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VOL.6 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2015

O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO,
SUA ARTICULAÇÃO COM A LINGUAGEM E A LITERATURA

MAL-BEING CIVILIZATION ITS ARTICULATION WITH THE LANGUAGE AND LITERATURE

Andréa Hortélio Fernandes*
* Psicanalista. Doutora em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise (Paris 7). Professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Pesquisadora de Produtividade do CNPq. Membro do GT: Psicanálise, Política e a Clínica da ANPEPP. E-mail: ahfernandes03@gmail.com

Resumo: O artigo trata do mal-estar na civilização, articulando-o à constituição psíquica do ser humano e suas identificações. Parte dos textos ditos sociológicos de Freud, em especial, “O Mal-Estar na Civilização” (1930) e “Por que a guerra?” (1933) para, em seguida, apontar a teoria da libido e pulsional como inerente à tensão conflitiva própria ao sintoma. Desenvolve que o interesse pela gênese do eu conduziu Lacan a propor o eu como uma estrutura paranoica, revertendo a ideia de tensão social para uma tensão entre o eu e os arautos do Outro representados pelos semelhantes, adversários e modelos. Trabalha a personalidade paranoica no caso Aimée com o intuito de remontar as elaborações de Lacan acerca de uma teoria da constituição do sujeito por identificação. E, assim, propõe que o mal-estar na civilização está atrelado à estrutura de linguagem inerente ao homem, e a sua expressão na literatura, nas brincadeiras e desenhos infantis revela o pulsar do inconsciente estruturado como uma linguagem e atemporal.

Palavras-chave: mal-estar; sintoma, identificação, literatura, linguagem.

Abstract: The article deals with the malaise in civilization linking it to the psyches of human beings and their IDs. Part of the so-called sociological texts of Freud, especially, “The Malaise in Civilisation” (1930) and “Why war?” (1933) to then contribute the theory of libido and instinctual inherent in the very conflictive tension the symptom. It develops that interest in the genesis of self, led Lacan to propose me as a paranoid structure, reverting to the idea of ​​social tension to a tension between self and other, similar, adversary model. Works paranoid personality in the case Aimée in order to reassemble the elaborations of Lacan about a theory of the constitution of the subject identification. And thus proposes that the malaise in civilization is related to language structure inherent to the human being and its expression in literature, in children’s play and drawings reveal the pulse of the unconscious structured like a language and timeless.

Keywords: malaise; symptom identification, literature, language.

O mal-estar na civilização aponta para questões importantes sobre a constituição psíquica do ser humano e suas identificações. Estas questões serão abordadas, neste texto, através de uma tentativa de entrelaçar o mal-estar na civilização à estrutura de linguagem inerente ao ser humano e à sua expressão na literatura, nas brincadeiras e desenhos infantis, para propor que o mal-estar é inerente ao pulsar do inconsciente estruturado como uma linguagem e atemporal.

O tema do mal-estar está presente em diversos artigos de Freud, em especial, naqueles denominados por alguns autores como artigos sociológicos, mas que mantêm sempre uma vertente clínica. Entre eles, cabe destacar: “Reflexões sobre o tempo de guerra e morte” (1915), escrito logo após o início da Primeira Guerra Mundial; “O Futuro de uma Ilusão” (1927), “O Mal-Estar na Civilização” (1930) e “Por que a guerra?” (1933).

Sobre este último, em 1931, o Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual tomou a iniciativa de publicar cartas entre intelectuais de renome, através do Comitê Permanente para a Literatura e as Artes, das Ligas das Nações, sobre assuntos de interesses comuns tanto à Liga das Nações quanto à vida. Entre os primeiros que o Instituto abordou estava Einstein, e foi ele quem sugeriu o nome de Freud para ser seu interlocutor epistolar. Assim sendo, em junho de 1932, o secretário do Instituto escreve a Freud, fazendo o convite e ele aceita de imediato.

Einstein, na sua carta, pergunta à Freud: “Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça da guerra?” (EINSTEIN, 1933/1974, p. 241). A demanda então dirigida a Freud é de que propicie a elucidação do problema mediante o seu profundo conhecimento acerca da vida pulsional do homem.

Para Einstein, Freud e a psicanálise poderiam fornecer uma profilaxia contra a guerra através da educação:

Existem determinados obstáculos psicológicos cuja existência um leigo em ciências mentais pode obscuramente entrever, cujas inter-relações e filigranas ele, contudo, é incompetente para compreender; estou convencido de que o senhor será capaz de sugerir métodos educacionais situados mais ou menos fora dos objetivos da política, os quais eliminarão esses obstáculos (Vol. XXII – Por que a guerra? [EINSTEIN E FREUD], 1933, p. 241-242).

Einstein questiona quais os mecanismos que conseguem despertar nos homens um entusiasmo extremado, a ponto de estes sacrificarem suas vidas. Cita como exemplo os soldados, de todas as graduações, ao escolherem a guerra como profissão e aqui é importante destacar o papel do mecanismo de identificação ao líder dentro do regime militar.

A resposta de Einstein revela que aquele que formula uma pergunta está em vias de construir sua resposta. Ao fazer o exame das forças pulsionais, Einstein declara:

O homem encerra dentro de si um desejo de ódio e de destruição [...]. Talvez aí esteja o ponto crucial de todo o complexo de fatores que estamos considerando, um enigma que só um especialista na ciência dos instintos humanos pode resolver (idem).

Einstein apresenta mais uma questão cuja temática ainda é bastante atual. A indagação diz respeito à permanência do espírito de guerra e da dificuldade em suportar a alteridade vislumbrada seja na manutenção das guerras civis ou atreladas à intolerância religiosa, como, também, relacionadas a fatores sociais, tendo como expressão maior as perseguições a minorias raciais. A pergunta de Einstein é feita da seguinte forma: “É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova do ódio e da destrutividade?” (idem, p. 243).

Na carta em que responde a Einstein, Freud diz que o cientista se antecipou a ele ao tratar do tema da guerra e do mal-estar na civilização.  Em 1932, Freud havia dito que os poetas se anteciparam à psicanálise ao tratar do tema da feminilidade. Abordar o mal-estar na civilização convoca mais uma vez a interlocução entre a literatura e a linguagem; esta, objeto de trabalho também dos cientistas ao se ocuparem de problemas da humanidade.

