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VOL.6 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2015

BEATRIZ. RESISTÊNCIA, VIOLÊNCIA E CORAGEM CONTRA A SOCIEDADE E O ESTADO.
RIO DE JANEIRO, 1919-1948 1

BEATRIZ. RESISTANCE, VIOLENCE AND COURAGE AGAINST SOCIETY AND STATE.
RIO DE JANEIRO, 1919-1948

Silvana Jeha*
* Doutora em História pela PUC-Rio. Pesquisadora PNAP-R da Fundação Biblioteca Nacional. Pós-doutoranda da Escola de Economia de São Paulo/FGV.

Resumo: Este artigo é sobre a trajetória de Beatriz Barbosa, migrante alagoana no Rio de Janeiro, onde atuou principalmente como prostituta, entre 1919 e 1948. O estigma de vadia, palavra guarda-chuva para todas as suas contravenções e delitos – e de milhares de brasileiros que tiveram destinos comuns – a colocou num redemoinho de detenções, penas, recolhimentos em asilo de mendigos e internações em manicômios. Processos judiciais e dezenas de notícias nas páginas policiais contra ela possibilitaram que se constituísse uma persona transgressora. Nos trinta anos que deixou rastros é possível entrever a história a contrapelo das instituições disciplinares que percorreu e refletir sobre os significados de sua resistência, coragem e violência frente à condição permanente de indesejada.

Palavras-chave: prostituição; biografia; instituições disciplinares; Rio de Janeiro; século XX.

Abstract: This article summarize the path of Beatriz Barbosa, a migrant from Alagoas to Rio de Janeiro, where she worked mostly as a prostitute, between 1919 and 1948. The slut stigma, the term that encapsulated all of her transgressions and mischiefs (and of thousands of brazilians that shared the same destiny), drove her to a spiral of detentions, criminal charges, homeless asylums and mental hospital internment. Through the research of tens of news articles written abour Beatriz at her time and criminal and clinical records we can see a trasngressive persona emerge. Along the more than 30 years of her historical tracks is possible to historicize the scope of disciplinary institutions that she was subjected and to reflect on the meanings of her resistance, courage and violence against her permanent conditon of unwanted.

Keywords: prostitution; biography; disciplinary institutions; Rio de Janeiro; 20th century.

Será que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido
(…)
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo

(Chico Buarque, “O que será, à flor da terra”)

Espalhada pelos jornais cariocas de 1919 a 1948, uma sequência de notícias forma um folhetim involuntário.2 Ele narra as desventuras da alagoana Beatriz Barbosa no Rio de Janeiro. Complementam as notícias de jornal, nove dos pelo menos vinte processos judiciais que sofreu. Nos trinta anos que podemos acompanhar sua trajetória criminal, descobrimos sob o inventário de tantas contravenções, pequenos rastros de sua história mais íntima, de migrante, favelada, doméstica, prostituta, andarilha, sem-teto, amante de samba, amorosa, alcoólatra, usuária de cocaína e navalha, mendiga e eventualmente louca. Transgredia permanentemente. Não havia interdito, apenas impulso.

Beatriz passou pela maioria das delegacias do Rio de Janeiro e algumas de Niterói. Gastou mais de uma década em estadias intermitentes em instituições disciplinares, sobretudo na Casa de Detenção do Rio de Janeiro e na Colônia Correcional Dois Rios na Ilha Grande. Fez parte das primeiras levas de prisioneiras da primeira penitenciária feminina carioca, hoje chamada Talavera Bruce, integrante do complexo prisional de Bangu. Foi recolhida como mendiga no Abrigo Cristo Redentor.  Foi interna da Colônia Juliano Moreira, de assistência psiquiátrica. Sua trajetória esboça uma história a contrapelo dessas instituições e demonstra as intrínsecas relações entre todos esses locais.

Manicômios, prisões, abrigos de mendigos existiram para afastar da sociedade todos que não se adaptavam às regras e leis, mas sobretudo os que não atenderam aos requisitos de normalidade. Uma boa parte das pessoas detidas não oferecia perigo à sociedade, mas entraram num redemoinho de marginalização sem fim mantido pelo acúmulo de estigmas e seu mais importante documento: a ficha de antecedentes criminais.

Beatriz foi presa na maior parte das vezes porque estava na rua, porque bebia, porque não tinha domicílio fixo. Isso a distanciava cada vez mais do acesso à cidadania, instituição que jamais conheceu. Cometeu pequenos furtos: uma colcha de cama, vestidos, pequenas quantidades de dinheiro. Seu crime mais grave, dar uma navalhada na barriga de um namorado ladrão, foi punido com sete meses e quinze dias de cadeia. Pelo roubo de uma colcha, porém, amargou uma pena quatro vezes maior.

Nasceu no final da década de 1890, em Alagoas. Num depoimento disse que migrou para o Rio de Janeiro em 1901 com a mãe. Não se usava então a palavra nordestina: era identificada normalmente como nacional.  Declarou num processo e numa entrevista ter se casado com Armando Machado, soldado ou funcionário do Exército. Dois ou três anos depois, enviuvou ou o casamento acabou. Em todos os interrogatórios, definia-se como “doméstica”. Uma única vez constou na sua ficha “doméstica e prostituta”.

Quando chegou na Capital Federal no alvorecer do século XX, morou no Morro da Favela. Beatriz fez parte do mundo do samba: “com orgulho e saudade relembra a sua convivência com Chico Urubu e outras notabilidades da malandragem local”.3

Mestiça, foi descrita nos jornais e processos como cabocla, parda, branca e mulata clara. Por cima da pele mutante e furta-cor, “tinha os braços e o peito coberto de tatuagens. Datas, nomes, cruzes e outros símbolos indecifráveis” para um jornalista que as viu.4 Tinha também nas coxas.5 A miríade de tatuagens eram uma marca e uma atitude, pelo menos segundo as convenções da época, de que Beatriz tinha chegado a um tal grau de marginalização e estigma, era tão destituída de bens, respeitabilidade e cidadania, que não tinha nada a perder. Tatuar-se era um dos atributos comuns dos párias totais. Entre as mulheres, era visto como um sinal certo de prostituição ou má-vida. E quem se tatuava sabia que ia pagar um preço caro.

Beatriz atuou nos vários espaços do baixo-meretrício carioca: zona tórrida ou decaída (atualmente corresponde à área conhecida como Saara); Praça Tiradentes, Lapa, na zona do Mangue original localizada na Cidade Nova (área da atual Prefeitura); na zona portuária.6 Sua trajetória é um mapeamento completo do bas-fond carioca.


Beatriz em 1920. O Jornal, 13/6/1920.

Em 1919, na Pensão Helena, na rua General Câmara, brigou com a colega Glória. Hoje debaixo da avenida Presidente Vargas, a rua ficava na “zona tórrida”. O motivo do fuzuê foi Francisco Polonis, vulgo Chico Malandro, amante e cafetão de Beatriz. A polícia fechou o lupanar, à época apelidado de colmeia, cujas prostitutas eram chamadas de abelhas. Beatriz morou em vários endereços da zona tórrida, entre eles a rótula (veneziana) número 58 da rua do Núncio.

