo-nos à condição de indivíduos “conectados” com outros indivíduos. São meios tecnológicos que intervêm no nosso existir, de cuja ação não nos damos conta, e que atuam, através dos sentidos, de modo subliminar, na nossa esfera psicoemocional, atingindo atitudes, modos de agir como sujeitos e como pessoas nos nossos grupos. Na verdade, atuam na sociedade como um todo, provocando danos à sociabilidade (LUZ et al., 2013b).

Essas modalidades de intervenção não são simbolicamente neutras: criam sentidos e geram mensagens voltadas para a necessidade de consumir, para o contínuo apelo ao consumo, sendo eles próprios objetos do consumo tecnológico, composto por itens diferenciados por griffe e preço, pelo avanço tecnológico, pela capacidade de conexão imediata entre indivíduos, grupos ou coletividades: coletividades de indivíduos ou grupos em rede, que se tornam coletividades sociais

Não quero negar, portanto, o papel relacional que tem resultado dos meios tecnológicos audiovisuais. O que as redes sociais produzem atualmente de conexão coletiva imediata em função de fins culturais, políticos, sociais, de solidariedade ou mesmo afetivo/sexuais, é inegável e impressionante. E estas conexões resultam também das novas tecnologias de comunicação. Mas por não produzirem vínculos estáveis, reduzindo-se geralmente a ligações voláteis, não chegam a criar relações sociais duradouras. Tampouco estão isentas das hostilidades típicas do meio social “físico”.

Penso que esta capacidade de conexão não implica necessariamente comunicação entre os sujeitos. Isto é, não supera o individualismo nem o isolamento, consciente ou não, que o consumir provoca. Na sensação de carência dos indivíduos reduzidos a consumidores origina-se uma ansiedade constante, aplacável somente pela ação do consumo, reposta logo após o ato do consumo, muitas vezes culpado. E nos consumidores individualizados fica negada, no sentido psicanalítico de negação, sua condição de sujeito. Só uma pessoa pode ser sujeito. E uma pessoa é única e multidimensional ao mesmo tempo, irredutível a elemento de conjuntos simétricos, como se átomos ligados por terem certas propriedades idênticas, mas não diferenciáveis singularmente: são perceptíveis apenas como totalidade de elementos semelhantes.

O individualismo consumidor busca negar continuamente, através das mensagens de prazer e liberdade dirigidas ao ato de consumir, as outras dimensões da pessoa que consome: apresenta-se, como diria Lacan, como o único e total objeto de gozo, como o objeto a, isto é, como sedução do sujeito no ato. Estou me referindo aqui a todo este conjunto de modos de transmissão de mensagens: visuais, auditivas, até mesmo olfativas ou táteis, que funcionam como elemento estratégico de captura dos sujeitos da publicidade, no contexto da sociedade de mercado em que vivemos, visando à sedução dos indivíduos pelo consumo (LUZ et al., 2013).

Esses modos de transmissão originam continuamente, pela pletora de mensagens conseqüentes a sua incitação ao consumo, efeitos de atitudes e de emoções, de hábitos e de comportamentos, de estilos de ser humano, variáveis por pessoas, grupos sociais, raças e classes, mas igualmente presentes no tecido social. Tornam-se efeitos comuns a todos os indivíduos, grupos e classes, embora os efeitos sociais gerem apenas egos provisórios, identidades etéreas, indo além, no sentido da volatibilidade, das identidades líquidas de que fala Zygmunt Bauman (BAUMAN, 2007).

Essas identidades egos, ou estilos etéreos de ser, são frutos das modas do aparecer, geralmente anunciadas por ídolos temporários, por seu estatuto de sucesso: as famosas celebridades de todas as áreas: política, econômica, cultural, esportiva etc. Estão longe de constituir sujeitos; ao contrário, tendem a reafirmar o indivíduo consumidor como a unidade social prioritária, portadora da liberdade proporcionada apenas pelo consumir.8 Resulta deste complexo engenho social do consumo, midiatizado pelos aparelhos tecnológicos de imagem e som físicos ou virtuais, para retomar as palavras do genial sociólogo da comunicação dos anos cinquenta passados, David Riesman (RIESMAN, D. 1971), uma multidão solitária.