A resposta de Freud à questão acima referida aborda a horda primeva como forma de explicitar o mecanismo da identificação. Freud relata que no assassinato do grande líder de um grupo totêmico, ao ser transferida a violência suplantada a um líder, os membros se mantêm unidos por “laços emocionais”, ou seja, pela identificação ao líder. Para Freud, a guerra seria a ampliação e a repetição desse fato. Porém, o equilíbrio deste sistema só pode ser pensado teoricamente. A transferência da violência ao líder não a exclui, ela é redirecionada conforme os preceitos propostos pelo líder político, militar etc.

Para Freud, a situação é complicada desde os primórdios da humanidade. Isto porque a comunidade sempre esteve composta por “elementos desiguais – homens, mulheres e filhos, também passa a incluir vencedores e vencidos, que se transformam em senhores e escravos” (idem, p. 248). Um questionamento pode ser extraído deste enunciado – como os elementos desiguais podem viver em paz?

Alguns anos mais tarde, Lacan, com a teoria dos quatros discursos, propõe um novo tratamento para este problema. Além dos quatro discursos: do mestre, da histérica, do universitário, do analista, propõe um quinto discurso, o do capitalista, o qual aponta para a condição de todos proletariados. Esta condição revela que a angústia moderna pode ser definida como “a angústia do proletariado generalizado” (SOLER, 2000-2001, p. 97).

Todos estão expostos a essa angústia que mantém todos num “circuito fechado entre os sujeitos e seus objetos” (idem). A sociedade passa a se fundamentar na relação dos sujeitos com os objetos e mais difícil ainda se torna a relação entre os elementos desiguais, ou melhor, o respeito às singularidades. Assistimos à compulsão de formação de ídolos e heróis suportados pela mídia e pelos poderes da comunicação de massa que promovem a identificação simbólica e imaginária com marcas, porém não tratam da identificação real que fica à deriva e só pode ser elaborada um a um.

Vivemos num mundo do espetáculo onde os grupos religiosos fundamentalistas islâmicos, assim como jovens de corpos bem moldados, impõem discursos agressivos e de intensa rivalidade que atingem justamente outros jovens que estão em busca de um regulador do desejo que possa impulsionar a libido a fazer laços.

Ao fazer o exame da civilização, Freud diz que “uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre seus membros” (op. cit., p. 250-251).

Para Freud, Einstein já havia demonstrado que “não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra” (idem, p. 255). Aqui, Freud faz alusão ao tema da sublimação. Através da sublimação, torna-se possível um deslocamento da libido objetal por meio de uma deflação da pulsão que é desviada e afastada da sua finalidade sexual, no caso em questão, seria a dominação da pulsão destrutiva para uma finalidade diferente da guerra.

Tal atitude parece ter sido tomada por cientistas, pacifistas e poetas. Ferreira Gullar se refere a isso ao falar do espanto que faz nascer o poema. Gullar nos questiona: “enfim, o que é o espanto que faz nascer o poema? É a súbita constatação de que o mundo não está explicado e, por isso, a cada momento, põe-nos diante de seu incrível mistério. Tentar expressá-lo é a pretensão do poeta” (GULLAR, 2015, p. 16).

Mal-estar na civilização e a expressão na arte

Dentro do tema da guerra e da identificação, algumas obras e o encarte do artista Vik Muniz, recentemente expostos em Vitória do Espírito Santo, convocam-nos a refletir sobre a realidade e sua expressão:

a realidade é um arquivo impossível de experiência ubíquas e simultâneas que existem além da atenção e cognição, num caos pré-linguístico. É algo que só pode ser abordado de forma indéxica ou simbólica. Acredito que o objetivo primitivo de toda imagem é justamente essa negociação entre o conhecimento acumulado pela experiência cognitiva e o intangível e ininteligível enredado do real (Exposição VIk Muniz, Vitória – ES, Museu da Vale, 2015/2016, Ministério da Cultura e Vale).

Entre os quadros da exposição de Vik Muniz está o Soldado de Brinquedo (2003), uma fotografia de um soldado feito por soldadinhos e rodas de carroças de brinquedos de plástico. Esta obra pode nos remeter à observação feita por Freud (1909, p. 140) no Caso Hans (1905), de que não conseguia se convencer da “existência de uma pulsão agressiva especial, ao lado de pulsões familiares de autopreservação e sexo, e em pé de igualdade entre elas”. Nessa época, Freud ainda estava em vias de conceitualizar a existência da sexualidade e da agressividade nas crianças, até então vistas como seres puros. Tal ponto é retomado no texto sobre o narcisismo (1914), no qual Freud dirá que, como os impulsos agressivos e de ódio existem, ainda há dificuldade em conceber uma pulsão agressiva independente.

A obra de Vik Muniz, feita com brinquedos infantis, pode ser tomada como um convite a pensar que desde a mais tenra infância a pulsão de vida coexiste paralelamente com a pulsão de morte. As brincadeiras infantis demonstram isso. A tensão intersubjetiva é correlativa à tensão expressa na realidade. E de fato, na sua constituição psíquica o filhote do homem só tem acesso a sua imagem pela alienação à imagem do outro, seu semelhante. Isso faz com que a assunção da própria imagem do sujeito necessite de uma ancoragem simbólica, dada pela anterioridade do Outro da linguagem, que é perpassada pela prematuridade do infans que está na linguagem por ser falado pelos outros, mas ainda não falar.

Freud enfatiza isso ao recorrer ao mito de Narciso para falar da libido do eu e do objeto. Lacan trata disso ao destacar como a aquisição da imagem da criança acontece no que denominou como o Estádio do Espelho, assim descrito por ele: “basta compreender o estádio do espelho como uma identificação no sentido pleno que a análise dá a esse termo: a saber, a transformação produzida no sujeito, quando ele assume uma imagem” (LACAN, 1949/1998, p. 97). O estádio do espelho revela um dinamismo libidinal que mostra ser a “estrutura ontológica do mundo humano” permeada pelas reflexões decorrentes do conhecimento paranoico.