Na mesma zona, em junho de 1920, segundo os jornais, Beatriz, dos “cabelos cortados à inglesa”, bebeu e consumiu cocaína com Abigail num restaurante da rua Buenos Aires. Seguiu para a rua São Jorge (atual Gonçalves Ledo), onde na pensão pertencente à famosa China Paim, “de nome na história do crime”, morava a colega Henriqueta, seu desafeto. Uma briga barulhenta começou e foi apartada pela polícia. Beatriz terminou detida, bem como o fuzileiro naval Noel, namorado de uma das moças, que peitou o guarda. Este chamou uma viatura de patrulha, apelidada de “viúva alegre”. O fuzileiro fugiu armado pela avenida Passos e foi perseguido pelos guardas, que iniciaram um tiroteio. Levaram chumbo um burro, um italiano, o fugitivo e o para-brisas de um carro.  Na delegacia, foram fotografados ela e o fuzileiro. Beatriz não cometera nenhum crime, nem fichada foi, mas seu retrato saiu em vários jornais com textos enormes sempre como a responsável pelo estopim do conflito. Era o início de sua criminalização.

E para incrementar a história que causou tamanha desordem na cidade, os supostos vícios de Beatriz, o álcool e a cocaína, tornaram-se igualmente protagonistas. Um dos jornais afirmou ser seu apelido “Come cocaína”. Até 1920, a cocaína era uma droga vendida em farmácias, cafés, charutarias. A partir de então, uma série de decretos regularizou a venda com prescrição médica em farmácias, determinou penas para vendedores clandestinos e internação compulsória para usuários, até a completa proibição.7 A cocaína, tema quente desde o início do século, inspirou o retrato dramático de Beatriz por um cronista policial:

Entre as raparigas que comerciam o amor pelo menor preço destaca-se na zona da última espécie, que tem os seus arraiais no perímetro compreendido pela rua do Núncio e adjacentes, a nacional Beatriz Barbosa.
É uma figura franzina que as contínuas vigílias têm depauperado e que, ultimamente, para cúmulo, busca nos devaneios que a cocaína lhe proporciona um resquício de fugidia alegria. Embriaga-se constantemente com o perigoso tóxico a infeliz. A princípio, quando a razão se lhe esmaecia ela tinha crises de choro, antes de ser vencida pelo sono; nestes últimos tempos, porém, a ação da cocaína exerce sobre ela um domínio de terror: julga-se perseguida, acredita que todos lhe dirigem chufas, que serve de escárnio e zanga-se, grita ameaça, faz escândalo. As companheiras de infortúnio já gastaram grande messe de conselhos no interesse de livrá-la do polvo. Tudo é feito em vão. Assim que arranja algum dinheiro ela vai à farmácia e entrega-o a troco de veneno.
Ontem por volta de 5 horas da tarde, mal a Beatriz acabou de comer frugalmente no primeiro hotel que encontrou, ingeriu a sua obrigação de cocaína. Esta age já em terreno conquistado de sorte que não encontrando resistência escraviza a rapariga.
Voltando bêbada, passou Beatriz pela porta da casa da rua de S. Jorge, n. 72, um reduto de odaliscas sem qualificação. Súbito parou ela e dirigindo-se a Henriqueta Nascimento que apoiava o cotovelo na rótula, sentada num tosco banco de madeira, despejou sobre esta a bateria de um vocabulário atrevido e insultuoso. Feito isto, começou a gritar, a promover escândalo forçando a intervenção do guarda civil que rodava a zona. 8

A prostituição até hoje é relacionada ao mundo das drogas. Sabemos que além de seu uso ser universalizado independente de profissão, diversos outros meios profissionais possuem esta fama de maneira menos explícita, porque não são estigmatizados como as prostitutas. Uma prostituta me disse que fez uso de cocaína injetável no passado para suportar a dor de apanhar dos policiais, pois atuou nas ruas durante a ditadura militar. Além de apanhar e revidar, foi torturada nas delegacias. Decidiu parar. Em suas memórias, a prostituta Gabriela Leite relata sua experiência: “As drogas sempre rondaram o universo das putas.” Por um período, ela se viciou em “bolinhas” ou Pervirtin (mentafetamina), que ajudava a trabalhar com mais disposição. Resolveu parar porque os efeitos colaterais a faziam perder o controle (LEITE, 2009, p. 11-12).

A partir de 1920, Beatriz foi detida e processada diversas vezes. Em julho, inaugurou sua ficha de antecedentes criminais. Um guarda resolveu prendê-la na rua São Jorge pelo seguinte motivo:

às vinte e três horas mais ou menos (…) prendeu em flagrante Beatriz Barbosa por estar vagando sem destino e na mais completa ociosidade, que sabe e afirma de ciência própria que a acusada há muito tempo não tem ocupação honesta nem meios de vida lícitos para sua subsistência, sem domicílio certo, por isso é vista diariamente a perambular e a dormir pelas ruas deste distrito9

Dez dias depois a sentença do juiz julgou improcedente o processo, porque todas as três testemunhas eram policiais e porque Beatriz não tinha antecedentes. De todo modo Beatriz esperou o julgamento presa, e este foi o primeiro “antecedente criminal” que ficaria para sempre na sua ficha do Instituto de Estatística e Identificação, depois Instituto Félix Pacheco. Além do registro geral de todos os cidadãos, essas instituições reuniam todas as suas eventuais ocorrências policiais. O documento “Folha de antecedentes” presente em todos os seus processos foi fundamental para suas sentenças.

O testemunho do guarda que a prendeu era uma variação do artigo 399 do Código Penal de 1890, uma versão republicana de outras leis coloniais e imperiais contra vadiagem: “Deixar de exercitar profissão, ofício, ou qualquer mister em que ganhe a vida, não possuindo meios de subsistência e domicílio certo em que habite; prover a subsistência por meio de ocupação proibida por lei, ou manifestamente ofensiva da moral e dos bons costumes.” Dos pelo menos vinte processos que Beatriz sofreu, registrados na sua ficha de antecedentes criminais de 1945, doze foram por vadiagem. As reincidências resultavam em estadias nas colônias correcionais. Muitas vezes o artigo 399 era coadjuvado com o artigo 52 do Decreto 6994/1908, que reorganizava a Colônia Correcional de Dois Rios na Ilha Grande. Tal artigo determinava que os internos da colônia insular que ficou conhecido como o presídio da Ilha Grande seriam “os indivíduos maiores de qualquer sexo que, sem meios de subsistência por fortuna própria ou profissão, arte, ofício, ocupação legal e honesta em que ganhem a vida, vagarem pela cidade na ociosidade”.

Cada ocorrência e ou notícia de jornal sobre Beatriz indicava um endereço diferente.  A prostituição não era crime, mas podia facilmente ser enquadrada na vadiagem, interpretada como “ofensiva da moral e dos bons costumes” ou contra o “bem-estar da população e a moralidade pública”.10 Esses detalhes legais levaram dezenas de milhares de prostitutas para cadeia ao longo de toda República.

Em todos os processos de que foi acusada de vadiagem, as testemunhas repetem uma variação dos artigos das leis que tratam do assunto:

vaga constantemente (…) pernoitando quase sempre em hospedarias de baixa esfera, onde pratica o baixo meretrício em companhia de desocupados e desordeiros conhecidos após libações de álcool em botequins mal frequentados.