Fonte: http://moncoeursauvage.wordpress.com/tag/peito/

2. Pequenas destruições, danos irreparáveis: fissuras na malha, rupturas no tecido social: perdas políticas, éticas, sociais e humanas nas relações capitalistas atuais – consequências para a saúde e a vida

Comecemos, nesta segunda parte do artigo, por tentar avaliar danos gerados pelas pequenas destruições diárias do vínculo social primário, aquele que se realiza na interação psicofísica imediata entre as pessoas. Com que instrumentos de avaliação se poderia medir os danos causados pela contínua afirmação de isolamento individual em que nos confinam os pequenos aparelhos de som e/ou imagem? Até o momento não temos resposta para isso, mas algumas ações dos danos e de destruição do tecido social podem ser observadas, na hostilidade latente entre indivíduos e grupos sociais.

Este é certamente um indício desta destruição: por desconfiança ou medo do outro, diariamente procuramos evitar o contato físico, ou mesmo o do olhar, com “desconhecidos”, isto é, com outros seres humanos – ou mesmo animais – que não conhecemos, ou pelo menos com quem não tivemos contato prévio. Um pequeno exemplo de meu cotidiano:

Estou olhando uma vitrine de bijuterias finas no shopping que frequento quase diariamente. De repente uma pessoa se aproxima de mim por traz, imobilizando-se muito próximo do espaço que ocupo. Meu corpo se contrai por completo como reação. O movimento seguinte do corpo do outro é de maior aproximação, quase encostando no meu. Pivoteio em cento e oitenta graus e encaro a pessoa, uma senhora mais ou menos da minha idade, que se contrai por sua vez, como fulminada, e suplica à vendedora: por favor, atenda esta senhora antes de mim, diz, acentuando o medo que lhe provoco (comentário narrado pela autora).

A maioria das reações individuais dá-se, principalmente, nos grandes centros urbanos, praticamente no plano do reflexo, em geral envolvendo medo, agressividade motivada por raiva contida, más palavras, sobretudo quando se referem a pessoas em estado de extrema carência – sem tetos, mendigos, ‘pivetes’, drogados –, até mesmo indivíduos tornados vulneráveis por sua condição física, como pessoas em idade muito avançada, “cadeirantes”, ou vulnerabilizados física ou mentalmente em geral.9

No Brasil, auto considerado liberal na questão do racismo, pessoas de raça negra ou indígena são ainda alvo frequente de discriminações, tanto tempo após campanhas de esclarecimento antirracista; na Europa e no resto do mundo capitalista a xenofobia, assim como o ódio a imigrantes e pobres, em função do movimento migratório de populações inteiras através do planeta, vem crescendo.10

Mas nós, seres humanos, como a maioria das espécies animais, não temos a natureza de viver, como os ursos, ou as onças, isolados em suas tocas. Somos, desde o início de nossa vida na Terra, seres gregários, animais sociais.

Em consequência, tendemos, desde fases iniciais de nosso desenvolvimento histórico, a reunir-nos em bandos, geralmente em oposição a outros bandos, é verdade, a defendermos conjuntamente nosso abrigo, alimento e cria. Inventamos uma linguagem para nos comunicar, que nem sempre foi o discurso oral ou escrito; aperfeiçoamos nossas armas e utensílios, que nos garantiram sobrevivência diante das espécies mais fortes; estivemos sempre juntos, embora raramente unidos, é certo, ao longo de nossa história relativamente curta no planeta. A este respeito manifestou-se, já na segunda metade do século XIX, no seu Prefácio à Crítica da Economia Política, Karl Marx, pensador clássico que está na origem das Ciências Sociais e da Economia (atualmente, considerada a crise estrutural capitalista, retomado para leitura por sociólogos, cientistas políticos e economistas):

Na produção social de sua existência os homens estabelecem relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade (individual),11 estas relações de produção correspondem a um certo grau do desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações forma a estrutura econômica da sociedade… (MARX, 1965, p. 272).

