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VOL.5 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2014

PENSAR E PENSAMENTO EM QUESTÃO NOS SOFRIMENTOS BULÍMICOS

Nelma Cabral *

* Psicanalista. Membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos. Professora Titular do Curso de Psicologia da UNESA. Pós-doutorando em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Pesquisadora da UNESA.

Resumo: O empobrecimento ou ausência de pensamento na contemporaneidade coloca uma questão para a psicanálise. A pretensão deste artigo é extrair algumas concepções sobre o que é pensar e o registro do pensamento no discurso freudiano, e a seguir problematizar o que vem ocorrendo com esse registro do psiquismo na contemporaneidade. Considerando um tema amplo e complexo, abordaremos, neste artigo, a questão do pensar e do pensamento na clínica psicanalítica das bulimias. Nossas referências fundamentais para desenvolvermos algumas ideias são as leituras de Birman, Heidegger e Canguilhem sobre a questão do pensamento e Zaltzman sobre a pulsão de morte. Pois, como formulou Freud, sem o desejo, não há pensamento e nem pensar, assim como sem o trabalho da morte não há pensar e nem pensamentos.

Palavras-chave: pensamento, pensar, contemporaneidade, bulimias.

Abstract: The poverty or lack of thoughts on contemporaneity puts a question to psychoanalysis. The purpose of this article is to run over about what is the act of thinking and a register of thought on Freud’s speech and give the form of a problem to what is happening with this register of psyche on contemporaneity. Understanding the extensive and complexity of this subject, on this article, we conduct the question of the act of thinking on psychoanalytic clinic of bulimics. Our references are Birman, Heidegger and Canguilhem about the act of thinking and Zaltzman about the drive to death. Because as Freud explains without the desire there isn’t thoughts and without death work there isn’t thoughts.

Keywords: act of thinking, thougths, contemporaneity, bulimics.

A pretensão deste artigo é problematizar o pensar e o registro do pensamento na psicanálise e na contemporaneidade. A questão freudiana, em que você pensa?, que, como escreve Schneider (1982), pode ser considerada banal, revela que o caminho para  pensar passa pelas relações amorosas, mãe-filho, analista-analisando, mestre-discípulo. Uma relação de assujeitamento e de separação, implicando Eros e Thanatos. O pensar, no discurso freudiano, é um trabalho psíquico imprescindível, necessário à constituição de um corpo próprio e de um processo de individuação, o que só pode se realizar mediante o nascimento do desejo. Sem o desejo, não há pensamento e nem pensar, assim como sem o trabalho da morte não há pensar e nem pensamentos. Se, em 1895, Freud apresenta uma hipótese radical sobre a gênese do pensamento, a partir de 1920 radicaliza mais ainda ao mostrar que a gênese do pensamento advém de uma ausência de pensamento. Com a formulação de que o pensamento surge para assegurar ao aparelho psíquico sua função primordial, a satisfação do desejo, Freud ao longo de seu percurso discute o pensar como um trabalho psíquico fundamental da experiência humana subsumido ao princípio do prazer. A partir de 1920, ao postular um além do princípio do prazer, mostra que o pensamento passa a ser subsumido não só a Eros, mas também a Thanatos. Ou seja, o pensamento surge não apenas para assegurar ao aparelho psíquico a satisfação de desejo, mas como um desvio das forças que o impelem para a morte.

A distinção de dois processos psíquicos, os processos primários, que buscam uma descarga imediata da excitação, e os processos secundários, que se erguem como um outro modo de funcionamento, para adiar a descarga, e com isso poder fazer um reconhecimento da realidade evidencia que o psíquico é um aparelho de alucinar, sonhar e pensar. Como podemos notar, pensar na concepção freudiana não advém de um pensamento lógico estrito, autônomo em relação aos demais registros psíquicos. Com efeito, pois ao mostrar que a pulsão era fundamental para a constituição do aparelho psíquico e do corpo, Freud reafirmou o desalojamento do pensamento iniciado por Kant da condição de garantidor de existência subjetiva, sem, contudo, como Kant, tirar a sua característica de uma das marcas da condição do vivente humano, como discorre Birman (2012, p. 129).

Considerando a problematização do pensar e do registro do pensamento na psicanálise e na nossa contemporaneidade complexa e ampla, optamos tomar como ponto de partida dois sofrimentos psíquicos contemporâneos: a bulimia e a síndrome do pânico. Entendendo que cada um deles, à sua maneira, nos serve para analisar a desvaloração ou derrocada do pensamento, abordaremos, neste artigo, a questão do pensar e do pensamento na clínica psicanalítica das bulimias.

Os sofrimentos bulímicos

Os sofrimentos bulímicos vêm convocando os psicanalistas a produzirem uma pensabilidade sobre essa forma de mal-estar contemporâneo cujos sintomas são predominantemente ligados ao registro do corpo e da ação, em detrimento do registro do pensamento que era referência maior no mal-estar da modernidade.