É vagabunda muito conhecida (…) está constantemente a vagar.

É vista constantemente a vagar embriagada e a dar escândalo nas ruas desta cidade.

É vadia conhecida, vivendo dia e noite nas portas dos botequins e hospedarias; que não tem meios de subsistência por fortuna própria.11

A detenção inaugural de Beatriz em 1920 coincidiu, não por acaso, com os preparativos para a visita dos reis da Bélgica ao Rio de Janeiro, em setembro daquele ano. A cidade se engalanara para receber a comitiva nobre. O rábula ativista Evaristo de Morais denunciou a repressão ilegal e violenta, feita “sob protesto de ser necessário evitar que os escândalos do baixo meretrício pobre nos pudessem desmoralizar perante o Rei Alberto” (apud CAULFIELD, p. 54). Muitas prisões de mendigos e prostitutas ocorreram então, e foi nesse período que o baixo meretrício começou a ser empurrado para uma área mais marginal, a Cidade Nova, onde originalmente havia um grande manguezal, daí o apelido Mangue daquela área de prostituição.

Em março de 1922, no bar Madrid, na Praça Tiradentes, a alagoana foi agredida por Francisco Coloneiz, vulgo Chico Malandro, seu amante e cafetão. Sofreu contusões no nariz e na face direita.12 Anos mais tarde, numa entrevista, declarou que nessa época morava com ele e o sustentava, bem como a sua mulher e filhos.13

A mão que bate, assopra. Em pelo menos quatro processos de vadiagem consecutivos entre 1920 e 1923, Chico Malandro fez o seu papel de cafetão, evitou que Beatriz fosse deportada para Ilha Grande, apresentando ao juiz atestados de trabalhos: empregada doméstica na casa de um espanhol, empregada doméstica na casa de sua mãe e, num processo que já estava condenada a ser extraditada, arrumou uma oferta de emprego numa marcenaria para a moça.14

Em 1922, Beatriz passou a frequentar o outro lado da cidade, perto do Paço Imperial, hoje Praça XV. Por muito tempo a praça abrigou o Cais Pharoux, desembarque de passageiros e de marujos de passagem pela cidade. As ruas adjacentes, principalmente a da Misericórdia, foram marcadas pela prostituição e estalagens de marujos. Com a derrubada do morro do Castelo e desconfiguração da rua da Misericórdia, aos poucos a boemia se dissipou, mas ainda existia na década de 1920. Em março de 1922, Beatriz foi presa por vadiagem na rua da Misericórdia junto com José Maria, Maria Raymunda e Cecilia.15 A limpeza social era provavelmente promovida pela comemoração dos cem anos da independência. O Rio de Janeiro mais uma vez se enfeitava, detendo parte da população da cidade. Na mesma diligência, foram detidos mendigos que pediam esmolas na avenida Rio Branco.

Dias depois, Beatriz estava na rua do Lavradio, na Lapa, onde morava. Passeava com a colega Nair e parou no Café Luso-Brasileiro, na Praça Tiradentes, onde tomou vinho do Porto.16 A amiga pagou metade da conta e não quis pagar a parte de Beatriz, que lhe arremessou um copo na cabeça, abrindo-lhe um corte. No fim do ano, presa novamente por vadiagem na Praça XV, aguardou o processo na Casa de Detenção por sete meses.

Em janeiro de 1923, o camelô russo Ischavoris Gustaf Brednovitz foi preso em flagrante vendendo cocaína para Beatriz.17 Em agosto de 1924, oito pessoas foram socorridas pelo Posto Central da Assistência.18 Entre elas, Beatriz, ferida no braço com navalha na Travessa do Paço. Numa hospedaria dessa rua, em março de 1925, atracou-se com Marietta de Sá e ambas foram autuadas na delegacia.19 Apesar de absolvida, passou 45 dias na cadeia.20

Em 1926, Beatriz atravessa a baía. Às duas da madrugada, na Drogaria Lima, Niterói, próximo à ponte das barcas, ela se altercou com um funcionário: queria comprar um frasco de cocaína sem receita médica. Levada para o comissário, respondeu a interrogatório. Um jornalista a entrevistou na barca, quando voltava ao Rio:

Tenho 31 anos, resido no Rio e vivo amasiada com um português. Tomo cocaína há dois anos. Compro no Baianinho, rapaz que faz ponto nos botequins da Rua Pinto de Azevedo, Rua Buenos Aires, canto de São Jorge, numa farmácia, no Mario Monteiro, na Odete Boca Larga e às vezes em Niterói, onde arranjei um frasco que o comissário encontrou em meu cabelo. Preciso deixar de tomar cocaína, o meu homem gosta tanto de mim.21

Seu homem talvez fosse o português Manoel Joaquim Pinheiro, dono do botequim Nova Estrela d’Alva, na Travessa do Paço,22 incluído num inventário amoroso da moça publicado em A noite.23

Em 1927, Beatriz foi condenada por vadiagem e não teve mais como escapar: passou dois anos na Colônia Correcional Dois Rios, na Ilha Grande.24

Segundo o Decreto 6994/1908, que reorganizava a Colônia, os internos eram “vadios, mendigos validos, capoeiras e desordeiros”. Miriam Sepúlveda resume bem esta situação dos desajustados antes do grande aprisionamento por tráfico de drogas, que copiaríamos décadas mais tarde do modelo norte-americano:

No Brasil como em outros países da América Latina, o número de indivíduos desajustados à ordem e reprimidos pelo chefe de polícia era muito maior do que aquele representativo dos crimes mais graves. Operários pobres alcóolatras, doentes mentais, prostitutas, mendigos, vadios e manifestantes passaram a ser alvo predileto das autoridades policiais que os enviavam para asilos, penitenciárias, hospícios e escolas correcionais, todos denunciados como locais de custódia, sofrimento e desqualificação social. Estas operações tinham por base leis e regulamentos legitimados pela sociedade (SEPÚLVEDA, 2006, p. 453).

Quando deixou a Ilha Grande, voltou a morar no morro da Providência, sem número, o antigo morro da Favela. Algum tempo depois, numa tarde de julho de 1929, um soldado naval a conduziu para delegacia, pois estaria exibindo uma faca publicamente em frente ao Almirantado da Marinha. Quixote de saias, Beatriz não temia nem soldado nem almirantado.25

Em junho de 1930, foi tomar a fresca na praia de Copacabana com o marujo José de Souza, um de seus amores inventariados anos depois. O destino era o Mére Louise, antigo reduto da boemia carioca que se tornara um local de encontro de amantes e farras. A crônica policial de O Paiz não perdeu a oportunidade de narrar a historieta desse casal arquetípico: a puta e o marujo:

O dia de ontem era de folga, e o cabo José de Souza de 35 anos, pardo, destacado a bordo do Minas Gerais resolveu vir à terra para visitar a sua amante, Beatriz Barbosa, 34 anos, residente a rua do Lavradio.

