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A PRODUÇÃO DE INIMIGOS 1

Maria Regina dos Santos Prata

Psicanalista, Pós-Doutora em Teoria Psicanalítica (UFRJ);

Doutora em Saúde Coletiva (UERJ); membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos.

O livro Juventudes, subjetivações e violências é fruto das discussões de autores de diversos campos do saber convidados a participar do Colóquio organizado pelo Grupo Epos – Genealogia, subjetivações e violências, em 2008. O grupo tem apoio da FAPERJ e teve seu projeto de pesquisa introduzido no Instituto de Medicina Social da UERJ sob a coordenação do professor Joel Birman, contando com a colaboração de pesquisadores inscritos no programa de pós-doutorado desta instituição. Busca aprofundar, dentro do campo das ciências humanas e sociais, a questão da violência, articulando-a com o registro genealógico e discutindo seus efeitos de subjetivação.

De fato, as narrativas trazidas pelo livro, que reúne doutores do campo da Comunicação, da História Social, da Literatura, da Psicologia, da Saúde Coletiva e da Sociologia, enriquecidas ainda pela contribuição de uma juíza de Direito, proporcionam ao leitor um percurso através de várias abordagens sobre as modalidades da violência e suas relações com as subjetivações da juventude. Por meio de uma leitura genealógica, pode-se, através das contribuições desses autores, refletir sobre a história dos discursos e das práticas acerca da violência, considerando as relações de força e de poder nelas existentes. Para isso, é fundamental que haja a intervenção de saberes locais, descontínuos e não legitimados, em oposição à instância teórica unitária que pretenderia filtrá-los ou hierarquizá-los em nome de um conhecimento mais verdadeiro. O combate genealógico aqui é contra os efeitos de poder de discursos institucionalizados que são considerados científicos (Foucault, 1999, p. 13-14). Este combate é travado de diferentes maneiras nesta obra .

Nesta perspectiva, a proposta do título do livro em colocar o plural no termo violência, traz aqui algumas implicações. Por um lado, significa dizer que a violência pode se apresentar de vários modos. Por outro, que não há uma definição atemporal do que possa ser considerado violência. Por isso, a necessidade de falar em violências e subjetivações. Só se pode entender o que é considerado violência à medida que se tenta estabelecer suas relações com as subjetivações de uma determinada época, uma vez que ela é vinculada com a produção da subjetividade. Do mesmo modo, a ideia do livro não é falar em juventude, como se esta se apresentasse apenas de uma forma e segundo os mesmos signos em diferentes lugares e tempos. Há múltiplas juventudes porque há muitas formas de se subjetivar. Há, também, múltiplos efeitos subjetivantes das violências nas juventudes.

A adolescência e a juventude começaram a se consolidar como conceitos a partir da metade do século XVIII. Para Ariés (1978), o primeiro adolescente moderno típico foi Siegfried de Wagner, que através da música exprimiu atributos como a pureza, força física, naturismo, espontaneidade e alegria de viver. No século XIX, a juventude, que então era a adolescência, tornou-se, assim, uma preocupação dos moralistas e políticos, alvo de um conjunto de pesquisas. Aparece uma nova consciência da juventude, depositária de valores novos, uma força de renovação social e de contestação da ordem estabelecida. Essa força se amplia e logo se torna objeto de atenção, investigação e governo, sendo circunscrita por um conjunto de saberes pedagógicos, médicos, psicológicos e transformando-se em realidade conceitual (p. 46-7).

Outro aspecto importante a ser ressaltado, é o questionamento, da maioria dos autores de Juventudes, subjetivações e violências, do vínculo juventude pobre e violência.Procurar desassociar juventude pobre de periculosidade é denunciar a produção de inimigos, presente nos discursos sobre a contenção do crime. A questão aqui não é apenas o estabelecimento de uma relação de causa e efeito entre jovem pobre e crime, mas, como diz Vaz, a “instituição da pobreza como marcador de risco” (p. 144). Tal instituição está ligada à criação de vítimas possíveis, justificando o poder de força do Estado e os danos que este poder possa causar.

Ora, não se trata de negar o potencial destrutivo e a presença das violências nos nossos dias, mas de procurar estar atento à produção de inimigos sociais aos quais se deve temer, bem como às relações de poder existentes na venda da violência como fenômeno. Trata-se de tomar cuidado com o discurso totalitarista e eugênico que, em nome da proteção da sociedade, veicula a ideia da eliminação dos sujeitos da criminalidade. Em suma, estar atento aos jogos de verdade (Foucault, 1983-2003) presentes nos enunciados que buscam reconhecer, julgar e punir o criminoso, mas, também, estar atento às suas consequências.

Se os artigos dos autores de Juventudes, subjetivações e violências apresentam uma diversidade de leituras que, por vezes, partem de pressupostos distintos, é também aí que encontramos o que enriquece esta obra. Oferecer aos leitores múltiplos referenciais e olhares na discussão deste tema proporciona e expande o trabalho de aprofundamento que a complexidade da questão exige.

Referências bibliográficas

ARIÉS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
FOUCAULT, M. O uso dos prazeres e as técnicas de si. In: Ditos & Escritos V. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983-2003.
_____. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

Artigo recebido em 15/9/2010 e aceito para publicação em 5/10/2010.

1 – Juventudes, subjetivações
e violências
. Organizado por Helena Bocayuva e Silvia Alexim Nunes. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2009, 160 p.