Articuladas junto com a anorexia ou de forma independente, as bulimias chamam a atenção por uma peculiaridade que as distinguem tanto da anorexia como de outro transtorno alimentar, a obesidade. Enquanto a anorexia escancara um corpo desencarnado para os outros e a obesidade, um corpo adiposo, o corpo na bulimia, em geral, encontra-se dentro dos códigos de beleza impostos pelo social. Um corpo magro, mas não esquelético como o das anoréxicas, ajustado às medidas determinadas pela ideologia da beleza do mundo atual, mas sem a percepção de interioridade, ou com essa percepção muito precária. A preocupação excessiva e constante com a imagem corporal se revela exigência em atender nossos códigos de beleza, demonstra a necessidade de assegurar o que conta para garantir sua existência, a superfície de seu corpo, tendo em vista a sensação de um vazio no interior do corpo. Como dizia uma jovem em grande sofrimento bulímico – “é somente com a minha aparência que eu conto, se eu perco isso, não há nada. Dentro não há nada, apenas um vazio, um buraco”. Por essa razão, diferentemente da obesidade e da anorexia, a bulimia pode passar despercebida no confronto frontal que o sujeito faz à vida, dado que o agir bulímico é um ato solitário, realizado às escondidas, sem a presença do outro, mas visando-o.

A abordagem psicanalítica das bulimias tem buscado em aspectos da regressão oral, na relação entre o eu e o corpo, nas vicissitudes da economia libidinal ou nos excessos pulsionais as chaves para a compreensão dessa forma de sofrimento. Se num primeiro momento a bulimia foi pensada em par com a anorexia, em função dos casos que se apresentam como uma saída desta, hoje a bulimia vem sendo problematizada como um sofrimento que pode se organizar independente, e não num continuum ou em oposição à anorexia.

As bulimias se caracterizam por uma ingestão compulsiva e exagerada de comida, seguida, em geral, de um procedimento purgativo como vômito, laxantes ou exercícios físicos, em demasia, visando eliminar tudo o que foi ingerido. A princípio a comida utilizada no agir bulímico é considerada o “veneno” ou “alimento do mal” a ser evitado na dieta que o sujeito impõe a si fora desse momento. Não se trata de sensação fisiológica de fome. Nem de um prazer de sentar à mesa e comer demais, mas de uma sensação de vazio tamanho que toma o sujeito e não deixa saída, a não ser comer primeiro os alimentos proibidos, “engordativos”. E se estes acabarem, comer com avidez o que tiver pela frente, o que encontrar na geladeira, ou na dispensa, como estiver, frio, gelado, com prazo de validade vencido, não importa. No agir bulímico encontra-se ausente qualquer critério de bom gosto e da arte da cozinha.

Podemos observar que a compulsão bulímica se organiza em um duplo movimento, dois tempos, um de uma comilança, onde se come vorazmente, loucamente, dizia uma analisanda, numa busca desenfreada não só de apaziguamento do mal-estar que a tomava, mas de um gozo supremo e solitário com o objeto comida. O “chutar o balde”, e entregar-se completamente a esse comer voraz era sempre antecedido por um pensamento – depois é só vomitar e pôr tudo para fora. Esse segundo movimento, segundo momento, já previsto e anunciado – o vomitar – advém de uma primeira experiência, na qual o sujeito foi capaz, e teve o poder de fazer frente ao objeto comida, expulsando-a para fora de seu organismo. Melhor, rejeitando-a antes que chegue a ser absorvida pelo organismo e faça parte de seu corpo. Essa experiência foi vivida com satisfação e júbilo, pois nela vislumbrou a possibilidade de fazer frente ao outro e dele poder se afastar, se separar. O sujeito passa a repetir incansavelmente esse duplo movimento – comer e vomitar –, que nos faz lembrar o jogo do fort da e problematizar a bulimia pela via da pulsão de morte. E indagar se seria a compulsão bulímica uma compulsão à repetição como a do fort da ou trata-se de outro tipo de compulsão em cena.

Tomados por uma incessante preocupação com a comida, os indivíduos com bulimia queixam-se constantemente de que seus pensamentos giram sobre o mesmo tema, a comida, e de que estão sempre às voltas com cálculo de ingestão de calorias ou de exercícios físicos, fora do agir bulímico. Fica claro que a relação com o objeto comida não envolve a libido, mas sim um modo de adesão destrutivo. Assim como a restrição do pensamento a um tema e a ocupação do tempo contabilizando calorias a ser ingeridas chamaram a nossa atenção, nos surpreendeu mais ainda o pensamento que autoriza a entrega a uma glutonaria extrema e paroxística, “depois você pode vomitar”. Se a contabilidade diária de ingestão tem como função manter o sujeito nos padrões corporais que exige para si e que sempre visa ao outro, a conduta bulímica tem outra função na estranha economia pulsional desses sujeitos. Encontramos na concepção de pulsão anarquista de Zaltzman (1994) a possibilidade de pensar esse modo de operar nas bulimias.

Pretendemos problematizar e analisar que ‘economia louca’ é essa que se apresenta no circuito fechado de perda de controle e de grande excitação interna. Que ‘economia louca’ é essa em que o sujeito não se reconhece e se sente como se estivesse entregue a algo sobre o qual não tem nenhum domínio.

A constatação de que a relação com o objeto comida é da ordem de uma necessidade e de que uma anterioridade de pensamento se faz presente na conduta bulímica – tudo poderá ser eliminado por uma via ou outra – abre a possibilidade para articular pensar, registro do pensamento e economia pulsional.