Dado um balanço nos cobres existentes, o marujo resolveu cair “no mundo”. O calor era excessivo; tomaram um auto, rodaram por aí afora e já madrugada, foram cear na Mère Louise. Comeram, beberam, ainda melhor brigaram. Beatriz que estava bem alcoolizada e tem cabelinho na venta (…) puxou de uma faca e cravou-a no marinheiro seu amante, ferindo-o no braço e na clavícula esquerdos.26

Beatriz passou dois meses na cadeia e foi absolvida. Numa reportagem em 1935, teria dito a um comissário: “Tenho cinco cicatrizes na cabeça, mas todas em brigas com mulheres. Homem nunca me bateu.”27 Para ser mulher na rua, era necessário a faca, a navalha. E Beatriz delas se valeu. As armas brancas eram imprescindíveis para se defender e atacar. Quem explica melhor esta questão é a transexual Penélope Jolie de Oliveira, em depoimento ao Museu da Pessoa. Ela trabalhou como prostituta provavelmente nas décadas de 1990 e 2000: “Sempre fui eu por mim. Era eu, a faca do lado. A gente corria muito da polícia, apanhava muito da polícia. Sempre teve essa repressão. E, a gilete na boca eles não pegavam. Então, era uma forma de defesa e de ataque também” (OLIVEIRA, 2014).

Beatriz voltou para Ilha Grande entre 1930 e 1931. Não assistiu, em outubro de 1930, a chegada triunfante de Getúlio Vargas na capital, presidente do Brasil nos quinze anos seguintes, graças ao movimento político-militar que capitaneou. Com o término da “Primeira República”, em clima de novos tempos, é Salgado Filho, delegado auxiliar do distrito federal e futuro chefe da polícia, quem denuncia as más condições do pavilhão das mulheres na Ilha Grande onde Beatriz estava vivendo:

num galpão cimentado e com telhas vãs, escuro com uma única porta a ventilar. A luz que se poderia projetar por uns vãos abertos na parte superior das paredes é empanada por estopas que vedam também a entrada do ar. As camas sujas, sem que se lobrigue um ponto branco sequer, denunciador de ter existido asseio, mesmo em tempo remoto, e os poucos colchões que há são imundos.28

Novas instituições disciplinares seriam criadas nesse “novo Brasil”, mas pouco mudaria para Beatriz e seus congêneres como veremos.

Beatriz não sabia o que era risco. Mas vivia em áreas de risco, viva em risco permanente, com a vida por um fio. Um fio pulsante.  Distante do desejo de respeitabilidade, sua potência de vida atendia a quesitos de sobrevivência e fruição. Beatriz, na sua condição subproletária, não vislumbrava ser a moça de respeito, e, ao que parece, nem integrar uma associação de prostitutas, pois não existiam.  A solidariedade entre iguais era algo movente: ora se disputava a tapa o exíguo espaço marginal, que continha milhares de prostitutas nas grandes cidades, ora se agrupavam para trabalharem juntas, protegendo-se mutuamente, quando não havia a figura do cafetão. Ao que parece esta figura sumiria da vida de Beatriz em meados da década de 1920.


Ao longo de seus processos, Beatriz passou a declarar que sabia ler e escrever. Sua letra melhora a cada confissão que assina. Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. 20ª vara criminal, Arquivo Nacional, cx. 838, n. 2765.

Em 1931, depois de uma temporada de um ano da Ilha Grande, só o Mangue lhe receberia de braços abertos: morou com outras prostitutas nas ruas Visconde Duprat e Rodrigues dos Santos, na subida do morro de São Carlos. A partir da década de 1970, esta região de baixo meretrício foi, aos poucos, transferida para a Praça da Bandeira, dando lugar a atual prefeitura do Rio, não à toa apelidada de Piranhão.

No dia 10 de julho de 1931, roubou o cliente de uma colega: Sebastião Ventura, 37 anos, pernambucano, trabalhador braçal da Estrada de Ferro Central do Brasil. Às 21 h entrou no quarto de Sebastiana de Carvalho, que o atendia, e tirou sorrateiramente 140 mil réis do bolso de sua calça dependurada na cama. A colega percebeu e a denunciou. Tarde demais: quando Sebastião a reencontrou, na rua, Beatriz havia repassado quase todo o furto para Jaime, um suposto amante.29

Cinco dias depois, ela passeava na zona do Mangue com o soldado José Antonio dos Santos, vulgo Sophia. Um marujo do cruzador Barroso pegou pelo braço da moça. O soldado protestou: “Alto lá camarada! A garota está comigo.” Ao que o outro teria retrucado: “Pois então ficará conosco.” O jornalista resumiu a cena: “Gritos da pequena. Sangue tingindo o kaki de Antonio, gemidos. Fuga apressada do marujo. Assistência. Comissário no local.” Jose Antônio dos Santos levou um profundo talho de navalha no rosto.30

Longe de familiares frequentemente, soldados e marítimos se relacionam com prostitutas, e com elas mantinham variados laços. A expressão “mulher de soldado” quer dizer mulher de baixo meretrício, e é ainda dicionarizada no dicionário Houaiss. Em A hora da Estrela, de Clarice Lispector, a migrante nordestina Macabéa se pinta exageradamente. Empregada doméstica no Rio de Janeiro, quando entra na sala, a patroa exclama: – “Você endoidou, criatura? Pintar-se como uma endemoniada? Você até parece mulher de soldado.” Ao que ela responde: “– Sou moça virgem! Não sou mulher de soldado e marinheiro” (LISPECTOR, 1998, p. 62).

Ao contrário de Macabéa, migrante nordestina como ela, Beatriz era mulher de soldado e marinheiro. Trabalhando eventualmente como doméstica, não se conformou com a exigência de respeitabilidade e recato numa profissão tão desrespeitada e mal remunerada.

Em julho de 1931, hospedou-se no hotel Flor da Saúde na rua Sacadura Cabral, e roubou um vestido e combinações da proprietária. Nos jornais seu apelido é Maria Sapeca ou simplesmente Sapeca.31 Não é a primeira vez que ela rouba roupas: Dois anos antes trabalhou por quatro dias como doméstica numa casa em Niterói. Dali sumiu com roupas de uma empregada anterior e uma corrente com uma cruz.32

Em setembro entra em casa alheia e é detida por dois meses. Ao sair da Detenção, numa madrugada de novembro, encontra o eletricista Horacio, casado e cinquentão, na rua Senador Pompeu. Entram num bar para tomar uma cerveja. Uma briga começa e ela lhe agride com o guarda-chuva.33 Dessa vez, Sapeca entra em cana e emenda uma sentença na outra, ficando um ano na Detenção.34

Em maio de 1933, presa como vadia, passa mais um ano na Ilha Grande. Foi solta em agosto de 1934.35

Em 1935, Beatriz, eternamente sem domicílio certo, marginal dos marginais, está morando na Plataforma Marítima, uma estação abandonada da Estrada Ferroviária Central do Brasil, na Gamboa. Ergueu-se ali uma série de barracos improvisados. Beatriz ocupava um deles junto com Lourival Reis, vulgo Vaidoso. Numa tarde, surpreendeu-o com Nair Mãozinha. Beatriz enfiou a navalha na barriga de Vaidoso e foi presa pela trigésima vez, segundo os jornais.  Disse ao delegado: era a 50ª facada que desferia em alguém. Ele perguntou: e você já as levou? “Tenho cinco cicatrizes na cabeça, mas todas em briga com mulheres. Homem nunca me bateu”.36 Passou mais nove meses presa.