A percepção de pertencimento a um todo social que produz e reproduz material e simbolicamente sua existência, o que nos aglutina e nos qualifica como espécie inteligente, é nossa marca de humanos. Da espécie animal humana como um todo.

O que pode então acontecer a uma cultura, ou a uma civilização, e seus membros, quando esta afirma e confirma, direta ou indiretamente, continuamente, movida por interesses relativos ao seu modo de produção econômico, que somos um conjunto de átomos isolados que consomem, que se distinguem hierarquicamente entre si apenas pelo preço ou “exclusividade” do objeto que consumimos, isto é, pela mercadoria transformada, segundo a expressão de Marx, em fetiche,12 e que não formamos um todo coeso de membros que necessitam uns dos outros para conviver em harmonia no planeta, ou simplesmente para nele sobreviver? O que poderá suceder ao tecido social que nos serve de abrigo, suporte e garantia de sobrevivência há milênios? Certamente destruição e danos sociais são consequências previsíveis, em marcha no planeta Terra.

Não por acaso o imaginário literário e cinematográfico está repleto de filmes que apregoam o fim da espécie humana, ou do planeta Terra, ou de ambos, pela contínua ação antissolidária e destrutiva dos humanos com a vida.13


Fonte: Filme – ‘Planeta dos Macacos’. Diretor: Rupert Wyatt. Ano: 2011

A espécie humana teceu, ao longo dos milênios de seu viver, o fio que é vínculo básico da teia da organização social: a solidariedade. A solidariedade é o reconhecimento em ato do outro, da alteridade. Ela é que nos garantiu a sobrevivência, mesmo em meio às lutas de grupos, etnias, Estados e blocos de nações, como no caso das guerras e revoluções. O apoio mútuo, o socorro aos mais vulneráveis, a percepção de que todos nós podemos estar naquele lugar de sofrimento em algum momento, e a reação coletiva, grupal ou individual em proveito dessa alteridade, singular ou coletiva, é uma característica que atravessou a história de milênios da humanidade. E ainda hoje cresce, na contramão do individualismo

O fato de nos distanciarmos deste apoio, e de incentivarmos entre nós a desconfiança, o medo do outro, a suspeita de que o próximo é um inimigo disfarçado, potencialmente letal, causa um dano irreparável no tecido social, e na nossa psique! Propagandas e publicidades no comércio, nos bancos e até em instituições públicas procuram incentivar em todos nós, todo o tempo, medo e desconfiança de quem está ao lado, alegando motivo de segurança. Mas segurança de quem? Do meu ponto de vista trata-se da segurança das organizações institucionais e das empresas. Em outras palavras, trata-se da segurança do capital e dos agentes, financeiros sobretudo, que o controlam.14

A segurança das empresas, públicas ou não, e de suas atividades, em qualquer ramo de atividade, tornou-se, no capitalismo atual, superior à vida e ao bem-estar das pessoas, sejam eles clientes de serviços, consumidores, empregados, funcionários, enfim, os que garantem a sobrevivência do capital em todos os setores. O sentimento de opressão torna-se inevitável! O sentimento difuso de estar preso numa ratoeira, ou enjaulado no sistema, é uma vivência comum, fonte de um conjunto de distúrbios psicoemocionais.