O pensar na economia de prazer-desprazer e dor

No Projeto para uma psicologia científica (1895/2006), Freud mostra que o destino do bebê humano como um sujeito pensante em sua cultura depende da constituição de um aparelho que se forja a partir do investimento e sedução do outro. Apresenta então um modelo de aparelho psíquico que advém da presença de um outro, que, através de cuidados imantados de erotismo, possibilita aquiescer às urgências e necessidades do organismo.

Observa que na histeria há uma perturbação do pensar, ideias excessivamente intensas invadem o psíquico e impedem o curso normal do pensamento. Tal perturbação resulta de uma atividade básica do psíquico, a busca do prazer e a fuga do desprazer. Mas não é apenas na histeria que a perturbação do pensamento está vinculada à experiência de prazer-desprazer, mas em situações cotidianas, e Freud cita como exemplo uma situação vivida por ele que o levou a um esquecimento, devido a uma grande angústia. Desse modo, considera que as perturbações do pensamento não se inscrevem no campo da psicopatologia, mas fazem parte do sujeito em situações de seu cotidiano. Está presente no esquecimento ou na adoção de vias que conduzem à descarga, vias estas, em geral, evitadas.

Na sua concepção, o pensar tem por função coibir algo originário no humano, a tendência aos excessos e à alucinação do desejo com as quais o psiquismo se depara em sua busca de satisfação. Procedendo por inversão no modo como se concebia o pensamento à época, Freud construiu a hipótese de que o ato elementar do aparelho psíquico é a alucinação e que o pensamento seria uma outra via, no caso mais eficaz, de obtenção de desejo, sem expor o organismo ao risco de morte se ficasse alucinando indefinidamente (FORTES; CUNHA, 2012, p. 149).

O pensamento, como todos os registros psíquicos, depende do processo de descarga, e surge para manter o aparelho psíquico em sua função primordial, a satisfação do desejo. Para afastar-se do estado alucinatório, o pensamento emerge primeiro criando um estado de identidade entre uma representação mnêmica e uma percepção, e a seguir, através de processos sucessivos de retificações, decorrente das exigências da vida, estabelece-se uma diferença entre a percepção de um objeto real e sua representação.

Em sua obra Interpretação dos sonhos (1900/2006), o pensar e o registro do pensamento, ambos subsumidos ao inconsciente, são fundamentais, já que a experiência analítica fundada na interpretação dos sonhos tem como ponto de partida a questão “Em que você pensa?”. A resposta a essa questão implica duas hipóteses: a de que há um outro modo de pensar (inconsciente) que comanda a nossa vida psíquica e que o  registro do pensamento (consciente) é governado pela realidade e se exerce por via inconsciente.

Nosso interesse neste trabalho é se dobrar sobre essa segunda hipótese. Para demonstrá-la, Freud estabelece uma distinção entre dois processos psíquicos, os primários (inconscientes), que buscam uma descarga imediata da excitação, através da alucinação de desejo; e os secundários, que se erguem como um outro modo de funcionamento do psíquico, que consiste em adiar a descarga, suportando a frustração e o mal-estar, e com isso poder fazer um reconhecimento da realidade. O reconhecimento exige que uma diferenciação se processe, um desvio partindo da imagem mnêmica e terminando com o estabelecimento de uma identidade perceptiva pelo mundo exterior. Isso significa que a força imperiosa de descarga que levaria à alucinação é colocada em reserva. Desse modo, uma temporalização se inscreve, criando a possibilidade do registro do pensamento, sem substituir o registro do desejo (FREUD, 1900, p. 628).

Pode-se dizer então que as atividades do aparelho psíquico de sonhar e de pensar possibilitam a transformação do sofrimento psíquico em sofrimento banal. Cumpre salientar que o pensar em questão não está referido a um pensamento lógico estrito. De outro modo, não se trata de uma questão cognitiva apenas, mas de uma imbricação com o afeto e o corpo, movido pelo desejo. O pensar é um modo de trabalho psíquico necessário para coibir os excessos desviando ou inibindo a alucinação, concebeu Freud até se voltar para o trabalho da morte no psiquismo e na cultura, e realizar algumas inflexões em suas formulações sobre o pensar e o registro do pensamento.

Assim, pensar, sob o domínio do princípio do prazer, emerge inscrito numa lógica de conflitualidade, e é assim que ele pode se exercer, sem perder o seu lugar estratégico na dinâmica e na economia psíquica. E após postular um para além do princípio do prazer para dar conta das experiências subjetivas de dor, angústia intensa e traumas constitutivos, Freud exige considerar o que acontece com o pensamento e o pensar nos casos que não se restringem a um conflito psíquico. Ocorre que, ao se dobrar sobre a tragicidade da subjetividade moderna, e mostrar que a finitude, a incompletude e a imperfeição são as suas marcas (BIRMAN, 2001, p. 231), precisou reconhecer que o pensar é um ato essencial e frágil. O pensar não se inscreve na racionalidade das luzes e convoca o infantil de cada um com o seu desejo de saber sobre o que se encontra fora e distante.

Desse modo, as intensidades das forças pulsionais não poderiam ser completamente coibidas pelo desejo e pelo pensar, assim como a linguagem não daria conta de simbolizar as intensidades que nos afetam. Nesse campo de uma economia pulsional dispersa, que não conta com critérios seguros para dominar a tragicidade do sujeito, Freud realizou uma nova leitura do psiquismo. E propôs uma experiência de análise que deve acolher necessariamente a ação da pulsão de morte, presente através do caos pulsional, na qual a ausência de pensamento é uma de suas formas de figuração. Como afirma Pontalis, o pensar, na perspectiva freudiana, advém do trabalho da mãe e da morte, pois se é preciso que a mãe doe pensamentos, é preciso também o confronto com a nossa insuficiência e com a ausência de pensamento, para que o trabalho do pensar se apresente (PONTALIS, 2005, p. 154).