Numa visita à Casa de Detenção, um jornalista a entrevistou e a resumiu:

Dizem que tem o seu romance. Foi bonita. Apareceu a princípio na história da boemia da cidade como motivo de sérias contendas entre os homens. Percorreu todos os hospitais da cidade e acabou no xadrez das delegacias policiais. Conta 200 entradas. Um recorde respeitável, mas continua infernal. E Beatriz ainda se enfeita. Gosta de vestidos finos, tanto quanto do álcool. 37

A pena que cumpriu por este crime, entre 1936 e 1937, coincidiu com parte do período que a psiquiatra Nise da Silveira foi presa na mesma Casa de Detenção, acusada de comunismo. Dra. Nise foi acomodada no primeiro dia numa cela comum, “que tinha um número incrível de baratas. A imundice era grande”. A psiquiatra reclamou e foi transferida para um “lugar muito melhor”, onde ficavam as presas políticas, entre elas membras do Partido Comunista, Olga Benário e Elisa Berger, logo extraditadas para Alemanha. (MELLO, 2014, p. 75).  Dra. Nise se valeu do privilégio de presa política, letrada e ficou nesse tempo melhor acomodada que Beatriz. Mas não esqueceu do que viu entre os presos comuns, com os quais de algum modo conviveu no ano e meio de sua estadia. Numa entrevista em 1992, declarou:

Foram a maior experiência humana de minha vida esses meses que passei na Detenção e na Correção. Todo psicanalista deveria fazer um estágio de um ano na prisão, pois nada como o encarceramento para mostrar a alma humana (…). Aliás os juízes, promotores deveriam passar não um, mas dois anos na cadeia, para avaliar ao que condenam seus semelhantes (apud MELLO, 2014, p. 81).

Em 1937, Beatriz deixa a Detenção. Novamente acusada de vadiagem, volta para lá em 1940.38

Beatriz quer se enfeitar, e, de fato, nas fotografias de jornal sempre está elegante. Em março de 1941, bateu à porta de uma família que já havia lhe doado roupas, pedindo mais. Não foi atendida e, inconformada, despiu-se. A família trouxe-a para dentro de casa e chamou a polícia. Enquanto, isso Beatriz vestiu uma roupa da dona de casa. Foi para delegacia e não queria devolver o vestido. Quando viu que seria obrigada, rasgou-o todo.39

Talvez tenha sido levada pela polícia para o Abrigo Cristo Redentor, onde, num inquérito de 1945, disse ser seu endereço nos últimos anos. O abrigo, que ainda existe no bairro de Bonsucesso, concedia asilo e assistência médica a mendigos e menores abandonados que chegassem lá espontaneamente ou trazidos pela polícia, provavelmente a maioria. Havia uma alta taxa de “saída sem consentimento”, centenas de internos o faziam (CAMINHA, 2012, p. 76). A criação do Abrigo Cristo Redentor, uma iniciativa da sociedade civil, foi incentivada e subsidiada por Getúlio Vargas na década de 1930. Era dirigido por freiras e mantido principalmente pelo Governo Federal, com altas somas anuais cedidas por um fundo do Conselho Nacional de Serviço Social (idem, p. 101)

Se antes os mendigos e desvalidos eram punidos e enviados para Ilha Grande, reconhecia-se dentro da lógica trabalhista de Vargas que nem todos os membros da sociedade eram aptos para o trabalho e educação, principalmente mendigos e menores sem família.

Em dezembro de 1943, foi internada pela primeira vez na Colônia Juliano Moreira, com guia do Abrigo Cristo Redentor. Ali passou uma temporada de seis meses. Saiu com alta experimental em 6 de maio de 1944.40

Deve ter voltado para o Abrigo Cristo Redentor, de onde, num dia de dezembro de 1944 escapuliu para vagar pela cidade. Entrou num prédio da rua São José, no centro da cidade, e pegou uma colcha de seda vegetal cor fraise, avaliada em Cr$ 80,00. Ela a vendeu por Cr$ 20,00 ao balconista de um botequim na hoje extinta rua Pharoux, travessa da Praça XV. Voltou então à cena do crime. O comerciante roubado a surpreendeu subindo as escadas do prédio descalça e bêbada. Levou-a à delegacia, onde ela confessou o furto.  Disse que morava no abrigo, mas que havia um mês saíra dali e ficara “passeando pelas ruas da cidade”. No sábado à noite, “havendo ingerido bastante bebida alcoólica, isso porque estava chovendo, acabou por penetrar para repousar no prédio. Desejava aproveitar um vão de escada, no segundo andar subtraiu uma colcha de seda cor de rosa com franjas”.41

Enquanto esperava a sentença, que saiu em maio de 1945, passou mais 20 dias na Colônia Juliano Moreira, onde deu entrada como indigente.42 O roubo lhe rendeu uma sentença de dois anos e meio de prisão. Ela começou a cumprir a pena em agosto de 1945 na recém-inaugurada Penitenciária de mulheres, em Bangu, hoje conhecida como Talavera Bruce.

Doente, precisando operar uma ruptura do períneo, iniciou-se uma cascata de correspondência entre instituições hospitalares, criminais e manicômios. Além da doença física, foi considerada demente. Inicialmente, tentaram interná-la no manicômio judiciário, onde não foi aceita por não haver ali uma seção de mulheres. Fez a cirurgia na Santa Casa, onde não a quiseram por muito tempo, pois estava com “perturbação mental”. Segundo o artigo 682 do código do processo penal de 1940: “O sentenciado a que sobrevier doença mental, verificada por perícia médica será internado em manicômio judiciário, ou, à falta em outro estabelecimento adequado, onde lhe seja assegurada a custódia.” O diretor da Penitenciária conseguiu encaminhá-la para o Hospital Pedro II, parte do complexo Centro Psiquiátrico Nacional recém-inaugurado no Engenho de Dentro.43 Ali Beatriz voltaria a estar na mesma instituição de Dra. Nilse da Silveira, que iniciava naquele ano, 1946, uma revolução no tratamento terapêutico da loucura. Imagino um encontro entre as duas alagoanas. Duas palavras amorosas que fossem. Mas Dra. Nilse era uma agulha no palheiro. Depois do período de observação, Beatriz foi internada novamente na Colônia Juliano Moreira, por um ano, onde se juntou a três mil e setecentos internos. Em abril de 1947, teve alta e deve ter voltado para a Penitenciária em Bangu.44

Durante o Governo Getúlio Vargas, a Colônia Juliano Moreira passara por uma série de reformas (VENANCIO, 2011, p. 36), o que não interrompeu a série de denúncias de inadequação e superlotação.  É o próprio diretor, o Dr. Sampaio Correia, quem explica a situação da colônia em 1946, no interregno dos governos de Getúlio Vargas e de Eurico Gaspar Dutra:

Construída para atender a 2800 psicopatas, abriga hoje com enormes dificuldades 3700.
– O número de técnicos, psiquiatras, enfermeiros, atendentes, guardas, insuficientes para a lotação normal de enfermos crônicos e tranquilos, tornou-se deficientíssimo para igual número de doentes agudos e quase inoperante para o acréscimo de 900 enfermos acima da lotação. É óbvio que quase nada pode fazer de útil um psiquiatra para 250 enfermos, um enfermeiro para 200 e um atendente ou guarda para 45. 45

Em 9 de setembro de 1948, Beatriz ganhou as ruas novamente. Com cinquenta e poucos anos, este foi seu último rastro encontrado.

