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LIBANESES NA “GUERRA DO PENTE” EM CURITIBA. EMIGRAÇÃO, SOFRIMENTO ÉTNICO E INTEGRAÇÃO CULTURAL*

Jamil Zugueib Neto*

 

Resumo: O artigo enfoca os distúrbios urbanos acontecidos em Curitiba no ano de 1959 e que ficaram conhecidos como a “Guerra do Pente”. O episódio teve início numa loja. Um freguês reclamou a nota fiscal pela compra de um pente e não foi atendido pelo proprietário. Os insultos dirigidos ao proprietário levaram a uma violenta luta corporal entre os dois, resultando na fratura da perna do cliente. Transeuntes indignados com o fato apedrejaram a loja e em seguida invadiram-na, causando sua destruição. A multidão então começou um quebra-quebra que se espalhou pela cidade, visando principalmente às lojas de árabes. A baderna durou dois dias e só teve fim com a intervenção do Exército, deixando muitos feridos e destruição na cidade. Colocamos a questão de um possível efeito traumático de cunho étnico no imigrante libanês: teria o evento causado ressentimentos que viessem a dificultar sua interação com a cultura nacional? Analisaremos o papel do pai no processo identificatório dos filhos e na integração deles na sociedade local. Veremos o papel do futebol e da comida árabe nesse processo.

Palavras-chave: Guerra do Pente, libaneses, sofrimento étnico, identidades, integração cultural.

Abstract: The article focus on urban disturbs happened in Curitiba at the year of 1959, known as “The Comb War”. The brawl began at a Lebanese store and was caused by a customer that demanded an invoice for buying a comb. The insults to the owner became a violent body fighting between them, resulting in the customer’s leg fracture. The people that was passing by, angry with the fact, started to stone the store, next invading it and causing its destruction. Suddenly, the gathered crowd started a brawl that spread all around the city and was focused mainly to Arabian stores. The riot lasted for two days and only ended with the Army intervention, leaving lots of wounded people and destruction in the city. Afterwards, we will point to the question of a traumatic effect with an ethnical object to the Lebanese immigrant. Would this event caused resentment that could difficult their integration with the Brazilian native culture? We will analyse the figure of this father within the identifying process of their children and their integration in the local society. We will see the soccer and the Arabian cuisine role in this process.

Key Words: Comb War, Lebanese, ethnical suffering, identities, cultural integration.

A chamada “Guerra do Pente”, ocorrida em dezembro de 1959 em Curitiba, foi um acontecimento excepcional e ainda provoca interrogações. Por que logo em Curitiba? Cidade de perfil europeu, com grande concentração de grupos étnicos alemães e eslavos, que se miscigenaram e que continuam neste processo de forma pacífica com os descendentes das outras etnias que aqui chegaram: portugueses, italianos, espanhóis, suíços, árabes e nossos autóctones. Interações étnicas que promoveram a modelação de seus habitantes, conhecidos como gente pacata e ordeira, praticantes religiosos e de refinamento cultural acima da média brasileira. Proclamados como cidadãos de costumes sóbrios e um tanto tímidos em suas manifestações sociais, os curitibanos naqueles anos ostentavam com orgulho o título da sua cidade: “Cidade Sorriso”, que se associava à sua pretensa cordialidade, ou a “Cidade Universitária”, apontando para o seu bom nível cultural.

Proponho inicialmente neste artigo dar uma versão desses acontecimentos, procurando assinalar alguns detalhes que sublinhem seu caráter xenófobo e antiárabe. Em seguida, rememoro a situação político-social da época para inserir a revolta de Curitiba na onda de protestos nacionais daquele momento. Na segunda parte, passo a centrar-me na família libanesa envolvida no caso e seu processo de integração na sociedade local. De antemão, gostaria de destacar que esses fatos ilustram a abnegação ao trabalho e um firme desejo do árabe de se integrar na sociedade que o acolhe. Apesar de muitas vezes ser alvo de preconceito e sofrer revezes em seus projetos, o libanês, em nosso caso, redobra seus esforços e se mostra receptível aos povos que os acolhem em sua travessia. A análise psicossocial do percurso identificatório dos filhos do imigrante é exemplar.