O problema que se impõe no que diz respeito à gênese do pensamento, a partir do segundo dualismo pulsional, é da ausência de pensamento e da possibilidade ou não da constituição de um sujeito pensante. De fato, pois como mostra Freud, o pensar não é dado, se constitui frente à experiência de finitude como marca de um desejo, que se dirige ao que escapa ao sujeito e o deixa instigado, o perturba e o convoca a inventar alguma resposta, mesmo que não o faça.

Podemos extrair da leitura dos artigos Formulação sobre os dois princípios de funcionamento mental (1911/2010), As pulsões e seus destinos (1915/2010), Além do princípio do prazer (1920/2010), O eu e o id (1923/2010) e A negação (1925/2010), que pensar advém de um trabalho da figura materna e da morte. Ao dar o seio, a figura materna doa junto os seus pensamentos sobre o seio, os alimentos e os excrementos.

Sem um recurso que possibilite ao bebê suportar e protelar a satisfação a partir de um tatear motor, a simbolização da separação fica comprometida, acarretando com isso uma relação de dependência. Importante observar que o registro do corpo se constitui simultaneamente com a constituição do Eu e a edificação de um aparelho de pensar, um implicando no outro.

Como mostra Freud não basta apaziguar a fome do bebê, é necessário que, ao buscar satisfazê-lo, o faça de modo que os traços carregados de prazer possam ser reinvestidos através da alucinação como recurso frente à ausência da figura materna. Entendemos, com Schneider, que a ação específica implica não só a interpretação e a oferta de objetos de satisfação, mas também a doação de pensamentos feitos pela figura materna para que o bebê possa sair da situação de desamparo primordial.

Como escreve Freud:

Na linguagem dos mais antigos impulsos instintuais — os orais — teríamos: “Quero comer” ou “quero cuspir isso”; e, numa versão mais geral: “Quero pôr isso dentro de mim” e “retirar de mim”. Ou seja: “Isso deve estar dentro” ou “fora de mim” (FREUD, 1925/2010, p. 251).

Pensar e exercer um juízo exige do sujeito uma capacidade para tomar decisões: atribuir ou recusar a uma coisa uma característica e admitir ou contestar sua existência na realidade. De outro modo, exige uma capacidade para lidar com uma ideia desprazerosa, suportar a dor e estabelecer uma diferença entre o registro da existência ou não dos objetos.

Mas se os pensamentos advêm originariamente do outro, é preciso, como mostra Schneider, a demarcação de uma diferença, é preciso um desvio, de modo que a separação simbiótica mãe-bebê se realize para que um processo de individuação seja assegurado. É preciso poder delimitar, “isso é meu”, “isso vem do outro” e, mais que isso, poder confrontar com o seu desamparo e endereçar ao outro essa marca específica do vivente humano. Esse é o trabalho do pensar, que exige do Eu uma ordenação temporal dos processos psíquicos e a submissão destes à prova de realidade.

Interpolando os processos de pensamento, ele (o Eu) alcança um adiamento das descargas motoras e domina os acessos à motilidade. Este domínio, entretanto, é mais formal do que factual; em relação ao agir, o Eu tem posição semelhante à de um monarca constitucional, sem cuja sanção nada pode se tornar lei, mas que precisa refletir muito, antes de impor seu veto a uma proposta do parlamento. O Eu se enriquece com todas as vivências oriundas de fora; mas o Id é seu outro mundo exterior, que ele se empenha em subjugar (FREUD, 1923/2010, p. 53).

Tal concepção nos permite indagar sobre o pensar na contemporaneidade em que se observa uma predominância de uma forma de narcisismo, que desvaloriza o passado e não leva em conta o futuro para suas ações? É possível a atividade do pensamento, quando o que importa é valoração estrita do presente, do aqui e agora e do imediatismo? É possível pensar quando somos seduzidos e aderimos a essa sedução para abolir não só qualquer forma de mal-estar de nossa experiência, mas experiências próprias do vivente humano, como o sentimento de tristeza, a frustração e outros?

Outra característica do mundo contemporâneo é o excesso de informação. Visando à objetividade e à velocidade da informação, o que importa é a intervenção eficaz, e não o sentido. Enquanto a objetividade exige uma linguagem instrumentalizada, a velocidade da informação exige um achatamento da experiência de tempo. Desse modo, cabe a pergunta, se a produção de sentido perde o seu valor, se o tempo é abolido ou reduzido ao presente, o que ocorre com o pensar e o registro do pensamento?

O pensar e o pensamento na contemporaneidade

Ao se dobrar sobre a questão do pensar e do pensamento temos como direção de nosso trabalho problematizar em que e como as transformações da contemporaneidade afetam o pensar e o registro de pensamento. De outro modo, pretendemos poder percorrer a indagação sobre o lugar do pensar e do pensamento nas subjetividades e montagens corporais no mundo contemporâneo, através das bulimias.