O conhecimento paranoico será bastante trabalhado por Freud e por Lacan. O primeiro o faz no texto sobre o narcisismo (1914) e no texto sobre o caso Schreber (1911). Já o segundo vai tratar o conhecimento paranoico postulando que ele nada mais é que uma projeção da consciência, e nesse sentido, leva a um desconhecimento por meio de uma projeção de um ideal ao qual o sujeito se acha retido por uma identificação, tal qual o que se passa com Narciso e no Estádio do Espelho (1949).

Sobre isso, Quinet (2006, p. 110) conclui que: “O eu é como Narciso: vem sempre acompanhado de sua imagem especular, e assim nunca está só, ele vive em dupla: o eu e o eu-ideal (a-a’), seu igual e rival em que se espelha e se mira e se compara.”

Uma ilustração sobre este tema é perceptível nos momentos em que o sujeito se nega a si mesmo e atribui ao outro tal fato. Isto nada mais é que a reatualização da gênese mental do humano, descrita por Freud ao tomar o mito de Narciso para tratar do narcisismo.

Mais uma vez, o recurso a uma obra de de Vik Muniz, neste caso, Narcissus after Caravaggio (2006) é útil por retratar que no início a identificação à imagem é forjada. A imagem é carregada por um engodo. A imagem com a qual o sujeito se identifica tenta camuflar o real em causa, e o enamoramento de Narciso pela sua própria imagem revela isto. Ao mesmo tempo, a imagem aponta para um ideal que faz com que o sujeito se mire e se compare através da imagem que vê. Na obra, tal imagem é construída com objetos de sucata que dão forma à imagem que reproduz Narcissus de Caravaggio. Os objetos de sucata ficam como fundo da figura que se destaca como gestalt, que é a imagem de Narciso se olhando no lago.

Segundo nota do editor no texto “Mal-estar na civilização”, Freud demora a admitir a pulsão destrutiva como independente. A sua relutância em aceitar uma pulsão agressiva independente “da libido foi auxiliada pela hipótese do narcisismo” (FREUD, 1930/1974, p. 78-79). O narcisismo revelava que os impulsos de agressividade e de ódio, desde o início, pertenceriam à pulsão de autopreservação e, estando incluídas na libido, não se exigiam qualquer conceitualização de pulsão agressiva independente.

Somente ao formular a pulsão de morte, a pulsão agressiva independente vem a surgir em “Mais além do Princípio do prazer” (1920). Nesse texto, Freud remonta o artigo denominado “Projeto para uma psicologia científica” (1895, p. 84) e diz que uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu eu do mundo externo como fonte de sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos”.

A apreensão do mundo externo, da alteridade, dar-se pela distinção eu-outro. Cabe aqui trazer a definição de eu no texto “Eu e o Isso” (1923, p. 40). Sobre essa distinção, Freud declara: “o eu é, primeiro e acima de tudo, um eu corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície.”

A apreensão do eu é descrita da seguinte forma por Freud em “Mal-estar na civilização” (1930). A criança ficará impressionada com certas fontes de excitação que ela identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais. Essas fontes podem prover a criança de sensações a qualquer momento e aí se configura o autoerotismo. Ao passo que de tempos em tempos outras fontes fogem à criança, só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro, que são interpretados por alguém capaz de dar sentido a isso como um apelo, o Outro em Lacan. A partir daí, a suposição do sujeito da linguagem está posta. O apelo formata o campo à demanda.

É desse modo que “pela primeira vez, o eu é contrastado por um ‘objeto’, sob a forma de algo que existe ‘exteriormente’ (FREUD, 1923/1974, p. 84). Isto acontece graças a uma ação específica. Freud descreve a “ação específica” articulando-a à função secundária de comunicação no “Projeto” (FREUD, 1895/1974, p. 422):

O Narcissus de Vik Muniz mostra que no início a identificação à imagem é forjada. A imagem é carregada por um engodo. A imagem com a qual o sujeito se identifica tenta camuflar o real em causa e o enamoramento de Narciso pela sua própria imagem revela isto. Ao mesmo tempo, a imagem aponta para um ideal que faz com que o sujeito se mire e se compare através da imagem que vê. Na obra, tal imagem é construída com objetos de sucata que dão forma à imagem que reproduz Narcissus, de Caravaggio. Os objetos de sucata ficam como fundo da figura que se destaca como gestalt, que é a imagem de Narciso se olhando no lago.

Segundo nota do editor no texto “Mal-estar na civilização’, Freud demora a admitir a pulsão destrutiva como independente. A sua relutância em aceitar uma pulsão agressiva independente “da libido foi auxiliada pela hipótese do narcisismo” (FREUD, 1930/1974, p. 78-79). O narcisismo revelava que os impulsos de agressividade e de ódio, desde o início, pertenceriam à pulsão de autopreservação e, estando incluídas na libido, não se exigiam qualquer conceitualização de pulsão agressiva independente.

Somente ao formular a pulsão de morte, a pulsão agressiva independente vem a surgir em “Mais além do Princípio do prazer” (1920). Nesse texto, Freud remonta o artigo denominado “Projeto para uma psicologia científica” (1895, p. 84) e diz que “uma criança recém-nascida ainda não distingue o seu eu do mundo externo como fonte de sensações que fluem sobre ela. Aprende gradativamente a fazê-lo, reagindo a diversos estímulos”.

A apreensão do mundo externo, da alteridade, dar-se pela distinção eu-outro. Cabe aqui trazer a definição de eu no texto “Eu e o Isso” (1923, p. 40). Sobre essa distinção, Freud declara: “o eu é, primeiro e acima de tudo, um eu corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície.”

A apreensão do eu é descrita da seguinte forma por Freud em “Mal-estar na civilização” (1930). A criança ficará impressionada com certas fontes de excitação que ela identificará como sendo os seus próprios órgãos corporais. Essas fontes podem prover a criança de sensações a qualquer momento e aí se configura o autoerotismo. Ao passo que de tempos em tempos outras fontes fogem à criança, só reaparecendo como resultado de seus gritos de socorro, que são interpretados por alguém capaz de dar sentido a isso como um apelo, o Outro em Lacan. A partir daí, a suposição do sujeito da linguagem está posta. O apelo formata o campo à demanda.

