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VOL.5 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2014

EDITORIAL

O conjunto de artigos da Revista Epos explora, no seu último número do quinto volume, dois dos três eixos temáticos de sua linha editorial: violência e subjetivações. No primeiro eixo, inscrevem-se dois artigos que tratam do tema mídia e violência. “A produção de sentidos no jornalismo: os modelos pelo mundo e a cobertura da criminalidade no Complexo da Maré no Rio”, de Marise Tristão e Fernanda Sanglard, analisa a cobertura de dois episódios de violência ocorridos na cidade do Rio de Janeiro por dois veículos da mídia, apresentando-nos uma análise comparativa sobre os discursos, em suas ênfases e silenciamentos na construção das notícias, na qual a ausência do Estado é notificada, mas a partir de enquadres ético-políticos contrastantes. Em tempos de debate sobre a regulamentação da mídia e no contexto de seu reposicionamento nas democracias emergentes, o artigo apresenta elementos para pensar as funções (enunciadas e latentes) realizadas pela mídia entre sociedade civil, Estado e criminalidade, tornando explícito seu papel na gestão política dos riscos na atualidade. Já no artigo  “Assassinos de que natureza?”, Danielle Brasiliense questiona a essencialização do mal através da análise  do filme Assassinos por natureza e da série de TV Breaking Bad, ambos produções norte-americanas,  propondo um debate em torno da relação entre mal e moral, a fim de pensar a naturalização do mal como recurso de normalização.

No segundo eixo – o das subjetivações –, Nelma Cabral analisa experiências de sofrimento em conexão com o mal-estar na atualidade, tomando como caso as bulimias, no artigo “Pensar e pensamento em questão nos sofrimentos bulímicos”, no qual recupera a inversão freudiana na relação entre desejo e pensamento, destituindo o segundo da soberania que a tradição racionalista cartesiana havia lhe imputado e o condicionando à emergência do desejo e da pulsão de morte. Neste quadro, o trabalho situa a ação repetitiva no curto-circuito pulsional da ação bulímica como uma estratégia de separação do outro e de afirmação de uma vida não redutível aos imperativos narcísicos e medicalizantes da atualidade. Dialogando com a reflexão sobre sofrimento e singularização, Helena Bocayuva, por sua vez, aborda, no artigo “Vinte e cinco dias às voltas com Guillain-Barré”, as repercussões subjetivas de um encontro contingente e contundente com a fragilidade da vida, através de uma experiência autobiográfica com a síndrome de Guillain-Barré articulada à noção foucaultiana de acontecimento. O artigo torna inequívoca a dissimetria entre a experiência de adoecimento/enfermidade, singular e em sua dimensão necessariamente relacional, e a categoria da doença, objeto de interesse do olhar médico.

A articulação entre sofrimento psíquico e redes/estratégias de cuidado é abordada em dois artigos que compõem o número atual. Em “Maternidade, sofrimento psíquico e redes sociais”, Carla Sousa, Vládia Jucá e Adilane Barbosa analisam, através de seis histórias de vida, como se estruturam, são acionadas e se articulam redes de suporte de mães sob sofrimento mental. Inscrito na linhagem crítica acerca da naturalização do lugar da mulher e da mãe, o trabalho nos apresenta insumos para mostrar formas inventivas de resistência aos discursos e práticas asilares e eugenistas. Já o artigo “O brincar em família como possibilidade de humanização para crianças no hospital”, de Vânia Bustamante, Darci Neves, Marta Matos e Rosângela Oliveira, expõe um relato de experiência sobre uma intervenção em saúde mental com famílias de crianças hospitalizadas em um setor de cardiologia que nos permite pensar como o acolhimento e o trabalho com os vínculos familiares, na perspectiva de dar voz à singularidade do adoecimento em seu sentido amplo, podem trazer contribuições à integralidade e humanização do cuidado.

Fechando o número, Leila Ripoll apresenta, através da resenha intitulada “A negação freudiana: fissuras na razão cartesiana e na neutralidade científica”, o livro A negação, de Sigmund Freud, reeditado  pela Cosac Naify, com tradução de Marilene Carone e textos do filósofo Vladimir Safatle e do físico Newton da Costa. Em seu convidativo trabalho, Leila Ripoll põe ênfase na contribuição de Freud para uma crítica da neutralidade científica, na qual o sujeito psicológico e o sujeito do conhecimento tornam-se indiscerníveis, e aponta ainda para os desafios do uso da lógica e da matemática em sua articulação com a psicanálise.

Boa leitura!

Cristiane Oliveira e Silvia Alexim Nunes
Editoras executivas