Os fatos

Os órgãos competentes da época, interessados em aumentar a arrecadação de impostos sobre a circulação de serviços, implantaram uma campanha intitulada: “Seu talão vale um milhão”. Consistia em incentivar o consumidor a pedir a nota fiscal de sua compra no comércio da cidade e, depois, trocá-la por bilhetes, com os quais o cidadão concorreria a um milhão de cruzeiros (soma considerável então) em sorteio alardeado com insistência nos canais de comunicação disponíveis. O povo estava motivado pela campanha, e ao final da tarde do dia 8 de dezembro de 1959, na praça Tiradentes, um indivíduo, ao adquirir um pente em loja de propriedade de um libanês, exigiu a nota fiscal. Em vista da exígua quantia e sabedor que a sua obrigação era a de emitir a nota para um montante mínimo de cinquenta cruzeiros (bem superior ao valor do pente que custava mais ou menos Cr$ 5,00), o comerciante, que tinha a seu lado o filho de cinco anos, recusou-se inicialmente a cumprir a demanda do freguês, alegando não saber escrever em português. Mas, diante da insistência, mandou sua funcionária atender ao seu pedido. O cliente, tomado de indignação, passou a destratá-lo com palavrões. Com os ânimos exaltados, puseram-se a lutar violentamente, tendo o freguês fraturado uma perna. A partir daí, o caos tomou conta da cidade. Era final de expediente e os pontos de ônibus, existentes na praça, estavam repletos de gente. Transeuntes que passavam e fregueses de um bar ao lado, indignados com a cena e mobilizados pelos gritos do cidadão ferido começaram a apedrejar o bazar. Encontrando as portas arriadas, a turba que imediatamente se formou as arrancou e invadiu o local, fazendo com que a mulher e os filhos pequenos do comerciante fugissem para o fundo da loja, subissem para o primeiro andar e pulassem, através da varanda, para as casas vizinhas. Na rua, o rastilho de violência pegou fogo e o quebra-quebra começou. Depredando as casas vizinhas, a massa, que se robustecia cada vez mais, repartiu-se em duas ou três frentes, estendendo-se pelas praças e ruas adjacentes. Destruíram tudo que encontraram: casas comerciais, não só de árabes, e prédios públicos. Com a chegada de agentes da segurança pública, a região transformou-se em batalha campal: tiros, violências, correrias, vaias e bagunça geral. Representantes da polícia civil, batalhões da polícia militar e do corpo de bombeiros se debateram com os mais afoitos, realizando prisões, dando bastonadas e esguichando jatos de água na turba que parecia incontrolável. Todo o miolo da cidade foi percorrido pela procissão de indivíduos e viaturas da ordem pública. Os ânimos vieram a se acalmar somente depois da uma hora da madrugada, quando uma garoa caiu na cidade.

No dia seguinte, a cidade acordou em calma, mas logo a atmosfera do centro da cidade esquentou. O pessoal que vinha dos bairros adjacentes começou a se aglomerar novamente no local onde os distúrbios do dia anterior tiveram início. A praça Tiradentes foi tomada aos poucos por indivíduos que ficaram à espreita. Em outros locais naquela manhã, a polícia em ronda pela cidade dissolvia os pequenos grupos que se formavam com grita e apupos. Os grupos se dissolviam e logo depois se juntavam a outros elementos. Em torno das 9 horas, ouviu-se um grito de “quebra” na praça, e repentinamente a turba explodiu reiniciando as depredações. Cenas bárbaras aconteceram, como a do libanês que, em frente de sua loja, atirou no chão, tentando fazer recuar a horda. O efeito foi o oposto, e este acabou sendo arrastado pela turba por mais de uma quadra, a socos e pontapés. Foi internado em estado grave no hospital. Todo o centro da cidade foi tomado pela confusão: pedras, correrias, apupos e busca-pés espocavam na cidade. Como a situação escapava ao controle dos policiais, o governador do estado foi avisado e este então pediu ao comandante do Exército da região o apoio de suas tropas. Com tanques, metralhadoras e fuzis calados, os militares ocuparam o centro da cidade e os pontos estratégicos na sua periferia. A demonstração de força apaziguou os ânimos e à tarde a ordem fora restabelecida, mas sob vigilância cerrada até o dia seguinte.

Extensão dos distúrbios

O quebra-quebra em seu início foi transmitido por uma estação de rádio de grande audiência, ouvida pelas classes populares. O repórter recebeu apelos do delegado para interromper a transmissão e impedir maior divulgação, pois os distúrbios alastravam-se temerariamente. Em pontos diferentes da cidade pipocavam grupos espontâneos que apedrejaram mercearias afastadas do miolo da cidade.