É desse modo que “pela primeira vez, o eu é contrastado por um ‘objeto’, sob a forma de algo que existe ‘exteriormente’ (FREUD, 1923/1974, p. 84). Isto acontece graças a uma ação específica. Freud descreve a “ação específica” articulando-a à função secundária de comunicação no “Projeto” (FREUD, 1895/1974, p. 422):

O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação específica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga através da via de alteração interna. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais.

Daí surge uma tendência a isolar do eu tudo que pode ser fonte de desprazer e a lançá-lo para fora e criar um puro eu e a busca do prazer, que sofre o confronto de um ‘exterior’ estranho e ameaçador. Assim, as fronteiras desse primitivo eu não podem fugir a uma retificação pela experiência própria ao princípio da realidade do funcionamento psíquico.

Freud (1895/1974, p. 85) conclui então que “alguma das coisas difíceis de serem abandonadas, por proporcionarem prazer [...] são o objeto, e certos sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do eu, por causa da sua origem interna”.

Essa “origem interna” deixa traços mnêmicos que vão ser evocados quando da retificação na realidade da presença ou não do objeto de satisfação, abrindo caminho para a linguagem, o desejo e o gozo, este último entendido como já se esboçando nas formulações feitas por Freud de que os sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do eu.

Paralelamente, a libido se engendra a partir da inscrição da perda na experiência de satisfação da qual restam traços mnêmicos. Logo, toda a atividade pulsional, como o desejo e a libido, supõe o paradoxo do objeto perdido. Portanto, a linguagem surge como via de descarga da perda do objeto. É por isso que Lacan formula que a libido é um órgão formado pela linguagem (LACAN, 1969/1985).

Freud investiga como se funda a civilização e centraliza suas hipóteses no tema da identificação ao pai da horda primeva. Ele retomará tal perspectiva ao tratar da identificação ao líder que une as massas nos seus textos ditos sociológicos.

Se para Freud “Totem e tabu” (1913) é um mito, Lacan definirá o mito como uma leitura épica que tenta dar conta do real da estrutura. O real da estrutura se suporta no desamparo do filhote do homem ao nascer, cujo corpo é marcado pelo gozo não todo do corpo, próprio à relação entre o infans e o Outro, dado que só é possível gozar de parte do corpo do outro.

O estatuto do gozo é delimitado pela premissa proposta por Lacan do “Há do Um”, que “designa as conseqüências do inconsciente alíngua”, nos diz Soler (1914-1915, p. 18).

Sobre alíngua e o corpo, um exemplo poderá ser esclarecedor. Um avô costumava brincar com um neto de 1 ano e 4 meses cutucando a barriga do neto e enunciando paralelamente: “Piu”. O neto, em plena aquisição da linguagem, passou a nomear o avô de Vovô Pipiu. Esse exemplo ilustra o inconsciente alíngua, onde aquilo que vem do Outro marca o corpo da criança, que se utiliza da linguagem na tentativa de fazer laço.

Com Lacan se constata que o real do corpo vivente não faz laço dado que a relação sexual não existe. Assim, para a criança do exemplo o fonema Piu se deslocou para uma nomeação do avô, mas isso é um sentido singular, não-todo, dado por essa criança. Da mesma forma, o real do corpo vivo se goza por estar marcado pelos uns de alíngua, tal qual se constitui o gozo opaco do sintoma (cf. idem, p. 19).

As letras de alíngua que marcaram nossa infância são contadas pelos arautos do Outro, os pequenos outros na álgebra lacaniana, nossos semelhantes, nossos próximos. Não conseguimos guardá-las na memória. Elas são o esteio do que o sujeito corporifica num sintoma e isso tem relação com a estrutura paranoica da personalidade, que guarda em si uma tensão conflitiva. Isto será discutido mais à frente com as letras que designam a primeira perseguidora no caso Aimée (LACAN, 1987). Contudo, inicialmente, ele se dedica a isso no texto “A agressividade em psicanálise” (1948/1998, p. 116).

Há nisso uma espécie de ‘encruzilhada’ estrutural onde devemos acomodar nosso pensamento, para compreender a natureza da agressividade no homem e sua relação com o formalismo de seu eu e de seus objetos. Esta relação erótica, em que o indivíduo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo…
Essa forma se cristalizará, com efeito, na tensão conflitiva interna ao sujeito, que determina o despertar de seu desejo pelo objeto do desejo do outro: aqui, o concurso primordial se precipita numa concorrência agressiva, e é dela que nasce a tríade do outro, do eu e do objeto, que, fendendo o espaço da comunhão especular, inscrevendo-se nela segundo um formalismo que lhe é próprio.

Sobre a “tensão conflitiva”, Freud trata disso na conferência “Os caminhos da formação dos sintomas” (1917/1974, p. 419-420):

os sintomas neuróticos são resultado de um conflito, e que este surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido. As duas forças que entraram em luta encontram-se novamente e se reconciliam, por assim dizer, através do acordo representado pelo sintoma formado. É por essa razão, também, que o sintoma é tão resistente: é apoiado por ambas as partes em luta.

Freud destaca deste então que “um dos componentes do conflito é a libido insatisfeita, que foi repelida pela realidade e agora deve procurar outras vias para satisfazer-se” (idem).

Uma das vias é o brincar infantil. E com Freud (1908/1974, p. 150), é possível declarar que a linguagem preservou a “relação entre o brincar infantil e a criação poética”.

O mal-estar em sua relação com o brincar e as fantasias infantis

Freud, ao analisar as semelhanças entre o brincar infantil e os escritores criativos, termina por declarar que ambos remontam a uma experiência anterior (geralmente da infância). Dela se origina o desejo que encontra realização na obra. O artista pode reconhecer que “a própria obra revela elementos da ocasião motivadora do presente e da lembrança antiga” (idem, p. 156).