Não se vê saída no mercado de trabalho, quase escravista, dado o nível de exigências a que se submetem atualmente os trabalhadores, em geral, precários, instáveis, voláteis mesmo. A tal ponto que uma parcela crescente de jovens nem quer mais tentar entrar no núcleo do sistema econômico, núcleo que encolhe continuamente em função de um dos princípios do capitalismo contemporâneo: o de poupar mão de obra. O automatismo tecnológico característico desta fase da economia dispensa o trabalho humano, o que implica dispensar os trabalhadores, ou aceitá-los em “jobs” descartáveis, destituídos do status social e do prestígio das funções ligadas a direitos históricos conquistados ao longo do século XX. O capitalismo atual praticamente canibaliza a força de trabalho

Surge neste novo milênio, da imensa massa dispersa resultante de “sub” trabalhadores e trabalhadores precarizados, o que alguns sociólogos têm denominado de precariato.15 O capital financeiro detém atualmente o controle sobre a produção como um todo: sobre o trabalho, sobre a circulação e sobre distribuição do produto/ mercadoria, através do incentivo ao consumo.


Fonte: http://vermelhofaial.blogspot.com.br/2005/05/capitalismo-crise-de-valores.html

Por outro lado, a derrocada das profissões tradicionais, portadoras de uma ética do trabalho civilizatória (WEBER, 2004), entre elas as de professor, médico, advogado, comerciante, contador etc., seja pela passagem de sua execução e controle ao capital financeiro monopolista, seja pelo desprezo dos governos contemporâneos às funções públicas implicadas nessas carreiras: escola, atenção à saúde, segurança etc., ocasiona a perda de valores nas relações sociais estatutárias entre profissionais dessas carreiras e os que por elas necessitam ser atendidos, levando a um caos civilizatório, onde não mais se respeitam princípios éticos e políticos há séculos cimentados no solo social. A disputa interna entre os agentes que estão nas funções estáveis do núcleo do sistema tornou-se uma batalha individualista, movida pela competição no trabalho, e pelo trabalho, muitas vezes destituída de qualquer princípio ético, e eivada de práticas imorais de competição que levam a sofrimento, adoecimento e até mesmo morte entre os colegas, trazendo assim danos irreparáveis a um dos fios básicos da tessitura da rede do tecido social: a solidariedade entre trabalhadores, e a busca de restauração de direitos universais de cidadania. O jogo do cada um por si a qualquer preço, tão prezado atualmente em certas carreiras, entre elas a acadêmica, é sem dúvida causador de danos ao tecido social, tornando uma parcela crescente de trabalhadores dessas carreiras vulnerável a doenças crônicas e agudas.

Nas últimas três décadas, profissões e carreiras se institucionalizaram no Estado, originadas de atividades não previstas para sê-lo, destacando-se entre elas a dos políticos, cuja carreira, quando existente, em décadas anteriores aos anos 90, resultava dos votos populares que mantinham em seus cargos os eleitos. Talvez um dos danos éticos maiores, senão o principal, causado ao Estado republicano, origina-se da profissionalização dos políticos, eleitos para permanecerem provisoriamente em postos legislativos a serviço da população, ali colocados pelo voto popular. Aqui se pode talvez, encontrar uma das fontes da dissolução dos partidos como portadores de propostas político-ideológicas de governo. A política como profissão nada mais gera atualmente que grandes fontes de despesa para o cidadão. Pois políticos custam caro.

Toda esta mutação no regime capitalista de produção não seria talvez tão preocupante se outras instituições pilares do Estado Moderno não tivessem se corrompido, em função da acumulação de poder financeiro, por políticos e grupos econômicos ou corporativos. E a principal dentre elas talvez seja a justiça. Não me refiro aqui ao poder da República compartilhado com o Executivo e o Legislativo, o Poder Judiciário, que tem por meta controlar os outros dois, sendo também controlado pelos mesmos. Refiro-me aqui à dimensão social que está presente nos três princípios que originaram o estado moderno republicano: liberdade, igualdade e fraternidade. Sem a justiça, que decorre da Ética como dimensão do ser humano face ao bem e o mal, e a Política, dimensão do agir social em benefício comum, não há esperança em uma sociedade, senão feliz, ao menos saudável, com uma vida social menos atribulada. É da corrupção da Justiça como dimensão humana decorrente da Ética e da Política que falo (WEBER, 2006).