**********

O que fazer com uma mulher tão audaciosa, alguém que não merece viver e no entanto vive? Sem governo, sem vergonha, sem juízo? Puta. Contraventora. Briguenta. Ladra de vestidos. Impelida ao crime e à loucura. Envelheceu, virou mendiga. Nunca cometeu grandes crimes. Usuária de drogas e alcoólatra, viveu a maior parte da sua vida errante pelas ruas e pelo menos um quinto dela, detida em instituições sabidamente aviltantes e sem nenhuma eficiência na reintegração do interno/preso à sociedade, ao contrário, instituições que o afastavam progressivamente de uma possibilidade de cidadania.

Não aceitou as profissões subalternas a que era destinada, preferiu ser prostituta. Exposta a todo tipo de risco, todo tipo de precariedade, todas as formas de violência resultantes da pobreza, da desonra feminina e das instituições disciplinares em que viveu. A sua resistência, ainda que violenta, não chegava aos pés da violência que sofrera desde o nascimento, desde os seus ancestrais pobres ou indígenas. A violência era uma questão de sobrevivência.

Como auscultar, traduzir e narrar sua trajetória e atitudes? Os herdeiros de seus algozes vão escutar? Se lhes escutarem, vão continuar a desprezá-la? É Beatriz suportável, mesmo para quem não a despreza? Conseguiremos engrossar o coro da luta contra o nosso Estado Penal, que aumentou exponencialmente ao longo dos últimos duzentos anos, sobretudo nas últimas décadas? Beatriz é uma vivente ou sobrevivente? Uma das respostas que obtive nesse solilóquio com seus despojos é o seu destemor renitente e sua resiliência.

Um jornalista que a entrevistou na Casa de Detenção, em 1935, descreveu o que viu em seus olhos:

Estávamos diante de uma mulher quarentona, tipo másculo e resoluto, mas simpática. Havia nos seus olhos – vestígios luminosos de uma beleza já bem maltratada pelos anos e pelas vicissitudes de uma vida de grandes emoções – qualquer coisa de vitorioso e provocante [grifo meu].46


Beatriz, em 1935, durante entrevista na Casa de Detenção do Rio de Janeiro. A Noite, 7 set. 1935.

Na alegoria de Walter Benjamin, “Todo aquele que, até hoje, obteve a vitória, marcha junto no cortejo de triunfo que conduz os dominantes de hoje [a marcharem] por cima dos que, hoje, jazem por terra (BENJAMIN apud LOWY, 2005, p. 70). Beatriz não apenas jaz sob as pesadas passadas dos vencedores. Quando viva nas ruas, ela jogaria tomates podres neste cortejo, sem medir consequências

As palavras humilde, humilhar, exumar, inumar, têm a mesma origem latina: humus (terra). Biografar os párias é exumar corpos em valas comuns: tirar de dentro da terra, retirar do esquecimento.

O historiador dos humilhados é um cachorro farejando vida em valas comuns. Os urubus chegaram antes e o cão-historiador tem de arrancar tripas e coração de dentro de seus bicos. Late contente e aflito: lambe o sangue, contamina-se, recolhe vísceras e ossos. Feita esta exumação, inicia-se a autópsia, ausculta-se um coração que não bate mais. Ele compõe um corpo de tela cubista no chão da história. Escreve um texto-lápide daquele ou daquela que procura inumar decentemente. Nesse movimento, sigo Michel de Certeau: A escrita (…) é um túmulo no duplo sentido de que, através do mesmo texto, ela honra e elimina” (CERTEAU, 1982, p. 108). A empatia constitui o método, e o biógrafo é afetado pela personagem. Um afeto por suas qualidades e defeitos é um dos condutores deste jogo de exumação e inumação:

Aquele que ela amava foi ferido, gravemente,
seus órgãos saíam-lhe do corpo. Ela os
recolocou com suas próprias mãos, levou-o
para o hospital. Ele morreu. Puseram-no na
vala comum. Ela o exumou, deu-lhe uma
sepultura. (AZEVEDO, 2009, p.129).

Ao recolher cacos de Beatriz, mais que reconstituí-la, intencionei constituí-la. Atender à pergunta de João Camilo Penna: “A cultura pode constituir sujeitos? Não apenas representar sujeitos, mas constituí-los?” (PENNA, 2013, p. 24).

Beatriz tinha nos olhos qualquer coisa de vitorioso e provocante, disse o jornalista que a visitou na cadeia.  É preciso olhar nos seus olhos, imaginá-la nua, imaginar todas as suas tatuagens e incontáveis marcas de balas, navalhas e facas, descritas por um médico como “cicatrizes de traumatismo generalizadas”. É preciso percorrer seus caminhos e descaminhos nos subterrâneos e margens da capital do Brasil, caminho reescrito no seu corpo, na sua trajetória de Alagoas à Capital Federal, nas ruas do Rio de Janeiro.

Mas o que é uma prostituta? Em novembro de 2015, enquanto eu seguia seus rastros, frequentei o curso/seminário “Uma revolução particular: O movimento brasileiro das Prostitutas”, promovido pelo Observatório da Prostituição.47 No debate da mesa sobre trabalho sexual e luta por direitos composta por prostitutas, perguntei-lhes: Como se escreve a história de uma prostituta? Elas me responderam: “do ponto de vista de uma puta.”48 No final do curso, uma delas que assistiu a tudo da plateia, procurou-me. Depois de me contar uma história cheia de intempéries, algumas semelhantes às de Beatriz, ela contou que certa altura fundou com outras colegas uma associação de prostitutas.

Essa conversa, a fala de outras prostitutas militantes e de diversos pesquisadores durante o curso/seminário, foram fundamentais para eu elaborar um olhar para Beatriz, sua profissão e outras questões de gênero. Eram ativistas, historiadores, antropólogos, sociólogos, políticos, prostitutas juntos pensando o passado, o presente e o futuro dessa “mais antiga profissão do mundo”. A pesquisa e engajamento atuais de um grupo de acadêmicos associado aos movimentos das prostitutas marcaram indelevelmente este texto.49

Reconhecida a dificuldade da aceitação social da prostituição, reconhecida a dificuldade de existir devido em grande parte ao recalque social, alguns temas foram repetidos por pesquisadores e prostitutas: “Quem sofre mais violência masculina, a puta ou a esposa?”; “Entre trabalhar no telemarketing, trabalho doméstico e prostituição, muitas vezes é preferível ser puta.”50 “Eu escolhi e gosto de ser puta.” E eu pergunto, ser puta também não significava, principalmente no passado, ter uma vida sexual melhor do que as mulheres de respeito? Não são elas as pioneiras de inúmeras revoluções sexuais?