Sabemos que as questões sobre o pensar e o pensamento exigem várias vias de acesso, mas optamos por nos aproximar delas com Birman (2012), Canguilhem (2006) e Heidegger (s/d), e, em outro momento, com outros pensadores que se dobraram ou se dobram sobre o tema.

Birman em O sujeito na contemporaneidade (2012) interpreta a ausência de pensamento nas formas de mal-estar na atualidade, dado que se apresentam centradas no corpo e na ação e nos sentimentos, como evidência de uma primazia da espacialização da experiência e sem ascensão a uma sequência temporal. Sua análise parte da tradição inaugurada por Descartes que estabeleceu a primazia do registro do pensamento como condição de existência do sujeito, definição do ser do homem, e mostra a inversão ocorrida na passagem da Idade clássica para a contemporaneidade em relação a esse registro do psíquico. O que se delineia no mapeamento realizado nos discursos filosóficos e psicológicos é a operação de limitação do lugar destacado ao pensamento no fim do século XVIII e início do século XIX e sua submissão ao registro da imaginação na filosofia e da imaginação e do afeto na psicologia existencial e fenomenológica. Em relação ao discurso freudiano, mostra que este se constituiu concebendo o registro do pensamento subsumido ao embate das forças pulsionais e aos registros do inconsciente e do fantasma.

Se na modernidade, o pensamento, como possibilidade de formular questões, resolver problemas e superar conflitos, continuou a ocupar uma posição estratégica nas diversas formas de se subjetivar, na contemporaneidade, o pensamento encontra-se em declínio. Ao se indagar sobre as mudanças das formas de mal-estar na contemporaneidade que se inscrevem como experiências traumáticas e dolorosas em lugar de sofrimento psíquico, Birman toma como ponto de partida a experiência psíquica do sonhar. Na sua análise, contrapõe a leitura de Freud do sonho à leitura cientificista do século XIX. Se a primeira inscreve o desejo e a temporalidade como elementos cruciais dessa experiência, a segunda reduzia o sonho a uma transformação neurofisiológica em decorrência do estado do sono, enfatizando apenas a dimensão da imagem, na qual o que é valorado é dimensão espacial.

Podemos inferir que o avanço da medicalização do Ocidente, o discurso das neurociências, o desenvolvimento de uma medicina das imagens e a tecnificação da vida (DANTAS, 2009) valorizam a categoria de espaço na experiência psíquica em detrimento da categoria de tempo.

Como interpreta Birman (2012), o que se evidencia, nessa mudança, deve-se à relação do sujeito com o tempo, a compressão das dimensões do tempo a um eterno presente, e com isso, a espacialização do psíquico. Vale destacar que no discurso freudiano o tempo e o espaço são formas necessárias à constituição do sujeito desejante, que vem sendo tragado por um narcisismo nefasto, centrado na exaltação do eu e na autorreferência. Consideramos a análise crítica de Lasch de uma cultura narcisista fundamental para avançarmos sobre a questão do pensar na contemporaneidade.

Lasch (1983) define uma cultura narcisista pelas seguintes características: valoração da expansão da consciência, ampliação do eu, desconsideração do passado e do futuro, valor dado ao momento presente, experiência aterrorizante de vazio interior, substituição de um clima religioso e da política por um clima de sensibilidade terapêutica e abolição da separação entre público e privado. Nessa cultura, de horror à morte e à velhice, de exibição constante do seu eu para o mundo, de abolição das inibições, do prazer a qualquer custo, o que se produz são personalidades narcisistas na descrição de Lasch. Considerando o mundo um espelho a ser modelado de acordo com os seus critérios, tais personalidades revelam um vazio existencial, o sentimento de que “não é ninguém” e a dependência constante do outro para validar sua autoestima.

Podemos, articulando a leitura de Lasch com a de Birman inferir que numa cultura narcisista, a experiência de tempo nessas subjetividades vai para o espaço e sobra apenas este. Consequentemente, a onipotência de pensamento que demonstram não passa de uma ilusão, pois o que uma personalidade narcisista revela é uma precariedade de pensamentos. O recurso, ao pensar como uma protelação que o Eu interpõe entre uma exigência pulsional de satisfação e uma ação, visando durante esse tempo poder se utilizar dos registros mnêmicos da experiência, com promessa de um destino de maior êxito para aquela exigência, torna-se impraticável (FREUD, 1933, p. 156). Com efeito, pois o eu que se apresenta na contemporaneidade não quer saber de protelação.

Concomitantemente à expansão do narcisismo, tal como descreve Lasch nas culturas contemporâneas ocorre também a expansão de uma leitura dos processos psíquicos pela via neurológica, tendo como disparador dessa leitura a analogia entre o cérebro e o computador.

A questão “o que é pensar” não é uma questão teórica, afirma Canguilhem, pois o que está em jogo nessa aproximação entre cérebro e pensamento é a normatização do pensamento. Na medida em que há cada vez mais poderes interessados em controlar e reduzir a capacidade de pensar, através da tecnificação da vida, é preciso abordar a questão para se “defender contra a incitação sorrateira ou declarada a pensar como querem que pensemos”.

Em sua perspectiva, a metáfora cérebro-computador acarretou como consequência uma identificação do cérebro às operações lógicas, ao cálculo e ao raciocínio, sem a consideração de que o pensamento concreto ou calculador necessita do pensamento reflexivo, como concebeu Heidegger, ou da economia pulsional, como concebeu Freud.