Isto significa que não apenas os poderes do Estado podem se corromper, com suas instituições, mas também as instituições civis se corrompem, como a família, que gera as relações primordiais com o outro, ou as relações de grupos, entre amigos, as entre pares, ou colegas, as entre gêneros etc. Assim, vínculos sociais básicos se danificam e se destroem.


Fonte: Corrupt Legislation. Mural by Elihu Vedder. Lobby to Main Reading Room, Library of Congress Thomas Jefferson Building, Washington, D.C. Main figure is seated atop a pedestal saying “CORRUPT LEGISLATION”. Artist’s signature is dated 1896. Disponível em: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Corrupt-Legislation-Vedder-Highsmith.jpeg?uselang=pt-br

Não creio que haja dano maior a uma sociedade que a perda da esperança na justiça, seja ela social, política, jurídica, ou econômica, como vem acontecendo no capitalismo contemporâneo, segundo alguns, fruto de crise estrutural. Os cidadãos perdem sua crença na condição de cidadãos de uma Nação, de membros de uma sociedade civil organizada, tornando-se uma multidão de indivíduos não solidários, desvinculados, desorganizados.

Mas a multidão tende a se aglutinar, seja em busca de apoio ou socorro mútuo, para conseguir o que precisa ou deseja, seja para festejar, para torcer, para protestar, para manifestar sua raiva contida, desfilando, discursando, ou mesmo destruindo, retornando talvez, a um patamar inicial de sociabilidade, originado no hipotético bando primitivo. Através das redes sociais, o veículo atual principal de comunicação entre as camadas que formam a multidão, esta se reúne para demonstrar seu descontentamento com questões políticas e sociais em geral, envolvendo a moralidade, a sexualidade, a solidariedade. Embora se possa afirmar que a multidão aglutinada pelas redes sociais se reúne mais por causas comuns do que por interesses comuns, como no caso tradicional dos grupos e classes sociais. Por isto também, o vínculo que reúne a multidão tende a ser provisório.


Fonte: http://afinsophia.com/2008/03/15/paralisacao-dos-servidores-da-saude-no-centro-de-manaus/

Mas a multidão emerge neste sistema de organização social como sujeito, como novo ator social, divertindo-se, torcendo, protestando, manifestando, quebrando. Irrompe na cena política como um ator inesperado, provocando medo e suspeita no corrompido sistema capitalista, bem como nas classes – média e superior – que temem sua ação.

Sistema e classes que estigmatizam a multidão, ao invés de tentar compreendê-la, maltratando os indivíduos revoltados, sem procurar entender que sua revolta é filha de necessidades profundas não satisfeitas. Reagem com violência contra ela, muitas vezes contra simples cidadãos, mas chamam de fascista a violência provocada pela multidão. Ou por alguns de seus membros mascarados. Nenhum reparo ao tecido social danificado poderá advir daí. Pelo contrário, antigos cacoetes autoritários voltam às faces dominantes.16

Precisamos, nós que estamos no campo das ciências sociais e humanas pensando a vida e a saúde, nos ocupar urgentemente desses fatos, a meu ver preocupantes. Necessitamos tentar vê-los como uma questão atual importante da saúde coletiva, da nossa saúde, como cidadãos, e agir, consequentemente, em futuro imediato, buscando construir uma sociedade mais justa e equilibrada, logo, mais sadia, certos que no estilo de sociedade atual a saúde e a vida humanas estão em perigo. Mais geralmente a vida inteira da Terra.

Pois não apenas o nosso viver, como acentuei no início deste artigo, mas o de outras espécies também está em perigo. Isto é, está em perigo a vida do planeta como um todo. Estaremos chegando ao ocaso da humanidade, a ponto de ter que ceder lugar na Terra a outras espécies, ou a máquinas pensantes, como os andróides? Retomamos como advertência cultural o imaginário da ficção científica cinematográfica, mencionado na primeira parte do texto, e seu pessimismo, que vê o homem e sua civilização como um empecilho à vida…


Fonte: Filme – ‘Planeta dos Macacos’. Diretor: Rupert Wyatt. Ano: 2011

Referências bibliográficas

BALMAN, Z. Vida Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

BOURDIEU, P. (Coord.). La Misère du monde. Paris: Seuil, 1993.