O brincar, o desenho e as fabulações da criança podem suavizar o gozo do sintoma apontando para uma modalização do gozo. De forma similar, o escritor “suaviza o caráter egoísta de seus devaneios por meio de alterações e disfarces e nos suborna com o prazer puramente formal, isto é, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias” (idem, p. 158). Um recorte clínico reporta isso.

Durante a análise, a criança demonstrou predileção por jogos de palavras e de vídeos. Nos jogos de vídeos se interessava por monstros que guerreavam e um deles “podia prender até adulto” (sic).

No nível da fala, a palavra “monstro” era enunciada pela criança de forma homofônica com a palavra “mostro”. Por meio dos monstros e da caça aos monstros, essa criança foi construindo uma separação das identificações alienantes com o lugar que ocupava no desejo do Outro.

As dificuldades escolares convocaram que, na presença dos pais, essa criança pudesse falar como era difícil aprender. Um trabalho de separação precisava se efetuar do lugar de “bobo” no qual era colocado pelos pais e no qual a criança se fixará. Tal situação era exemplificada pelo relato do que se passava ao realizar as tarefas com os pais. A mãe insistia que ele não sabia escrever e ela soletrava todas as palavras. Com o pai havia gritos e o que a criança havia escrito era apagado.

Num dos desenhos inspirado pelos jogos de vídeo, a criança põe a figura de um homem que matou cinco a seis crianças, uma delas o próprio filho. A historização em análise, ou seja, a narrativa da criança em análise pôde trazer como a criança lidava com a fixação de gozo de nada saber, ou seja, de ser bobo. As fabulações trazidas para a análise narravam um cenário de violência física que metaforizava uma violência imaginária e simbólica, através do significante “bobo”. Nas histórias contatadas em análise, o pai atingirá o filho com uma faca na cabeça. A criança fica em coma e morre no hospital.

Depois de fazer o desenho e falar sobre ele, a criança pôde expressar, por meio do outro desenho, como se sentia em não avançar nos estudos. Ela desenha dois T – T, separados por um traço. A interpretação dada pela criança do desenho é que os traços horizontais são os olhos fechados e os traços verticais as lágrimas escorrendo. Essa foi a forma poética dessa criança falar do seu desassossego. Uma aposta na queda das identificações, que faziam com que a dificuldade nos estudos fosse um traço identificatório na família – pois outros apresentavam a mesma dificuldade –, foi feita pela analista ao apostar na continuidade do trabalho analítico.

A criança começou a perguntar aos pais por que vinha a análise. Pergunta que foi endereçada à analista e trabalhada nas sessões através dos jogos nos quais são dados motivos para perder ou ganhar durante as partidas. É dessa forma que um modo de fixação libidinal a um gozo opaco foi trabalhado na análise.

As cartas trocadas entre Freud e Eisntein apresentadas no início do texto convoca que seja reafirmado que a psicanálise não apresenta uma profilaxia através da educação contra a violência e a guerra. O tratamento pela fala implica uma retificação dos traços identificatórios do sujeito em análise e na clínica com crianças envolve diretamente os pais.

O mal-estar e a constituição psíquica por identificação

A retificação dos traços identificatórios em análise é natural do processo de historização, entendido como o sujeito em análise se ressituar nos seus laços sociais. Lacan (1977) vai tratar da historização no texto “Prefácio da edição inglesa do Seminário 11”. Ocasião em que o caso Aimée, trabalhado por ele na sua tese de medicina, será retomado.

Lacan (1946, p. 70) evoca a literatura, em especial a poesia, ao tratar da sua entrada na psicanálise por intermedio do caso Aimée. Lacan nomeia a paciente de Aimée em função da personagem principal do primeiro romance escrito por ela se denominar Aimée. Passados dozes anos da tese de doutorado, ele destaca nesse caso efeitos literários cujo mérito foram recolhidos sobre a rubrica da poesia involuntária pelo escritor Paul Eluard. Na tese, “o invólucro formal do sintoma” será o traço clínico pelo qual Lacan (1946, p. 70) vai se interessar, por ele permitir reverter o sintoma “em efeitos de criação”.

O tratamento dado ao sintoma pela psicanálise demanda abrir o invólucro formal do sintoma para dele extrair os efeitos literários. O invólucro formal do sintoma deve ser tomado como sendo o trabalho da demanda que traz o sujeito à análise. Caberá ao analista abrir o invólucro formal do sintoma, ou seja, “abrir a resposta a qual o sintoma dá consistência para saber qual era a questão do sujeito, qual era a questão a qual se pretendia responder”, tendo o sintoma como artifício, afirma Fingerman (2005, p. 65).

No caso Aimée, Lacan trabalha em cima da fala dela. Foi a utilização da criminologia berlinense de Alexander e Staub que conduziu Lacan até Freud. No acompanhamento clínico de Aimée há um processo de historisterização em curso, ou seja, Lacan oferece uma escuta analítica que possibilita a histerização do discurso de Aimée. Desse modo, Lacan (1987), na sua tese, vai analisar como a interpretação delirante com conteúdo de perseguição e de grandeza de Aimée cede vinte dias após ela agredir a atriz Huguette ex-Duflos ou Sra Z. Logo, ele segue a historização de Aimée durante o período de um ano e meio em que a acompanha em atendimento clínico no Hospital Sainte-Anne.

É importante destacar que no Discurso da Histérica é o $ que está no lugar de agente. Esse discurso possibilita que o sujeito se dirija ao outro e daí uma produção de saber acerca do inconsciente se desvela. Um saber não sabido que o sujeito vai se dando conta com o caminhar da análise.

Aimée era dada à produção de interpretações delirante e vai historizar para Lacan o surgimento da série de suas perseguidoras. A publicação da tese de medicina de Lacan traz recortes do caso. Aimée trabalhava como funcionária no setor de administração de uma companhia ferroviária, desde os 18 anos até a véspera do atentado contra a atriz.