Tanto a polícia como os comerciantes árabes e os insurretos fizeram uso diversas vezes de armas de fogo. Uma zeladora que limpava no segundo andar os vidros de um prédio foi atingida no braço, por disparo. Foram mobilizados todos os recursos de segurança: tropas de cavalaria da PME, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Civil e finalmente as tropas do Exército.

Houve várias confrontações, Uma pequena multidão chegou a se reunir em frente à chefatura de polícia, a fim de liberar os detidos. Estimou-se em mais de dois mil o número de participantes. Um total de 181 casas comerciais foi danificada.

O Exército, desconfiado que por trás de tudo estivesse a mão do Partido Comunista, e temendo alguma ação mais organizada, tomou a iniciativa de colocar destacamentos nas entradas da cidade para controlar e impedir entrada de caminhões ao centro da cidade. Entretanto, a versão do delegado de polícia em seu relatório ao comandante da região militar observa somente a participação de “marginais e desocupados”.

E o final dos acontecimentos terminou como o estampado nos jornais: “Tanques de guerra e baionetas silenciaram o motim popular” (O Correio do Paraná, 10/12/59).

Os sintomas de xenofobia e o despertar do nacionalismo

Na primeira noite, em local afastado dos acontecimentos, a residência de conhecido e abastado comerciante libanês foi apedrejada no momento em que oferecia a notáveis da sociedade um jantar comemorativo ao ordenamento de seu filho, o padre Emir Kaluf. Casa e automóveis dos convidados foram danificados. O general comandante da região, presente ao evento, teve seu carro alvejado.

Durante a marcha dos exaltados, por entre apupos, vaias e xingamentos dirigidos aos árabes, ouviram-se frases como: “O Brasil é de brasileiro, não de estrangeiro” e “Viva o Brasil”.

Entre os gritos, ouviram-se refrões: “Queremos justiça: o Brasil é de brasileiros, não de estrangeiros.” E também: “Queremos justiça. Quem manda nesta terra somos nós.” Em certo momento do quebra-quebra, um grupo virou uma carrocinha de verduras, mas a colocaram de pé novamente quando gritaram que a carroça não era de “turco”.

Os jornais reproduziram e foram agentes do ódio xenófobo

Os jornais, com exagero sem dúvida, publicaram em manchetes: “Uma declaração de guerra aos ‘turcos’”. Revolta de “características de um ‘progroom’ e ‘de ordem nazista’”. Afirmaram que a “Polícia levou a pior nas ruas e nas praças contra o povo” (Diário do Paraná, 9/12/59).

Houve tendenciosidade na cobertura ou inversão de fatos por testemunhas: um jornal (Diário do Paraná) publicou a defesa realizada por um agente de polícia: “[...] ante a agressividade dos desordeiros, o guarda civil primeira classe A. W., muniu-se de uma barra de ferro e enfrentou a turba com coragem e sangue frio… os manifestantes arrefeceram o entusiasmo.” A outra versão do fato:

Abdo F., detido durante as manifestações, disse que o policial A. W… começou a incitar as pessoas que aí se aglomeravam, gritando que o comerciante havia matado o subtenente [o freguês que comprou o pente] e fazendo comentários sediciosos acerca dos acontecimentos que ocasionaram por fim a revolta popular contra o estabelecimento de Hamad N. (O Estado do Paraná, 10/12/59).

O primeiro jornal também afirmou que

os donos do estabelecimento embora armados não ofereceram resistência, alarmados ante a extensão da revolta e a antipatia de que gozam no seio da massa, pagando inclusive pela exploração desenfreada de todos (Diário do Paraná, 9/12/59).

Houve sofrimento real e moral para a família

Quando a loja foi invadida, os filhos do comerciante fugiram pela porta dos fundos e refugiaram-se nas casas vizinhas. O chefe da família foi preso. Num segundo momento, quando foi reiniciado o quebra-quebra, a esposa empunhou um pedaço de madeira e plantou-se de guarda na porta do estabelecimento. Seguindo conselhos de autoridades, a família se retirou da cidade por alguns dias. Houve intensa veiculação desses fatos nos jornais locais e de outros estados. As notícias também foram veiculadas em revistas de circulação nacional como O Cruzeiro e tiveram repercussão nos jornais do Líbano. Segundo depoimentos colhidos na colônia árabe, Gamal Abdel Nasser, no Egito, o grande líder do mundo árabe na época, teria se referido aos fatos em seus discursos transmitidos pela rádio e ouvido por todo o Oriente Médio. Ele teria pedido a defesa de seus compatriotas em terras brasileiras.