CASTEL, R. Les métamorphoses de la questionsociale – une chronique du salariat. Paris: Fayard, 1995. (Col. Léspace politique.)

_____. L’ insecurité sociale Qu’est-ce qu’être protegé? Paris, Seuil, 2003

FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Zahar, 1989.

LUZ, M. T. Natural, racional, social – razão médica e racionalidade científica moderna. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

_____. Fragilidade social e busca de cuidado na sociedade civil de hoje. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R. A. (Orgs.). Cuidado: as fronteiras da integralidade. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2004, p. 9-20.

_____. Cultura contemporânea e medicinas alternativas: novos paradigmas em saúde no fim do século XX. PHYSIS: revista de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, n.15 (suplemento), p. 145-176, 2005a. Reedição do artigo de LUZ, M. T. em PHYSIS, v. 7, p. 13-45, 1997.

_____. Prometeu acorrentado: análise sociológica da categoria de produtividade e as condições atuais da vida acadêmica. PHYSIS: revista de Saúde Coletiva, v. 15, n. 1, p. 39-58, 2005b.

_____. Perda de ética no trabalho acadêmico: geração de sofrimento e doença entre trabalhadores universitários a partir do produtivismo como valor-fim entre pesquisadores docentes. In: PINHEIRO, R.; MATTOS, R. A. (Orgs.). Razões Públicas para a integralidade em saúde: o cuidado como valor. Rio de Janeiro: CEPESC-IMS/UERJ-ABRASCO, 2007, p. 357-367.

_____. Notas sobre a política de produtividade em pesquisa no Brasil: conseqüências para a vida acadêmica, a ética no trabalho e a saúde dos trabalhadores. Política & Sociedade: revista de sociologia política, v. 7, n. 13, p. 205-228, 2008.

LUZ, M. T. e SABINO, C. A ciência como Cultura no Mundo Contemporâneo: a utopia dos saberes das (bio) ciências e a construção midiática do Imaginário Social. SOCIOLOGIAS, Porto Alegre, ano 15, n° 32, p. 236-254, jan./abril 2013(a).

LUZ, M. T. et al. Contribuição ao Imaginário Social Contemporâneo: retórica e imagens das biociências em periódicos de divulgação científica. Interface (BOTUCATU), v. 17, n° 47, p. 973-984, out.-dez. 2013(b).

MARX, K. Introduction Générale à La Critique de l’èconomie Politique. In: _____. Oeuvres. Paris: Gallimard, 1965, p. 234-266.

_____. Critique de l’Economie Politique – Avant Propos (Prefácio). In: _____. Oeuvres. Paris: Gallimard, 1965, p. 272.

RIESMAN, David. A multidão solitária. São Paulo: Perspectiva, 1971.

WEBER, MAX. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Trad. revisada por Antônio Flavio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 335p.

Notas:

1 Para os profissionais da área “psi” em geral: psicanalistas, psicólogos, inclusive terapeutas do corpo, bioenergéticos e socioanalíticos, a escuta do outro é a condição indispensável do processo terapêutico.
2 O Projeto, cadastrado na UFRGS em novembro de 2011, sob o título “A ciência como cultura no mundo contemporâneo: divulgação midiática de saberes científicos e construção do imaginário social”, consta de estudo comparativo, em desenvolvimento em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, sobre periódicos de divulgação científica – centrado nas biociências – em revistas de bancas de jornais. Encerrou fase de campo em 2013, originando um artigo publicado em dezembro. Ver bibliografia no fim do texto.
3 Entre essas fontes de inspiração, nem sempre citadas ao longo do texto, destacam-se os clássicos Marx, Durkhein e Weber. Entre “neoclássicos”, são fontes importantes de inspiração: Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Robert Castel, David Riesman, Jacques Lacan, Zygmunt Bauman, concernentes às questões relativas ao poder político e simbólico, à dissolução do sujeito, ao consumismo individualista, e à fragilização dos vínculos tradicionais do trabalho, temas principais do artigo. Ver Bibliografia no final.
4 Uma parte considerável de estudos epidemiológicos e qualitativos recentes sobre LER/DORT evidencia a relação entre tempo de digitação e o surgimento desses e demais sintomas ortoesqueléticos ou neuromotores. Outros, propriamente neurológicos, indicam déficit de atenção, déficit cognitivo, perda de memória etc., em função de horas no computador. Não estamos considerando aqui os danos à visão.
5 No início do milênio a agroindústria europeia experimentou com sucesso o uso de música harmoniosa – geralmente clássica – na criação do gado leiteiro. Em certas regiões da França utilizou-se música nas vinhas voltadas para a produção de vinho, visando ao crescimento expansivo e harmonioso das uvas, para gerar vinho de qualidade. Por tratar-se de noticiário impresso já passado não tenho como restaurar essas fontes, que me chamaram a atenção no momento, nem sei se este processo continua atuante na produção leiteira ou nas vinhas. Certamente uma busca em sites com descritores relativos a este tema trará indicações sobre a situação atual. Não se tratando de assunto central no artigo deixo aos leitores curiosos esta tarefa…
6 O vínculo, conexão elementar afetiva entre os seres humanos, seja de natureza interpessoal, grupal ou coletiva é, do meu ponto de vista, o “nó básico” que está na origem do tecido social. Pode variar em intensidade, duração, permanência, mas é o que nos garante o “não estou só” na vida social.
7 Escusado dizer que o rosto estampado na foto do jornal é de causar horror ao competidor por vagas mais empedernido dentre nós… o chocante na notícia é o incentivo que a mãe da adolescente deu à agressão: “quebra a cara dela que você é menor e não dá nada (…) ela vai precisar de cirurgia reparadora.”
8 Não deixa de ser impressionante a repetitiva mensagem de liberdade e poder individual veiculada na publicidade de certos itens: vestimentas, veículos, perfumes, ou aparelhos eletrônicos. Os anúncios consumam ser ilustrados fotograficamente por jovens, considerados os portadores da “liberdade” no consumo contemporâneo. A identidade da juventude está reduzida a um fetiche no mercado de vendas de inutilidades em nossa sociedade, despida de humanidade, de singularidade, identificada ao fetiche do produto que anuncia através de sua imagem. Não creio que tenha havido, na história dos últimos séculos, uma alienação tão profunda dos jovens: são “imaginados” por outros, mas adictos ao que não são, tendo se tornado escravos do desejo dos que controlam os mercados do trabalhar e do consumir.
9 Deve ser feita uma relativização desta afirmação, pois ao mesmo tempo que crescem a indiferença e o ódio aos seres em carência e sofrimento, multiplicam-se no mundo as ações individuais e coletivas de apoio a todo tipo de necessidades humanas, e mesmo dos animais, através de grupos e associações; tais ações são exibidas na mídia virtual, frequentemente através das redes sociais.