Nessa ocasião, está casada há quatro anos, trabalha no mesmo escritório de seu marido e estava grávida. Então, as conversas das colegas de trabalho parecem visá-la, uma série de fenômenos de autorreferência e de interpretações delirantes começam a se manifestar em Aimée, na ocasião ela está com 28 anos, segundo Lacan (1987, p. 155).

As conversas de seus colegas parecem, então, visá-la: eles criticam suas ações de maneira desagradável, caluniam sua conduta e lhe predizem infortúnios. Na rua, os transeuntes sussurram a seu respeito e lhe predizem desprezo. Reconhece nos jornais alusões dirigidas a ela.

As acusações se tornam precisas e claramente delirantes e Aimée repetia, com bastante frequência, para si mesma a seguinte pergunta: “Por que fazem isso comigo? Eles querem a morte de meu filho. Se essa criança não viver, eles serão os responsáveis” (LACAN, 1987, p. 155-156).

Aimée dá à luz uma menina que nasce morta devido à asfixia do cordão umbilical. Contudo, ela atribui o fato a seus inimigos. É sobre a pessoa de sua melhor amiga e colega de trabalho, durante três anos, C. de la N., que recairá a responsabilidade pelo infortúnio de Aimée. Essa amiga era que lhe dava notícias sobre as atrizes, entre elas, de Huguette ex-Duflos. A amiga, que se mudou para outra cidade, liga depois do parto para ter notícias. Aimée estranha tal contato e “a cristalização hostil parece datar de então” (LACAN, 1987, p. 156).

Os hábitos religiosos de Aimée são interrompidos nessa época. No mesmo ano, ela fica grávida pela segunda vez, isso acontece em meio a um estado depressivo e de interpretações análogas às já descritas. Em julho do ano seguinte, o bebê de sexo masculino nasce e ninguém poderá cuidar da criança até os cinco meses. “Todos ameaçam seu filho. Ela provoca um incidente com motoristas que teriam passado perto demais do carrinho do bebê. Causa escândalos com os vizinhos. Ela quer levar o caso à justiça” (LACAN, 1987, p. 157).

O marido é notificado que ela usou uma autorização marital falsa para solicitar um passaporte para os Estados Unidos, onde pretendia buscar ser uma romancista de sucesso. Foi então que a família decide interná-la numa casa de saúde, permanecendo internada durante seis meses. O sentido construído por Aimée sobre o ocorrido é “eles fizeram um complô para tirar meu filho que eu alimentava e mandaram me prender numa casa de saúde” (LACAN, 1987, p. 157).

Após a internação, Aimée se recusa a retornar ao escritório onde trabalhava e diz ao médico perito que seus perseguidores a coagiam a deixar a cidade. Ela tem, nessa época, grandes inquietações: “Quais eram os inimigos misteriosos que pareciam persegui-la? Ela não deveria realizar um grande destino?” (LACAN, 1987, p. 158). Aimée decide ir para Paris para dar vazão a sua crença no seu destino como romancista.

Na historização em análise com Lacan, Aimée reconstruirá a organização delirante que antecipa o ato agressivo contra a atriz. Para ela, a atriz tinha ameaçado a vida de seu filho, as razões para essa crença se desvelam na análise. Ela relata que no escritório da empresa, certo dia, ela fala mal da atriz, mas seus colegas são unânimes em afirmar que ela era de boa família, distinta etc. Aimée relata então: “Eu protestei dizendo que ela era puta. É por isso que ela devia me querer mal” (LACAN, 1987, p. 159). Antes disso, Aimée declarou que:

Um dia, [...], como eu trabalhava no escritório, enquanto procurava, como sempre, em mim mesma, de onde podiam vir essas ameaças contra meu filho, escutei meus colegas falarem da Sra Z. Compreendi então que era ela quem nos queria mal.

De fato, Aimée sempre procurava interpretar como as ameaças contra seu filho e a sua pessoa começaram. A atriz que ela agride não é a única perseguidora, ela faz parte de uma série de perseguidoras. Aimée se utiliza dos seus escritos para fazer um processo vigoroso das vidas de várias artistas, acusando-as de artifícios e corrupções. Lacan (1987, p. 161) sublinha que há aí uma ambivalência, pois o que mais Aimée almejava era ser “uma romancista, levar uma grande vida, ter uma influência sobre o mundo”. Quando da segunda internação, vários projetos literários afloram no seu espírito e Aimée os define assim: “uma vida de Joana d’Arc, as cartas de Ofélia a Hamlet” e complementa: “quantas coisas eu não escreveria agora se estivesse livre e tivesse livros” (LACAN, 1987, p. 174).

Para Lacan, os escritos de Aimée podem dar informações sobre o seu estado na época da composição e permitem apreender “ao vivo” certos traços da sua personalidade. O detrator é a primeira obra de Aimée. A obra foi escrita “de um fôlego só. Todo o trabalho não teria ultrapassado mais de oito dias, se não houvesse sofrido uma interrupção de três semanas” (LACAN, 1987, p. 176). O texto é marcado por um valor poético inegável ao mesmo tempo que em algumas passagens há a “irrupção desajeitada de um movimento impulsivo de sua sensibilidade. Um pouco incompleta, mal explorada deve-se à sua falta de habilidade, só raramente ela parece suprir os déficits do pensamento” (LACAN, 1987, p. 177).

No que diz respeito ao estado psíquico de Aimée, para Lacan a série de perseguidoras revela a incidência do ideal na psicose. A ausência de mediação entre o eu e o ideal do eu coloca o sujeito como objeto do Outro, numa identificação maciça, ou melhor, numa identificação imediata com o ideal. É daí que podemos extrair a poesia involuntária descrita por Paul Éluard. A poesia involuntária vem como uma tentativa do sujeito de lidar com o real, por meio do simbólico e do imaginário. Dessa forma, “os escritos imperativos” assumem a força de um mandamento, que impõe um pensar sob forma de um automatismo mental do qual o sujeito se situa, em geral, como um copista e é dessa forma que Aimée, no trabalho da psicose em análise, vai tentar tecer “um bordado de contornos literários ao redor da presença de um ideal” (GABAS, 2010, p. 117). O contorno literário deve ser entendido como sendo o delírio de Aimée, um delírio sistematizado através do qual há uma história ricamente construída em torno de um ideal.