Fica evidente na conferência de Canguilhem o interesse em mostrar que a metáfora do computador para se referir ao cérebro, por mais que tenha como pretensão traduzir os processos psíquicos em termos neuroquímicos ou neurofisiológicos, encobre outros objetivos: “(…) prevenir ou desarmar a oposição à invasão de um meio de regulação automatizado das relações sociais; dissimular a presença dos tomadores de decisão que existem por detrás do anonimato da máquina” (CANGUILHEM, 2006, p. 197). E através de uma contextualização histórica, o autor procura evidenciar que a associação entre cérebro, máquina e pensamento não procede. Com efeito, pois por mais que os procedimentos computacionais realizem cálculos elaborados, eles não realizam procedimentos que incluem marcas específicas, próprias do pensar do homem, seu valor, seu desejo, sua vontade. “Pensar é viver no sentido”, escreve Canguilhem, o que implica a impossibilidade de redução ou de inclusão em qualquer configuração biológica, isto porque o sentido exige o outro.

As máquinas por mais que sejam consideradas ‘máquinas inteligentes’ elas não estabelecem relação com, pois não podem, como o homem, brincar com o sentido, desviá-lo, simulá-lo, mentir, criar armadilhas. O máximo que elas podem realizar é estabelecer uma relação entre os dados que lhes são fornecidos pelo usuário e realizar um procedimento eficaz.

A distinção entre calcular a trajetória de um foguete ou de uma bola num jogo de futebol e a invenção de um teorema e sua demonstração demonstram que as máquinas só podem solucionar problemas de posse dos dados e do algoritmo de resolução. Enquanto as trajetórias de um foguete ou de uma bola podem ser calculadas a partir das instruções dadas a um computador, a invenção exige um pensar, uma paixão pelo pensar, a abertura para algo não pensado, a ruptura com um pensamento dado. Se, como mostra Canguilhem, a invenção pressupõe a consciência de um vazio lógico, uma tensão e os riscos do engano, pressupõe também, considerando o discurso freudiano, a ruptura com o assujeitamento ao pensamento do outro, seja esse outro a mãe, o analista, o mestre.

Após sua análise da relação entre pensamento e cérebro, Canguilhem busca na filosofia espinoziana os elementos necessários para concluir sua conferência com uma definição do pensar, em que o Eu não se identifica com o cérebro nem com a substância pensante cartesiana. Pensar como “um exercício do homem que exige a consciência de si na presença ao mundo, não como a representação do sujeito Eu, mas como sua reivindicação…” (CANGUILHEM, 2006, p. 207).

Antecedendo as análises de Canguilhem sobre a questão do pensamento na modernidade, Heidegger propõe pensar a relação do Homem com a técnica refletindo como essa relação ameaçava a atividade do pensamento reflexivo ou meditativo, corroendo o âmago mais profundo de seu ser. Em sua argumentação, sem a dimensão do tempo e o desapego em relação a todas as coisas, não há pensamento meditativo ou do sentido, base para o pensamento que rege a tecnologia, o pensamento do cálculo. Fazendo uma distinção entre dois tipos de pensamento, o pensamento que medita e o pensamento que calcula, considera que este último, responsável pela técnica, necessita do primeiro. Importa ressaltar aqui que denomina “pensamento que calcula” o pensamento operativo, concreto, que visa medir, projetar e dominar preditivamente as forças ocultas da natureza. Para o pensador, frente às inquietantes modificações do mundo, o homem, ao se voltar para o pensamento que calcula, deixava oculto o sentido do mundo técnico, não se abria aos mistérios deste. Propondo uma atitude, que denominou de serenidade, Heidegger alertou para o perigo maior, que o da era atômica que se iniciava. Temia que o Homem enfeitiçado e deslumbrado pela técnica poderia ficar ofuscado e prisioneiro, “de tal modo que o pensamento que calcula viesse a ser o único pensamento admitido e exercido” (HEIDEGGER, s/d. p. 26). O perigo temido por Heidegger e sua argumentação sobre a necessidade do homem exercer o trabalho de pensar continuam atuais.

Necessário observar que nos interessou na contribuição dos autores considerados aqui, para além das descontinuidades que poderíamos delinear sobre a concepção de pensar e de pensamento, foi o que os aproxima – a consideração do tempo no ato de pensar, e do pensamento como registro psíquico necessário para a ação do homem no mundo. Se Heidegger apostou na possibilidade de um caminho para o pensamento, a partir de uma atitude de serenidade para com as novas tecnologias, a análise de Birman, Lasch e Canguilhem evidencia que o risco temido por Heidegger encontra-se presente nas formas de mal-estar contemporâneo, nas quais o trabalho de pensar e o registro de pensamentos mostram-se ausentes.

Seguindo a direção da leitura de Lasch e Canguilhem, é preciso destacar que as mudanças radicais da contemporaneidade cujas características principais são: o reconhecimento apenas da dimensão do tempo presente, a valoração do eu e da imagem, a performance excelente, inserem-se no projeto de administração da vida, do controle e domínio da natureza e da atenção constante com a saúde física e a imagem  do corpo. A exigência em ser bem adaptado e exibir um status de funcionalidade às reivindicações de um mundo tecnológico resulta, quando não se consegue atender a essas exigências, em uma sensação de perda e de fracasso. Os sujeitos experimentam-se como não realizadores e padecem com isso. Nesses casos, que são muitos, busca-se uma intervenção eficaz, seja através da medicalização, da alimentação saudável, academias de ginásticas e diversas práticas terapêuticas que garantam a eliminação de todo mal-estar.