A memória do repórter que irradiou os distúrbios

A transmissão do quebra-quebra pela rádio teve papel preponderante no incitamento popular nos arrabaldes da cidade. Em nossas pesquisas conseguimos localizar o radialista que reportou os fatos iniciais, Dr. Osman de Oliveira, ex-procurador do estado e conhecido causídico da cidade. Em seu depoimento, relatou que àquela época trabalhava para um dos programas mais populares da cidade e que auxiliou na exacerbação dos ânimos. Segundo ele:

Como a coisa estava pegando fogo e se alastrando pela cidade, o chefe da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) telefonou ao proprietário da rádio, pedindo para que eu parasse de incentivar a revolta no povo, e assim eu baixei o tom da reportagem e diminuí o acento ideológico da locução. Mas a coisa já estava sem controle.

Naqueles anos, era grande a insatisfação popular no país. Em Curitiba, o povo criticava, entre outras coisas, a Cia. Força e Luz pela venda dos antigos bondes da cidade pelo preço irrisório de um cruzeiro. O radialista e estudante de Direito na época era também candidato a vereador pelo PTB, e aproveitava essas situações para se promover: “Como nós da rádio tínhamos muito audiência em dois programas, eu aproveitei a bola de neve e mobilizávamos o povo.”

Como sinal do clima político e social que dominava Curitiba, o entrevistado acrescentou que existia uma campanha patrocinada pelos comunistas que se chamava “Campanha contra a carestia”:

Havia um jornal clandestino que veiculava essa campanha contra a alta dos preços… contra os ‘tubarões’ da cidade como se dizia na época. Então os estudantes, e eu que tinha programa na rádio, fazíamos uma campanha adoidada nos bairros. Eu participava dos comícios e fazíamos aquele carnaval na rádio mais ouvida da cidade.

Os programas populares das rádios para as classes menos favorecidas tinham às vezes papel único na informação e na formação da opinião pública naqueles anos. Notícias da situação nacional chegavam pelas manchetes de jornais e pelo rádio, dando conta da situação da construção de Brasília e os gastos decorrentes da empreitada de Juscelino Kubitschek. O presidente sofria a oposição de vários partidos políticos, e no seio das forças armadas ocorriam fatos de insubordinação no alto comando. Por todo o país aconteciam greves e manifestações populares contra o governo. O sul do país sentia-se lesado pela falta de verbas e atraso nos salários. Exemplo impensável em nossos dias, os funcionários da RVPSC (estatal ferroviária) estavam há dois anos sem receber seus proventos. À oposição popular em Curitiba, acresciam-se os diversos escândalos de corrupção no estado atribuídos ao governo de Moisés Lupion.

Considerações psicossociais sobre o evento

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“As depredações continuaram e inexplicavelmente procuravam as casas de comerciantes árabes, numa espécie de explosão nacionalista sem nexo” (Gal. Iberê de Matos – depoimento em filme-documentário realizado).

Esta declaração feita por um general e antigo prefeito da cidade mostra a surpresa das autoridades e sua paradoxal tonalidade.

A violência teria sido iniciada por alguns frequentadores de um bar vizinho às lojas dos árabes. Alguns amigos do proprietário do Bazar Centenário saíram em sua defesa quando da altercação, ao mesmo tempo que os fregueses do bar foram para as calçadas açular os ânimos e atacar a loja. Os jornais publicaram no dia 9 de dezembro:

Agitadores insuflavam os grupos de marginais à desordem e à violência, orientando-os contra as casas a serem destruídas. Relatam também grande número de menores de idade. N’uma declaração do Chefe de Polícia, este afirmava que os manifestantes em sua maior parte eram elementos desclassificados, sem trabalho e com ponto na praça Tiradentes (Diário do Paraná, 9/12/59).

O irrompimento do quebra-quebra, sua propagação e a violência demonstrada, afora sua especificidade de atacar os “árabes”, não portam nenhuma novidade quanto à série de distúrbios urbanos que se espalhavam no momento político da época. Tampouco quanto à morfologia comum de uma turba explodindo subitamente. Lembrando o historiador Hobsbawm (1978), podemos classificá-la como “uma forma instintiva de patriotismo municipal”.