No caso Aimée, Lacan (1946, p. 70) reconhece que a função do ideal se apresentou numa série de reduplicações que induziram a noção de estrutura. No caso, a noção de estrutura paranoide da personalidade. Sobre esse ponto, a paranoia e a neurose se aproximam, pois em ambas o significante representa o sujeito para outro significante, conforme o discurso do mestre, discurso que matematiza o axioma lacaniano do inconsciente estruturado como uma linguagem:

Isso faz com que o neurótico possa se desvanecer ao se deslizar para se representar por outros significantes, o que caracteriza a divisão do sujeito. Já na paranoia, a identificação imediata com o significante-mestre o fixa nessa identificação “e o representa para todos os outros significantes” (QUINET, 2006, p. 100).

Anos mais tarde, Lacan (1975-76) retoma esse tema para dizer que a psicose paranoica e a personalidade são a mesma coisa. É possível rastrear as elaborações que levam a essa afirmação desde o texto “Formulações sobre a causalidade psíquica” (1946). Desde então, Lacan se apoia na estrutura geral de desconhecimento manifestada perfeitamente em Aimée.

Esse desconhecimento revela-se na reviravolta com que o louco quer impor a lei de seu coração ao que lhe afigura como sendo a desordem do mundo, iniciativa insensata, [...], dizia eu, basicamente porque o sujeito não reconhece nessa desordem do mundo a própria manifestação de seu ser atual, nem que o que ele sente como lei do seu coração é apenas a imagem invertida quanto virtual desse mesmo ser. Ele desconhece duplamente, portanto, e precisamente por separar a atualidade da virtualidade. Ora, ele só pode escapar dessa atualidade através dessa virtualidade. Assim, seu ser está encerrado num círculo, a menos que ela rompa por alguma violência.

O delírio, conforme definiu Freud (1912, p. 95), é “uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução”. Contudo, Aimée, quando atinge a atriz com uma faca numa agressão não inofensiva àquela que é “uma das personagens de seu teatro, [...] reduplica a conjugação de seu espaço poético com uma escansão abissal” duplamente fictícia (LACAN, 1946, p. 70). A escansão abissal à qual Lacan faz referência está atrelada ao fato de que a produção delirante de Aimée cria uma série de perseguidoras que são personificadas em duplos imaginários sem mediação simbólica povoados pelo ódio. A primeira das perseguidoras, Aimée nomeia pelas inicias C. de la N., que em francês é homofônico com “c’est de l’haine”, cuja tradução para o português seria “é ódio”.

A não mediação simbólica na paranoia faz com que a libido do objeto se volte para o eu, transformando-se em libido narcísica. No caso Aimée, a cristalização do delírio em C. de la N. respeita esse mecanismo. A amiga era objeto da afeição de Aimée, mas tal afeto é projetado de fora para dentro numa realidade delirante “duplamente fictícia” (LACAN, 1966, p. 70). Há uma reversão imaginária do ‘eu a amo’ para ‘ela me odeia’, isto porque ‘o eu a odeio’ se transformou, por projeção, em ‘ela me odeia’, reversão ao contrário própria à paranoia.

A oferta de escuta feita por Lacan possibilitou tomar as interpretações delirantes como parte do trabalho de reconstrução da realidade e dos laços sociais de Aimée. As identificações, mais uma vez, terão um papel muito importante.

Ainda que estas identificações, explicativas ou mnêmicas, sejam posteriores aos fenômenos ditos primários e ao período de inquietude que os acompanha, elas têm frequentemente a relação mais direta com conflito e os complexos realmente geradores do delírio (LACAN, 1987, p. 274).

Desde a tese, em 1932, Lacan (1946/1966, p. 179) buscará construir os alicerces conceituais para propor uma articulação estreita entre a causalidade psíquica e a identificação:

A história do sujeito desenvolve-se numa série mais ou menos típica de identificações ideais que representam os mais puros dentre os fenômenos psíquicos por eles revelarem essencialmente a função da imago. E não concebemos o Eu senão como um sistema central dessas formações, sistema que é preciso compreender, à semelhança delas, na estrutura imaginária e sem seu valor libidinal.

A tese de Lacan e, em especial, o caso Aimée fornecem as bases sobre as quais ele vai construir uma teoria da constituição do sujeito por identificação. Ogilvie (1993, p. 86) sintetiza bem esse momento da obra lacaniana.

Como se constitui de início o sujeito humano, levando-se em conta sua ‘natureza’ particular de ser social? Lacan consagra os anos que seguem a Tese para a elaboração de uma resposta. Nós encontramos os elementos principalmente em dois textos: o artigo sobre ‘A família’, sendo o título original ‘Os complexos familiares na formação do indivíduo’ (1938), e o artigo intitulado ‘O estádio do espelho como formador da função do eu tal como ela nos é revelada na experiência psicanalítica’ (1949).

Os textos escritos entre 1938 e 1949, já pelos seus títulos, anunciam ser o momento propício para Lacan elaborar aquilo que havia recolhido da sua tese. Tanto que, em 1946, com o texto “Formulações sobre a causalidade psíquica”, como em 1948, com o artigo “Agressividade em psicanálise”, Lacan vai desdobrar certos aspectos clínicos da sua tese sobre a psicose paranoica. O interesse pela gênese do eu conduziu Lacan a propor o eu como uma estrutura paranoica, revertendo a ideia de tensão social para uma tensão entre o eu e os arautos do Outro, tomados como os semelhantes, adversários, modelos.