Soraya Simões e Aparecida Moraes apresentam novas perspectivas num livro que contém trabalhos originados de apresentações em congressos de três grupos de trabalho sobre prostituição:

Pelo menos nos últimos dois séculos em grande parte o campo discursivo em que a prostituição figura encontra em seus autores, em suas respectivas disciplinas e em seus comentários, a restauração de uma verdade que interdita outras possibilidades interpretativas e descritivas desse amplo universo de práticas sociais e de relações econômicas, sexuais e afetivas. (…)
A ‘parte maldita’ das relações nesse mundo, segundo os agentes e agências historicamente franqueados a dela dizer, é justamente o que nela há de positivo, o que caracteriza a não propriedade, o desprendimento, a circulação, o lúdico, o transitório, o prazer momentâneo, a inovação, e precisamente, a constante provocação dos valores que resguardam o sexo e controlam as sexualidades (SIMÕES e MORAES, 2014, p. 9-10).

Desde a década de 1980, quando a ditadura começou a abrandar, associações de prostitutas têm sido criadas. Uma das prostitutas militantes pioneiras, Gabriela Leite, foi a representante da Vila Mimosa, zona do baixo meretrício carioca, num encontro de mulheres periféricas e faveladas, em 1982. Gabriela relata sua primeira fala política: “Meu nome é Gabriela, eu sou prostituta da Vila Mimosa. Aí foi um rebu. A prostituta falou. Parece incrível, mas o tabu perdurava mesmo ali, entre mulheres conscientes: prostituta não fala. Falei” (LEITE, 2009, p. 114). De lá pra cá muitas prostitutas têm falado.

Beatriz fez muito barulho. Foi registrada, identificada e narrada por jornalistas e autoridades policiais e judiciais. Como a maior parte de seus iguais, sabemos quase nada de sua versão de si. Como boa parte dos pobres, seus registros mais consistentes se encontram em arquivos judiciais, policiais, páginas policiais dos jornais, o que nos obriga a leituras mais do que rigorosas de tais discursos, um olhar arqueológico de seus rastros neles contidos.

Esta interpretação da trajetória de Beatriz traz à superfície, à flor da terra, à flor da pele sua atitude diante da vida, marcada pela afirmação individual: uma mulher que resistiu ao desprezo e à marginalidade, violenta e altiva até o limite. Não só contra o Estado, mas contra toda a sociedade.


Beatriz com cerca de 35 anos. A Noite, 27 nov. 1931.

Referências bibliográficas

Notícias em Periódicos

A BEATRIZ e a Nair: Cabeça quebrada e xadrez. O Paiz, 13 ago. 1922.
A TERRÍVEL MANIA da cocaína. O Jornal, 21.5.1926.
A VISITA do 4º delegado auxiliar à Colônia de Dois Rios. Correio da Manhã, 5 dez.1930.
AGREDIDO A NAVALHA por um marujo. Correio da Manhã, 16 jul. 1931.
AGRESSÃO A SOCO. 31 mar. 1922.
AS CENAS degradantes da “Zona do meretrício. Tomando a defesa de uma decaída, um soldado do Batalhão Naval promoveu pavoroso conflito. O Imparcial, 12 jun. 1920.
BEATRIZ É INFERNAL. Pela 201ª vez no xadrez por causa do vestido alheio. A Noite, 26 mar. 1941.
CENAS DO MORRO da favela. Uma queixa amarga contra aquele reduto de malandragem. As peripécias de uma mulher valente. A Noite, 30 mai. 1930.
CERRADO TIROTEIO. Um fuzileiro naval e um empregado no comercio feridos. O jornal, 13 Jun.1920.
FRANCAMENTE DO BARULHO… Recordwoman de entradas na Detenção e campeã, também, de tatuagens. A Noite, 7 set. 1935.
FUGA DE ALIENADOS. O que nos disse o diretor da Colônia Juliano Moreira. Correio da Manhã, 4 jan. 1946.
“HOMEM NUNCA me bateu”. Uma mulher perigosa. Feriu a faca o homem que a enganou – E já deu em lutas que teve cinquenta facadas. A Noite, 31/8/1935.
MAIS UMA VÍTIMA da cocaína: A infeliz mulher foi presa em Niterói. A Manhã, 21 mai. 1926.
MARIA SAPECA foi presa. Diário Carioca, 30 jul. 1930.
MARIETTA E BEATRIZ: Duas mulheres em luta. Gazeta de Notícias, 25 mar. 1925.
MULHER INCORRIGÍVEL. Saiu ontem da Detenção e hoje voltou para ali. A Noite, 27 nov. 1931.
MULHER TEMÍVEL: Completou ontem vinte e uma entradas no xadrez. Correio da Manhã, 31 jul. 1930.
NA PENSÃO Helena, brigam as “abelhas” e a polícia fecha a porta. Gazeta de Notícias, 25 out. 1919.
NO BAR Mere Louise um marinheiro ferido a faca. A Noite, 5 fev. 1930.
NO JUÍZO criminal. Correio da Manhã, 10 jan. 1930.
NO REDUTO do vício. Um fuzileiro naval agride a polícia e recebe três tiros. Correio da Manhã, 13 jun. 1920.
OS QUE APANHARAM. Foram oito as pessoas socorridas pela Assistência. A Noite, 4 ago. 1924.
POR TEU AMOR à minha liberdade. 20 mar. 1926.
PRESO QUANDO vendia cocaína. 10 jan. 1923.
QUANDO VENDIA cocaína. Jornal do Brasil, 21 mai.1921.
QUERIA UM ENXOVAL à custa alheia. Diário da Noite, 26 mar. 1941.
REPRESSÃO À VADIAGEM e à mendicância. 1 jun. 1922.
TRÊS ROUBOS. Gazeta de Notícias, 3 nov.1921.
UM MARUJO ferido pela amante. O paiz, 6 fev. 1930.
UMA CRIADA ladra. Correio da Manhã, 28 ago. 1929.
VALENTIAS DO CHICO Malandro. O Paiz, 31 mar.1922.

Manuscritos

Arquivo Nacional
1920. Autuação Beatriz Barbosa. 10ª Vara Criminal, cx. 291 n. 522.
1920. Contravenção. Beatriz Barbosa. 10ª vara criminal, cx. 291 n. 709.
1921. Flagrante. Beatriz Barbosa. Fundo CO. 10ª vara criminal, cx. 240 n 537.
1922. 19/6/1908
1922. Sumário. Beatriz Barbosa. Juízo da 3ª Pretoria Criminal. Freguesia de Santana, 6z 7139.
1922.Apelação crime. Beatriz Barbosa. Fundo CW 9ª Vara criminal, cx. 2291 n. 68.
1929. Autos de apreensão e de prisão em flagrante. Arquivo Nacional, 9ª vara criminal, cx. 2346 n. 497.
1931.  Processo Crime. 9ª Vara Criminal, cx. 2390 n. 551.
1946. Apelação criminal.  Beatriz Barbosa. 20ª vara criminal, cx. 838 n. 2765.
SAME/IMAS Juliano Moreira
Relatório clínico de Beatriz Barbosa, 1943-46.