Quando indivíduos se juntam em uma multidão deste tipo, acabam se agregando como células de um corpo vivo e provisório. Anulam-se as repressões individuais e passa-se a agir sob o contágio das emoções e da sugestionabilidade. O ódio despertado subitamente serve como sentimento agregador que faz unir e disparar os afetos.

O interesse pelo estudo das massas já vem do século XIX. Mais tarde, Freud, entre outros,analisou as transformações psicológicas que sofrem os sujeitos inseridos em uma multidão. Atado ao contágio de emoções, o sentimento de poder que se alia à possibilidade de anonimato propicia um verdadeiro estado hipnoidal que vai provocar no indivíduo um sentimento de diluição na massa que o acolhe. O afrouxamento do censo crítico decorrente levava nossos agitadores a um inebriamento que nos faz lembrar G. Tarde (1992, p. 57), quando observava o “orgulho grotesco” e a perda do sentimento de medida das massas nos tempos da Comuna de Paris. Ilustro o nosso caso com as notícias veiculadas: “(…) iam meninos e jovens açulando os ânimos, chamando a atenção dos adultos para alguma loja e também lançando bombas de São João” (Última Hora, 9/12/59). Houve registros também de mulheres que participaram dos saques e de gente bebendo na rua. Alguns estudantes presentes não alardeavam propostas políticas, mas participavam das depredações como participantes da massa, que homogeneizava as disparidades individuais.

A “revolta do pente” começou pela indignação de um brasileiro ter sido agredido por um estrangeiro e árabe. A insatisfação reprimida contra os governantes se associa ao ressentimento contra os estrangeiros e estoura contra os comerciantes árabes. Representações negativas já tinham sido veiculadas anteriormente na história da cidade. Em 1947, os jornais moveram campanha contra o “trust das frutas” no Mercado Municipal da cidade, dominado por japoneses e árabes. Qualificavam-nos de “quadrilha” e “aproveitadores mal educados” (Diário do Paraná, 23/10/47 ).

Na história da cidade, já em 1934-1936 os jornais registram a insatisfação de alguns intelectuais e políticos locais, que acompanhavam o debate nacional sobre a possibilidade de o estado vir a receber imigrantes assírios (curdos?) nas terras do norte do Paraná. Estes estariam para vir da região que conhecemos hoje como o Iraque. O Instituto da Ordem dos Advogados do Paraná citado por Jeffrey Lesser (2001, p. 129) organizou intensa campanha (falavam de crise cósmica), nomeando-se, em declaração pelo rádio, como “sentinelas alertas, a bradar contra os males que ameaçavam o Brasil”.

A insatisfação social curitibana, aliada ao sentimento de ultraje provocado pelos gritos do freguês atirado à calçada pelo árabe, desperta um nacionalismo primitivo. Antigas representações de aversão étnica deságuam em um dever pândego de defesa nacionalista. Os brios apelados mobilizam os sujeitos de massa a uma bagunça jocosa, inserindo-os no que Hobsbawn (1978) e Rudé (1982) classificaram como uma reação social protopolítica. A exemplo do grande levante popular ocorrido nas barcas de Niterói em maio do mesmo ano.1

Os árabes são vistos primeiro como “aproveitadores” e depois como os responsáveis pela alta dos preços. O estigma se fecha e toma sentido político quando eles são associados às classes dominantes que, por sua vez, são percebidas como corruptas. Do meio da massa desabrida o ódio vai se dirigir também à classe política ou o que podia representá-la. O secretário da educação, reconhecido pela turba, “precisou correr para se colocar a salvo de uma agressão” (Última Hora, 9/12/59). Os jornais registram que pessoas oportunistas e com interesses partidários (da campanha de Jânio Quadros à presidência) tentaram se apropriar da revolta e organizar rapidamente um comício, mas foram impedidos e atacados pelos manifestantes, que os fizeram correr do local. Esse fato nos dá a impressão de que havia um acordo grupal implícito de não querer estranhos nos seus propósitos contestatórios e tampouco permitir ações outras que não fossem as suas: a farra contra os turcos. Destaco o termo farra porque quando o alvo das depredações era a

biblioteca da cidade, o guarda que cuidava do local pediu aos manifestantes que tivessem consideração pelo prédio público. O homem foi carregado nos ombros sob aplausos da “patuleia” que “o achou muito simpático” (sic).