O pensamento de que a intervenção eficaz é o que importa, e não o sentido, no contexto contemporâneo, mostra uma adesão absoluta aos discursos tecnológicos veiculados por uma linguagem instrumentalizada e nos quais a velocidade da informação exige um achatamento da experiência de tempo. Desse modo, a distância entre pensar, um pensar reflexivo, e agir é anulada e os sofrimentos psíquicos manifestam-se no corpo e na ação. O pensamento não aparece, até porque pensar dá trabalho e requer tempo.

Duras, em seu livro-diário A dor (1986), expressa que a vivência da dor impede o curso do pensamento, que se queda impotente, numa desordem tamanha, pois a dor produz o caos, precisa de espaço e põe o tempo em suspensão (DURAS, 1986, p. 43). A dor exigiu-lhe desligar-se dos acontecimentos do mundo e concentrar todas suas energias na resistência e na busca de informações dos que foram enviados para a guerra como o seu marido.

Em todas as áreas, medicina, nutrição, educação, psicologia, tecnologia da informação, prevenção e promoção da saúde, a orientação predominante na contemporaneidade é impedir qualquer nível de sofrimento, excluir a dor, a feiúra e a velhice da experiência da existência humana. Nesse programa, o que conta é uma tecnificação do viver, seja pela via medicalizante, seja pelos programas das academias de ginásticas, visando ao controle das medidas corpóreas, seja pelo controle da alimentação, visando a uma alimentação saudável, pela ampliação do uso de cosméticos e intervenções plásticas, visando a um corpo belo e perfeito. Depreende-se daí que não há, nessas áreas, tempo para o trabalho de pensar. O que nos permite concluir que, ao perseguir o projeto de ser feliz, ser belo e jovem, a qualquer custo, de evitar qualquer situação de desconforto como frustração, tristeza ou fracasso em algum tipo de desempenho, uma das coisas que se impede é a possibilidade do exercício do pensar.

Podemos dizer que, ao considerar o pensamento como resultante de relações entre regiões do cérebro, o que a medicina científica e a nutrição científica promovem, além de uma redução na concepção de pensamento, é uma desvaloração do pensar e um assujeitamento ao pensamento do poder econômico dominante.

Para concluir: pensamentos e pulsão de morte nos sofrimento bulímicos

O problema que se coloca nos sofrimentos bulímicos na contemporaneidade, no qual as relações com a imagem corporal e o objeto comida dominam as preocupações, é: que forma de economia psíquica é essa em que a atividade de representação e de pensamento se mostra praticamente ausente?

Como uma máquina de calcular simples de contabilizar entradas e saídas, o aparelho de pensar nessa modalidade de sofrimento foi precariamente constituído. Não se trata de um bloqueio, mas de uma constituição incipiente, de ausências de registros de pensamentos próprios, como podemos constatar pela economia pulsional desses sujeitos, na qual o eixo desejante encontra-se em baixa e o eixo narcísico, em alta. O agir bulímico se apresenta como a única saída que resta ao sujeito, ainda que se manifeste pela repetição do mesmo, para se subtrair à dependência extrema de um outro, dependência essa potencialmente mortífera.

Podemos ler, nessa adesão aos limites do corpo e a essa montagem corporal estranha, ainda que a um preço alto da coerção mental da figura materna e a uma deficiência na presença da figura paterna, uma forma de afrontar o perigo que ameaça. Podemos ler também uma relação com o objeto comida, que, se numa primeira experiência ou numa experiência originária vislumbrou-se a possibilidade de desprendimento dessa colagem simbiótica, tal vislumbre foi anulado pela invasão maciça do outro. Desse modo, não se estabeleceu para o sujeito o que poderia vir a ser uma compulsão à repetição como pensamos num primeiro momento.

Dizendo em outros termos, não se trata de um jogo como o do carretel, que dependendo do outro se pode dizer ganhei, numa expressão de júbilo: uma ausência foi simbolizada. Trata-se, sim, de um jogo, mas de um jogo em que há um afrontamento das situações-limite, e em que se mostram, ao mesmo tempo, uma precariedade e uma garra por sobreviver. Com efeito, pois o que se evidencia nessa sucessão de inclusão-espulsão, na medida em que o sofrimento se exacerba, é um agir operatório movido por uma necessidade de apaziguamento de uma dor dilacerante. Tal modo de agir sem ter qualquer pretensão, como o domínio das excitações, indica que em seu estado de desamparo original esse sujeito ficou tão completamente assujeitado e dependente desse outro maternal que não possibilitou a separação da satisfação sexual da necessidade de nutrição.

Como argumenta Jeammet (2008), as bulimias mostram um entrave nas capacidades introjetivas e o agir bulímico põe em cena a abolição da capacidade de devaneio, da satisfação alucinatória do desejo e o jogo da diferença entre presença e ausência.

A pregnância de uma relação de necessidade fisiológica imperiosa com o objeto comida, que não mostra qualquer erotização, nos leva a recorrer à concepção de pulsão anarquista de Zaltzman, para pensar o sofrimento bulímico e sua relação com o pensamento.