Obras de referência

AZEVEDO, Carlito. Monodrama. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2009.
BLANCHETTE, T.; SILVA, A. P. e CAMARGO, G. Idealismo alemão e o corpo alienável: repensando a ‘objetificação’ no contexto do trabalho sexual. In: SIMÕES et alii (Org.). Prostituição e outras formas de amor. Niterói: Editora da UFF, 2014.
CAMINHA, Monica Cruz. Abrigo do Cristo Redentor: estado e assistência social no primeiro Governo Vargas (1936-1945). 2012. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro.
CAULFIELD, Sueann. O Nascimento do Mangue: nação e controle da prostituição no Rio de Janeiro, 1850-1942. Tempo, nº 9, 2000.
LEITE, Gabriela. Filha, mãe, avó e puta: a história de uma mulher que decidiu ser prostituta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
LOWY, Michel.  Walter Benjamin: aviso de incêndio: Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005 (tradução das teses de Benjamin, Jeanne Marie Gagnebin).
MELLO, Luiz Carlos. Nise da Silveira: Caminhos de uma psiquiatria rebelde. Rio de Janeiro: Automática, 2014.
OLIVEIRA, Penélope Jolie da Silva. “Uma mulher Pokemon”. Depoimento. Museu da Pessoa, 2014. Disponível em: http://www.museudapessoa.net/pt/conteudo/historia/uma-mulher-pokemon-93893/colecao/97477. Acesso em: 7 mar. 2015.
PENNA, João Camillo. Escritos da sobrevivência. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras, 2013.
SEPÚLVEDA, Myrian dos Santos. Os porões da República: A colônia correcional de Dois Rios entre 1908 e 1930. Topoi, v. 7, n. 13, jul.-dez. 2006, p. 445-476.
SIMÕES, Soraya S. e MORAES, Aparecida F. Prostituição e outras formas de amor: um começo de história. In: SIMÕES et alii (Org.). Prostituição e outras formas de amor. Niterói: Editora da UFF, 2014.
VENÂNCIO, Ana Teresa A. Da colônia agrícola ao hospital-colônia: configurações para a assistência psiquiátrica no Brasil na primeira metade do século XX. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 18, supl.1, p. 35-52, dez. 2011.

Notas:

1 Este artigo é um dos resultados da bolsa PNAP-R da Fundação Biblioteca Nacional, que obtive para desenvolver o projeto “A tatuagem no Brasil, uma história social”. Agradeço a Mario Sergio Conti e Patricia Cornils pela leitura atenciosa de outras versões deste texto.
2 Os títulos das notícias listados na bibliografia demonstram o tom folhetinesco das notícias policiais.
3 FRANCAMENTE DO BARULHO…, 1935.
4 CENAS DO MORRO…, 1930.
5 Serviço de Arquivo Médico e Estatístico SAME/IMAS Juliano Moreira. Relatório clínico de Beatriz Barbosa. 1943-7.
6 Para uma geografia das áreas de prostituição carioca na década de 1920, ver a série de artigos “A prostituição sob seus vários aspectos”, nos números de março e abril de 1921 de Archivo Vermelho Revista Criminal, Policial e Forense.
7 Ver a legislação da República no site da Câmara dos Deputados. http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/publicacoes/republica
8 NO REDUTO…, 1920.
9 Autuação: Beatriz Barbosa. Arquivo Nacional, 10ª vara criminal, cx. 291 n. 522, 1920.
10 No decreto que organizava o serviço policial no Distrito Federal, era de responsabilidade dos delegados, “ter sob sua vigilância as prostitutas escandalosas, providenciando contra elas, sem prejuízo do processo judicial competente, da forma que julgar mais conveniente ao bem-estar da população e a moralidade pública” (Dec. 6440/1908 art. 41, par. 17).
11 Vários testemunhos de processos de 1920 a 1923. Ver bibliografia.
12 AGRESSÃO A SOCO…, 1922.
13 FRANCAMENTE DO BARULHO…, 1935.
14 Processos de 1920 a 1923, Arquivo Nacional. Ver bibliografia.
15 REPRESSÃO À VADIAGEM…, 1922.
16 A BEATRIZ…, 1922.
17 PRESO QUANDO…, 1923.
18 OS QUE APANHARAM…, 1924.
19 MARIETTA E BEATRIZ…, 1925.
20 Folha de antecedentes. Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. Arquivo Nacional, Fundo 20ª vara criminal, cx. 838, n. 2765, 1946.
21 MAIS UMA VÍTIMA…, 1926.
22 POR AMOR…, 1926.
23 FRANCAMENTE DO BARULHO…, 1935.
24 Folha de antecedentes. 1946. Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. Arquivo Nacional, Fundo 20ª vara criminal, cx. 838, n. 2765.
25 1929. Autos de apreensão e de prisão em flagrante. Arquivo Nacional, 9ª vara criminal, cx. 23 46 n. 497.
26 O MARUJO…, 1930.
27 HOMEM NUNCA…, 1935.
28 A VISITA, 1930.
29 Processo Crime, réu Beatriz Barbosa. 9ª Vara Criminal, Arquivo Nacional, cx. 2390 n. 551, 1931.
30 AGREDIDO A NAVALHA…, 1931.
31 MARIA SAPECA…, 1931.
32 UMA LADRA…, 1929.
33 MULHER INCORRIGÍVEL…, 1931.
34 Folha de antecedentes. Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. Arquivo Nacional, Fundo 20ª vara criminal, cx. 838 n. 2765, 1946.
35 Idem.
36 HOMEM NUNCA ME BATEU…, 1935.
37 FRANCAMENTE DO BARULHO…, 1935.
38 Folha de antecedentes. Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. Arquivo Nacional, Fundo 20ª vara criminal, cx. 838 n. 2765, 1946.
39 BEATRIZ É INFERNAL…, 1941.
40 SAME/IMAS Juliano Moreira. Relatório clínico Beatriz Barbosa, 1943/46.
41 Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. Arquivo Nacional, Fundo 20ª vara criminal, cx. 838 n. 2765, 1946.
42 SAME/IMAS Juliano Moreira. Relatório clínico Beatriz Barbosa.
43 Apelação criminal. Apelante Beatriz Barbosa, presa. Arquivo Nacional, Fundo 20ª vara criminal, cx. 838 n. 2765, 1946.
44 SAME/IMAS Juliano Moreira. Relatório clínico Beatriz Barbosa.
45 A FUGA DOS ALIENADOS…, 1946.
46 FRANCAMENTE DO BARULHO…, 1935.
47 “O Observatório da Prostituição é um projeto de extensão do Laboratório de Etnografia Metropolitana LeMetro/IFCS-UFRJ que tem como objetivo fazer circular sentidos variados da prostituição e promover o pleno reconhecimento dos direitos das prostitutas à cidade e ao trabalho sexual. http://www.observatoriodaprostituicao.ifcs.ufrj.br/quem-somos/ Acesso em: 2 dez. 2015.
48 A mesa era intitulada “Trabalho sexual e os desafios contemporâneos: o movimento brasileiro das prostitutas”.
49 Este texto é também atravessado pelas noções de “vida nua” de Giorgio Agamben e de biopolítica e instituições disciplinares de Michel Foucault. A aproximação dos testemunhos das prostitutas, bem como dos grupos interdisciplinares sobre prostituição, atropelou positivamente este padrão de diálogo teórico. O fazer deste texto também foi arrebatado pela radicalidade da trajetória de Beatriz, que coloca uma série de questões que esta análise está longe de encerrar. Nesse sentido, optei deliberadamente por um texto mais próximo de uma narrativa literária.
50 Sobre este tema, ver o artigo de BLANCHETTE et alii, 2014.

Recebido em: 3/12/2015
Aprovado para publicação em: 29/12/2015