O desenvolvimento da arruaça tomou força quando mais adiante os revoltados entraram em choque com policiais, que atiraram com balas verdadeiras em sua direção. Esses fatos revelam o caráter contraditório de ódio e de alegria da “guerra” do “lumpemproletariat” curitibano, dando-lhe um traço tropicalista.

Há muitos aspectos a ser analisados nesta curiosa baderna. Entre outros, a história das representações que envolvem o árabe; o despertar do nacionalismo e a brasilidade, discussão que teve seu apogeu entre os anos 1920 e 1940 do século passado e que hoje, no plano internacional, retorna com furor. Seria instigante analisar com mais detalhes a formação da opinião pública e o papel do rádio na mobilização popular – ficará para outra ocasião. Cabe terminar estas observações com uma nota irônica sobre o provocador da rebelião, publicada nos jornais: “A esposa do subtenente, abordada pela reportagem, afirmou que seu marido é débil mental, tendo sido por este motivo internado por quatro vezes. É entretanto pacífico” (Última Hora, 9/12/59). O que fez a Tribuna do Paraná publicar uma chamada: “Comerciante analfabeto. Oficial demente.”

Nesta segunda parte, vou me dedicar à representação que o “evento do pente” teve para a família proprietária do Bazar Centenário, as possíveis marcas traumáticas e a sua experiência de integração na sociedade local. Assinalo que estas interpretações foram feitas a partir de entrevistas com a esposa e filhos (e seus amigos) do comerciante libanês, já falecido.

A vivência de perigo experimentada pela família nos momentos da revolta, o tratamento preconceituoso dos jornais, e, evidentemente, saber que a loja fora destruída vão caracterizar a experiência traumática nos planos físico, psicológico e moral. Este último constrangimento perdura, pois a memória da cidade é acionada continuamente em publicações dos eventos, em revistas, jornais, debates acadêmicos, e até um filme-documentário foi realizado. Nessas ocasiões, é plausível que o ressentimento se aposse de nossos sujeitos.

A possibilidade de trauma

Um evento se inocula como traço simbólico na memória de um sujeito, segundo a significação que lhe é atribuída. Ele marcará afetivamente o presente do sujeito segundo esse sentido encontrado. No entanto, essa marca sofrerá modificações na memória, quero dizer, no seu inconsciente, e seu significado de dor ou de prazer incitará a predisposição do sujeito a negá-la, exaltá-la ou “esquecê-la”. Seria correto falar então, neste último caso, de um processo de assimilação que essa marca sofreria, pela ação de mecanismos intrapsíquicos encontrados pelo sujeito depois de um trabalho de elaboração da vivência estressante. Somente depois desse processo (de simbolização) pode-se falar de uma reconstrução subjetiva.

Parto desse pressuposto para desenvolver a ideia de que tais acontecimentos não configuraram um evento traumático e intransponível para o nosso imigrante. Tampouco provocaram marcas de rancor racial em sua memória, pois a sua significação é debitada à fatalidade e interpretada como um acidente que deveria ser deixado de lado, sem nenhuma importância emocional na sua vida. Portanto, de acordo com os depoimentos,2 suas representações não produziram trauma, por mais acachapante que tenha sido o sofrimento. O afeto despertado não transforma essa experiência em corpo irresoluto e encapsulado no inconsciente de nosso sujeito e que estaria prestes a se exteriorizar como sintoma.

Em depoimento no filme realizado, Hamad aventa a possibilidade de um complô para desencadear uma revolta urbana naqueles tempos convulsos:

Num lado tinha um bar, Marabá. Parece que …) a história tá bem arrumada. Mais que 18 pessoas dentro do bar. No mesmo instante que aconteceu comigo saiu todo mundo do bar e saiu o quebra-quebra. Antes um dia, 7 de dezembro, ele [o freguês do pente] teve na Casa da Pechincha. [Ele] chama seu Aron, um judeu, ele fez, conforme fez pra mim, ele fez pro judeu. Mas o judeu, homem mais de idade, não fez conta bra isso, chamou, xingou ele e tudo, então não fez conta.

Seus filhos repetem a interpretação do pai quanto às causas do quebra-quebra, mas não fornecem qualquer argumento que fundamente suas desconfianças. Atribuem à inveja de alguns (de quem?) pelo sucesso que a loja tinha na época. Aventam também causas políticas, e assim teriam “plantado nela um agente da desordem”.