Por fim, constata-se que, por ser freudiano, Lacan pôde, dentro de um tempo lógico, compreender a importância da afirmação de Freud, em 1921, segundo a qual a psicologia individual, num sentido ampliado e inteiramente justificável, é também uma psicologia social. Tal entendimento foi fundamental para ampliar os conhecimentos adquiridos na tese no sentido da formalização de uma teoria da constituição do sujeito por identificação

Referências bibliográficas

FINGERMANN, D & MENDES, M. Por causa do pior. São Paulo: Iluminurias, 2005.
FREUD, S. (1895). Projeto para uma psicologia científica. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 1, p. 381-517.
_____ (1908). Escritores criativos e devaneios. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 9, p. 147-158.
_____ (1909). Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol.10, p. 15-158.
_____ (1911). Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 12, p. 89-122.
_____ (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 14, p. 89-122.
_____ (1915). Reflexões sobre o tempo de guerra e morte. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 14, p. 311-341.
_____ (1917). Os caminhos da formação do sintoma. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 16, p. 419-420.
_____ (1920). Mais além do Princípio do prazer. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 18, p. 17-90.
_____ (1923). Eu e o Isso. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 19, p. 13-83.
_____ (1927). O Futuro de uma Ilusão. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 21, p. 15-80.
_____ (1930). Mal-estar na civilização. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 21, p. 81-178.
_____ (1932). Conferência 33: Feminilidade. In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 22, p. 139-223.
_____ (1933). Por que a guerra? In: Edição Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. Vol. 22, p. 236-259.
CABAS, A. G. O sujeito na psicanálise de Freud à Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
GULLAR, F. Autobiografia poética e outros textos. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
LACAN, J. Da paranóia de autopunição em suas relações com a personalidade. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987
_____. O estádio do espelho como formador da função do eu (1949). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 96-103.
_____. De nossos antecedentes (1946). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 69-76.
_____. A agressividade em psicanálise (1948). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.104-126.
_____. O Seminário – Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1969). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
_____, O Seminário – Livro 23: O Sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
_____. Prefácio da edição inglesa do Seminário 11 (1977). In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 567-569.
QUINET, A. Psicose e laço social. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
SOLER, C. Declinações da angústia. São Paulo: Escuta, 2012.

Recebido em: 1/10/2015
Aprovado para publicação em: 22/11/2015

Texto da Andrea

Inbox
x
Miro Figueiredo AttachmentsJun 15 (9 days ago)

Oi, Letícia, segue o texto da Andrea. Abs
Leticia Vianna Jun 22 (2 days ago)

Oi Miro, pode conferir: http://revistaepos.org/?p=1557

Miro Figueiredo

Jun 23 (1 day ago)

to me, Cristiane, Ana, Silvia, Rita
Bom dia, Letícia.

No texto da Andrea, passaram ainda esses probleminhas. Acertadas essas questões, o texto está liberado.  E aí fechamos o número.

Freud (1895/1974, p. 85) conclui então que “alguma das coisas difíceis de serem abandonadas, por proporcionarem prazer [...] são o objeto, e certos sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do eu, por causa da sua origem interna”.
Essa “origem interna” deixa traços mnêmicos que vão ser evocados quando da retificação na realidade da presença ou não do objeto de satisfação, abrindo caminho para a linguagem, o desejo e o gozo, este último entendido como já se esboçando nas formulações feitas por Freud de que os sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do eu.

Paralelamente, a libido se engendra a partir da inscrição da perda na experiência de satisfação da qual restam traços mnêmicos. Logo, toda a atividade pulsional, como o desejo e a libido, supõe o paradoxo do objeto perdido. Logo, a linguagem surge como via de descarga da perda do objeto. É por isso que Lacan formula que a libido é um órgão formado pela linguagem (LACAN, 1969/1985).
Freud investiga como se funda a civilização e centraliza suas hipóteses no tema da identificação ao pai da horda primeva. Ele retomará tal perspectiva ao tratar da identificação ao líder que une as massas nos seus textos ditos sociológicos.

(COLOCAR UMA ENTRELINHA ENTRE OS PARÁGRAFOS)

Portanto


As dificuldades escolares convocaram que, na presença dos pais, essa criança pudesse falar como era difícil aprender. Um trabalho de separação precisava se efetuar do lugar de “bobo” no qual era colocado pelos pais e no qual a criança se fixará. Tal situação era exemplificada pelo relato do que se passava ao realizar as tarefas com os pais. A mãe insistia que ele não sabia escrever e ela soletrava todas as palavras. Com o pai havia gritos e o que a criança havia escrito era apagado.
Num dos desenhos inspirado pelos jogos de vídeo, a criança põe a figura de um homem que matou cinco a seis crianças, uma delas o próprio filho. A historização em análise, ou seja, a narrativa da criança em análise pôde trazer como a criança lidava com a fixação de gozo de nada saber, ou seja, de ser bobo. As fabulações trazidas para a análise narravam um cenário de violência física que metaforizava uma violência imaginária e simbólica, através do significante “bobo”. Nas histórias contatadas em análise, o pai atingirá o filho com uma faca na cabeça. A criança fica em coma e morre no hospital.

(ENTRELINHA ENTRE OS PARÁGRAFOS)


Depois de fazer o desenho e falar sobre ele, a criança pôde se expressar por meio do outro desenho de como se sentia em não avançar nos estudos.

- criança pôde expressar, por meio do outro desenho, como se sentia em não avançar nos estudos.


Lacan (1946, p. 70) evoca a literatura, em especial a poesia, ao tratar da sua entrada na psicanálise por intermedio do caso Aimée. Lacan nomeia a paciente de Aimée em função da personagem principal do primeiro romance escrito por ela se denominar Aimée. Passados dozes anos da tese de doutorado, ele destaca nesse caso efeitos literários cujo mérito foram recolhidos sobre a rubrica da poesia involuntária pelo escritor Paul Eluard. Na tese, “o invólucro formal do sintoma” será o traço clínico ao qual Lacan (1946, p. 70) vai se interessar, por ele permitir reverter o sintoma “em efeitos de criação”.

pelo


No caso Aimée, Lacan trabalha em cima da fala dela. Foi a utilização da criminologia berlinense de Alexander e Staub que conduziram Lacan até Freud. 

conduziu


As acusações se tornam precisas e claramente delirantes e Aimée repetia, com bastante freqüência, para si mesma a seguinte pergunta

frequencia (sem o trema)

Para Lacan, os escritos de Aimée podem dar informações sobre o seu estado na época da composição e permitem apreender “ao vivo” certos traços da sua personalidade. O detrator é a primeira obra de

O (colocar também em itálico – O detrator)


Bj.

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