UERJ I IMS I FAPERJ

icon

VOL.6 | Nº 1 | Janeiro – Junho 2015

EDITORIAL

Neste sexto volume do primeiro número de 2015, o conjunto de artigos da Revista Epos: Genealogias, Subjetivações e Violências sustenta a perspectiva interdisciplinar em seus espectros teórico e metodológico. O diálogo fecundo da teoria psicanalítica, especialmente do discurso freudiano, encontra contornos com a filosofia francesa em Deleuze e Guattari; a literatura de José Saramago e a potência criativa do escritor como devir e forma de resistência; o marxismo e as relações com o totemismo via carne animal versus humano-consumidor; a centralidade do cérebro nas discursividades psi. Estão em jogo os eixos genealogias, subjetivações e violências, no híbrido que caracteriza as aproximações de diferentes campos de saber e lugares de fala.

No eixo Subjetivações, Natasha Mello Helsinger, em “A concepção normativa do funcionamento psíquico e os processos de subjetivação: o cérebro na era da pós-psicanálise”, analisa as formas de subjetivação que estão sendo forjadas pelas atuais tecnologias “PSIs”. Percorrendo a afirmação de Joel Birman de que a crença de que as experiências subjetivas são determinadas por processos neuroquímicos está difundida no imaginário social, Natasha evidencia que a percepção normativa sobre os fenômenos psíquicos culminou no enaltecimento do registro do cérebro. Enaltecimento este que produz uma dissonância entre psicanálise e contexto contemporâneo. O relevo de tal afirmação implica ainda (e principalmente) o registro do sujeito e suas formas de subjetivação, o que contribui para a perda do poder simbólico da psicanálise quando é justamente o sujeito que é colocado em xeque nesse enredo. Ainda no eixo subjetivações, a carne animal como signo das formas de consumo demasiadamente humanas é o analisador do modus operandi capitalista articulado à costura teórica que Gabriela Xavier estabelece entre Marcuse, Marx, Adorno, Horkheimer e Freud em seu artigo “Uma sociedade carnívora: pensando na alimentação e fetichismo”. Ela analisa a constituição da forma moderna de relação com os animais, desde a introdução da dinâmica mercantil na centralidade da vida social; dos processos perturbadores provocados pela atividade industrial interposta a esta relação, evidenciando, por fim, o caráter primitivo da subjetividade moldada neste trajeto. Neste primitivismo, problematiza a lógica econômica do totemismo a partir de Freud e a projeção fetichista presentes no modo de produção das relações entre os homens e os animais. Entre os sujeitos e a carne (não mais animal), a autora reflete sobre as condições de possibilidade da transformação do “bicho” em objeto de consumo mortificado e fragmentado pelas tecnologias de mercado.

Dois dos artigos compõem o eixo Genealogias. No primeiro, “Deleuze, Guattari, Freud e o problema da personalidade”, Victor M. Nobre Martins analisa a noção de personalidade em Freud, a partir das críticas de Deleuze e Guattari sobre uma suposta personologia freudiana. De precisão teórica, o confronto dos textos analisados é um convite ao leitor para acompanhar a análise que se tece nas ressonâncias e lacunas entre os discursos no percurso teórico-metodológico eleito pelo autor. Ao problematizar a distância entre a posição teórica freudiana de decomposição da personalidade e as críticas deleuzo-guattarianas de unificação da personalidade, Victor Martins confronta a recepção que Deleuze e Guattari fizeram do discurso freudiano com a própria letra freudiana. Já o segundo artigo do eixo Genealogias nos remete diretamente ao diálogo com a literatura. Em “A crítica da história como genealogia e a criação literária: análise de uma proposta de Saramago a partir de Deleuze”, Sara Grünhagen e Luiz Paulo Leitão Martins analisam a proposta de José Saramago de realizar uma crítica da história em seus romances, articulando essa análise à noção de crítica em Gilles Deleuze. Considerando o escritor português como inventor e criador de um estilo, os autores investem no devir potencial da linguagem na escrita do romance estudado para identificar a relação de forças presentes em História e ficção, de Saramago. No horizonte delineado no presente artigo, entre a história e a ficção, a escrita literária surge como ato criativo do pensamento e forma de resistência, elemento que encontra ressonâncias no filósofo francês Gilles Deleuze.

Destaca-se que o eixo Violências ganha contornos potentes e estratégicos com a entrevista de Nilo Batista acerca da redução da maioridade penal, em que o Brasil mostra a cara do projeto de encarceramento/mortificação da população jovem e pobre no atual cenário brasileiro.

Fechando o número e seguindo o lastro de abertura deste editorial, a resenha de Analicia Martins de Souza, intitulada “Na contramão dos discursos sobre violência”, apresenta ao leitor a pluralidade da coletânea reunida no livro A violência na berlinda, organizado por Vera Malaguti Batista e publicado em 2014. Publicação esta que buscou e busca compartilhar outros possíveis para a liberdade em tempos de autoritarismo e violência travestidos de neoliberalismo.

Boa leitura!

Rita Flores Müller, Cristiane Oliveira e Silvia Alexim Nunes