10 Em recente comentário na imprensa americana, o New York Times, através do articulista Paul Krugman, apontou o crescimento, na população mais rica de certas regiões do país, tradicionalmente consideradas de direita, do “ódio aos pobres”, referindo-se ao sentimento, mantido pelos mais ricos, que esta população – pobres, negros e imigrantes – está ocupando um espaço na sociedade que não deveria ocupar, um lugar que não lhe pertence, em uma mesa na qual não teria direito sequer às migalhas do consumo. São pessoas inoportunas, indesejáveis, praticamente descartáveis. No que concerne à Europa, têm sido publicados, no jornal Le Monde Hebdomadaire, e Le Monde Diplomatique, em francês, artigos sobre discriminações e hostilidades sobre imigrantes, e trabalhadores de outros países, sobretudo com características raciais ou culturais “exóticas”: muçulmanos, ciganos, negros, “latinos” etc.
11 A palavra “individual”, que não consta do texto do Prefácio, é uma explicitação da parte da autora sobre de que “vontade” Marx está falando. Seu modo de teorizar, influenciado pelo paradigma científico da época, com seu mecanicismo, sobretudo da física newtoniana, com as categorias de leis – da natureza –, determinação, força, massa etc. é evidente no “Prefácio à crítica da Economia Política”. Marx tinha se colocado como tarefa intelectual fundar uma ciência da produção social, isto é, um pensamento que fosse a ciência da produção material dos homens em suas relações histórico-sociais no produzir o modo de explicação da ação humana – e a Economia Política tornar-se-ia enfim científica.
Observação. A tradução do texto da Editora Gallimard do francês para o português é de minha autoria.
12 Na sua obra principal, O Capital, e no texto intitulado Introdução à Crítica da Economia Política, em alemão publicado como GRUNDRISSE, isto é, Fundamentos da Crítica à Economia Política, um grande “rascunho” de O Capital, Marx insiste no caráter de fetiche que a mercadoria, transformada em necessidade de consumo, na fase da distribuição do produto, tende a adquirir na economia capitalista. Já neste momento insiste no papel da publicidade para o consumo. Ver bibliografia no final do texto.
13 Entre os principais filmes de ficção científica tratando das catástrofes naturais com o extermínio da vida humana, ou da ocupação do Planeta por outras espécies, inclusive robôs, podem ser citados: Sinais, Presságio, O dia depois de amanhã, 2012, O livro de Eli, Eu sou a lenda, Eu, robot, e o genial Planeta dos macacos – a origem. Todos filmes de boa qualidade da indústria cinematográfica de entertainement, dirigidos por diretores talentosos conhecidos, embora não se trate de “obra de arte”.
14 A “sociedade de segurança”, mais presente na ficção científica e no cinema que nas ciências sociais, supõe um projeto capitalista controlador da sociedade civil, das instituições e organizações, pelo modelo da “security”, originada na sociedade americana desde as guerras de invasão do Afeganistão e Iraque, e do acontecimento de 11 de setembro de 2011. Para alguns autores, o advento desse projeto de controle vigilante da sociedade americana por órgãos de segurança já existe desde o fim da guerra fria, em que as agências de espionagem, como a CIA e o FBI, não teriam mais como funções centrais o controle da nação americana sobre as outras nações. Os procedimentos de segurança/controle teriam se privatizado e se transferido para a sociedade civil, cadastrando e espionando os cidadãos. Segundo esta visão sombria – às vezes denominada “teoria conspiratória” –, a privacidade no capitalismo teria se tornado um mito. Todos os cidadãos podem ser “acessados” virtualmente por espionagem eletrônica.
15 O precariato, categoria social descritiva da situação atual do conjunto das classes trabalhadoras, seja inseridas estavelmente no núcleo produtivo do sistema, ou inseridas temporariamente, ou mesmo com inserção intermitente no sistema – não se identifica à categoria marxista de “Lumpenproletariaat”, traduzida por subproletariado. Designa mais, a meu ver,o conjunto dos trabalhadores em sua condição no regime de trabalho precarizado do capitalismo mundial, isto é, sem garantia de direitos estáveis, tendo que pagar por sua aposentadoria sem ter a certeza de vir a tê-la, receber salários que diminuem de uma hora para outra sem prévia negociação, ver a perda de controle sindical sobre qualquer negociação salarial da classe trabalhadora como um todo. Falo aqui de operários, de funcionários de empresas, de funcionários públicos, de estagiários etc. Enfim, da massa dos dependentes de sua força de trabalho para viver.
16 No dia 4 de dezembro de 2013, ao terminar este artigo, li no jornal O Globo que resultou das revoltas urbanas do ano que se encerra uma primeira prisão: um “morador de rua”, um sem-teto. Se este fato não consistir em criminalização da pobreza, não sei como interpretá-lo.

Recebido em: 06/12/2013
Aprovado para publicação em: 13/12/2013