O aguilhão da morte reúne as forças da pulsão de morte. Numa relação de forças sem saída, só uma resistência nascida das próprias fontes pulsionais de morte pode afrontar a ameaça de perigo mortal. Chamo este fluxo de pulsão de morte mais individualista, mais libertário de pulsão anarquista (ZALTZMAN, 1994, p. 64).

Movido pela dor advinda de uma frustração ou de um confronto com o seu vazio corporal e existencial, que põe em risco sua sobrevivência, os bulímicos tomados pela urgência e exigência interna de sair dessa dependência mortal na qual se encontram, engolem e vomitam esse alimento-amor. O amálgama, muito denso entre a comida como objeto de necessidade e objeto de desejo, evidencia que não se trata apenas de uma relação simbiótica, pois quanto mais o agir bulímico se repete mais se evidencia a ausência de uma dimensão libidinal. Podemos dizer que, nessa exposição ao risco, o que se é visado é a urgência em demonstrar para si que está vivo.

Segundo Brusset (2003), o que se depreende daí é uma insuficiência do investimento erógeno da figura materna que impede ao autoerotismo o desempenho de seu papel de fixação. A questão que se impõe é: em que a presença maciça justifica a precariedade de pensamentos próprios e uma incapacidade para pensar nos sofrimentos bulímicos?

Constatamos nas narrativas desses sujeitos um hiperinvestimento das sensações que nos leva a pensar que este modo de operar seria uma forma de impedir o trabalho psíquico de internalização. À custa de uma economia de representação e de um destino interno, o sujeito paga com o fascínio pelo objeto real de sua necessidade.

A ausência de pensamentos próprios mostra que a presença maciça da figura materna não foi pela via erógena, mas sim pela via de uma funcionalidade operatória, sem devaneios e produção de pensamentos em relação à experiência de maternagem. Sem atribuir qualquer sentido para essa experiência para si e para o vivente em seu desamparo, sem oferecer pensamentos sobre os limites e fronteiras dessa experiência em termos de funções corporais ou de produtos do corpo, o que restou ao vivente em formação foi um vazio de pensamentos próprios. O que ele pôde reter foram os pensamentos do outro apenas, nem sempre doados, mas impostos. Além disso, não foi levado pelo outro a pensar.

Antecedendo logicamente o pensar, há que se passar pela experiência de assujeitamento ao pensamento do outro e receber dele seus primeiros pensamentos para formar um registro, inclusive o de que somos insuficientes e que pensar é um dos modos de gerir esta insuficiência.

Se a figura materna, o analista, o mestre, os autores podem doar pensamentos, se podemos garimpar ou predatoriamente roubar os pensamentos dos outros, não se pode doar, nem roubar o pensar. Pensar exige a separação desses pares, exige o trabalho da morte, para que seja possível inventar outros registros de pensamento.

O pensar exige o corpo, para que, por intermédio de experiências motoras, a lembrança da experiência de satisfação possa ser atingida por vias indiretas. O pensar exige o corpo, e não se confunde com o pensamento.

Desde o início do discurso freudiano, pensar exige uma separação da unidade mãe-bebê, separação essa que tem seu início com a introdução do registro prazer-desprazer que os objetos oferecidos por esta proporciona para afastar a experiência de dor.

Para Schneider (1982), sem a oferta de pensamentos alimentos, pensamento seio, pensamentos excrementos a individuação de um corpo e de uma pele psíquica, separando o par mãe-bebê, um aparelho de pensar próprio não pode ser edificado, deixando com isso o vivente num assujeitamento completo aos pensamentos operatórios da figura materna.  Sem ter realizado a aquisição de recursos internos que permitam recorrer a eles para suportar seus estados de sofrimento psíquico, o sujeito bulímico vê-se no confronto com a possibilidade de perecer, o que o leva a recorrer ao objeto comida e assegurar o seu poder sobre ele.

Não podemos deixar de constatar nos sofrimentos bulímicos que esses sujeitos apresentam-se dominados pelo pensamento maternal, o que significa que não foram levados a pensar. Prisioneiros de um assujeitamento mortífero aos pensamentos do outro, diante de frustrações que são vivenciadas como situações de risco, o que podem fazer é fugir para o agir bulímico. Em compensação, manifestam uma obstinada vontade de viver. Tomado por uma situação para a qual não encontra outros meios de livrar-se dela, para não sucumbir, a saída que o sujeito encontra para assegurar e reafirmar sua vontade de sobrevivência é oferecer o seu corpo com o que ele sabe fazer, ainda que não seja a melhor solução.  O que se observa nessa saída não é da ordem de um investimento libidinal, mas uma evasão que, em geral, contribui ainda mais para fragilizar e expor o sujeito ao desmoronamento de todas as formas de vida que se apresentam como possível.

Para Zaltzman, é o fluxo da pulsão de morte que surge quando não há mais o que fazer a não ser extrair sua força da própria pulsão de morte e remeter contra ela e sua destruição. “Só a energia da pulsão de morte pode propulsar o ímpeto libertário” (ZALTZMAN, 1994, p. 66). Através do agir bulímico, o sujeito revela seu vigoroso desejo de libertar-se da presença do outro em si maciçamente presente nos pensamentos sobre a comida, sobre os perigos do mundo se não seguir seus preceitos, e de conquistar o direito de viver a partir de si e por si.

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