Na continuação dos depoimentos não há registro de medo durante a invasão da loja, mas é vívida a lembrança da mãe no segundo dia “com um pedaço de pau na calçada, defendendo a loja”. Lembram do abatimento dos pais, mas

não demorou uns três quatro dias e a loja já estava funcionando. Foi assim jogo rápido: já chamou (pedreiros), já mandou refazer, era tempo das compras de Natal… Não se falou mais sobre o assunto em casa, caiu no esquecimento (Hamud).

A experiência subjetiva de Hamad na sua travessia cultural

A experiência de ruptura vivida por Hamad quando decidiu partir do Líbano, no que ela traz de desorganização interna e de tensão, é processo longo e singular que todo imigrante sofre na travessia de uma cultura à outra. É período de transição, espaço entre dois momentos de uma época vivida como paradoxal, marcada por junções e disjunções reais e simbólicas.

Hamad aportou jovem e solteiro na cidade e logo construiu uma pequena loja. Mais tarde, chega sua noiva, casam-se e juntos cuidam do comércio de roupas. Economizam um capital e se transferem para um estabelecimento maior.

Suas atividades rendem um bom ganho, e os seis filhos podem estudar em colégios particulares, que são frequentados pela sociedade abonada local. Antes da destruição de sua loja no quebra-quebra, um ano antes o estabelecimento fora inundado por uma enchente. Na sequência, a loja pega fogo e sofrem falência nos negócios de roupas. Abrem então outra loja, com dinheiro emprestado, no ramo de calçados. “Coisinhas”, lastimava-se sempre Hamad, mas não tanto, segundo o filho Hamud, pois a tendência era esquecer e “tocar pra frente a vida”.

Neste percurso, Hamad se viu obrigado a manter um diálogo constante consigo mesmo, a fim de refletir sobre as consequências dessas experiências e o sentido para o seu projeto de imigrante. Os impasses sofridos e as ameaças de provocar o caos interno impunham a necessidade de entabular negociações nem sempre bem conscientes consigo mesmo entre o desejável e o realizado no campo da ascensão social, pois as pulsões desorganizadoras, alimentadas pelo medo e a incerteza vão abalar os mecanismos psíquicos socialmente organizados, progressões e recuos que serão estabelecidos.

Nas linhas abaixo, tentarei mostrar esta dinâmica ocorrida com nosso libanês e a relação com a organização de sua família.

O percurso do filhos

Os depoimentos permitem resumir as lembranças marcantes do roteiro identificatório dos filhos. Na primeira infância jogavam baralho e brincavam na praça, onde conviviam com a colônia de muçulmanos. Saem dessas relações endogâmicas, quando são matriculados em colégio cristão, frequentado pelas famílias abastadas da cidade. Os meninos aprendem a jogar futebol e tornam-se aficionados do esporte. Jogavam todos os dias, inclusive nos finais de semana. E assim começaram as novas amizades. Por outro lado, em casa, lembram que auxiliavam na loja e que faziam passeios de carro com o pai. Algumas vezes ele os levava à noite até o ponto mais alto da cidade, para ouvir no rádio os discursos de Gamal Abdel Nasser.

À medida que cresciam, formavam seus grupos e jogavam nos clubes sociais da cidade, numa miscelânea sem fronteiras entre brasileiros e meninos de outras nacionalidades. Um dos irmãos lembra que brigou com o irmão mais novo de seu amigo judeu por causa das provocações durante a “Guerra dos seis dias”, em 1967. Mas esse fato não abalou a amizade entre eles.

Naquela época, para fazer os trabalhos escolares, reuniam-se em casa de amigos. Quando estes vinham à sua residência, eram recebidos com carinho pelo pai, que oferecia comida e doces árabes. Os estudos e os jogos de futebol estreitaram as amizades e abriram as portas da casa para diversos amigos participarem dos almoços familiares. O sabor da comida era comentado e a hospitalidade do pai tornava-o, progressivamente, conhecido entre os jovens. Às vezes era servido carneiro assado, atrás da loja, ou churrasco, quando estavam na praia. O círculo de amigos se estendeu até a adolescência, e começaram então a participar de bailes e festas nos clubes grã-finos da cidade. Com o tempo, os irmãos deixaram de frequentar a mesquita que seu pai ativamente ajudou a construir.

A herança deixada pelo pai

O pai é lembrado com muito amor pelos filhos. Foi ele o “mestre” e o exemplo para todos; alegam que tudo que sabem, aprenderam com ele. Reiteram que o pai em seus conselhos sublinhava muito o respeito pelos outros, a educação no linguajar e o dever de honrar o nome da família. Hamud relata que muitas vezes ele lhe disse para “pensar nos filhos e na esposa, e como é que você tem que tratar comercialmente com as pessoas”. Os traços retidos são de um trabalhador incansável, pessoa alegre, amorosa, que tinha satisfação em ver os filhos receberem os amigos em casa. A filha Zahra complementa o testemunho idealizado de um pai que queria ver a felicidade dos filhos:

Ele queria nos ver bem. A colônia árabe o criticava, diziam que ele tinha que comprar uma propriedade, ao invés de esbanjar tanto com os filhos. Achavam que ele dava muito dinheiro para nós, que nos cobria de presentes… Ele respondia que queria ver seus filhos felizes enquanto estivesse vivo, não depois de morto. Como ele era uma pessoa assim, a gente respeitava ele demais, jamais faríamos algo que o contrariasse, nenhum de nós, especialmente as meninas.

O pai mantinha sempre o bom humor. Às vezes notavam algo de melancólico em sua fisionomia, mas nenhum traço de rancor. Os incidentes que lhe envolveram não permitiram fazer um pé-de-meia substancial para voltar ao Líbano e ter uma vida tranquila. Com o passar do tempo, no final dos anos 1960, aceitou esse impedimento e “passou a encarar a ideia de viver no Brasil” (Ali). Notaram, então, certa transformação no pai. Tornou-se mais receptivo, passou a receber mais brasileiros dentro de casa.

Quando percebe que as chances de voltar ao Líbano são cada vez mais remotas, Hamad redireciona seu projeto de vida. Abandona o sonho do sucesso financeiro e de um retorno triunfante, e a admiração entre os seus. Tal decisão implica renúncia e é momento de ruptura com a família “primordial” e com sua comunidade. Como muçulmano, o distanciamento da “Umma”3 é vivido como drama subjetivo, um momento de luto pela perda de um objeto idealizado. Desse vazio, opera-se em Hamad um deslocamento a um novo investimento e concretiza-se o fio da integração. A família, como objeto de transição para os filhos, transforma-se em espaço potencial de apaziguamento para o pai. A satisfação dos filhos proporciona-lhe ganhos simbólicos e equilíbrio para prosseguir com o necessário sentimento de coesão e de integridade do seu eu

Com a aceitação dos amigos no foro familiar, Hamad acolhe os porta-vozes da sociedade local. O foro privado torna-se a sustentação do redirecionamento existencial e passo para a esfera pública, onde é desconstruído o estranho. O projeto de vida é retificado e deslocado para um outro lugar, concorrendo assim à regulação apaziguadora interna de nosso sujeito. Acompanhando este nó de ressignificações, acontece o descentramento dos filhos da fantasmática familial na direção de outras correntes de identificação. A abertura, agora remodelada para outras formas (temidas?) de sentir e de pensar, impõe ao nosso imigrante a organização de novas condutas e a solidificação das introjeções dos novos códigos sociais. Instrumentalização necessária para aparelhar-se diante das interações comportamentais e dos ritos da nova cultura. Momentos de transição: aos filhos é propiciada a liberdade de suas escolhas; ao pai, a revitalização de seus laços e o encontro com o diferente.

Os passos seguidos pelos filhos

Depois da morte de Hamad, a família, com problemas financeiros, levou o mais popular dos irmãos a abrir um bar, que venderia caftas, espetinhos de carne moída com salsinha. O sucesso imediato foi tão grande, que a família toda resolveu abrir um restaurante. Atualmente, e há mais de vinte e cinco anos, é o restaurante de comida árabe de maior sucesso da cidade. Os amigos do futebol foram os primeiros fregueses, motivados pelas lembranças dos antigos almoços. Provando a comida, a memória grupal é reatualizada. Os sentimentos de fraternidade reafirmam os laços de amizade e desperta a consciência de uma identificação comum. Mais tarde, esses amigos trouxeram seus pais, que por sua vez trouxeram seus próprios amigos. O sucesso do restaurante torna o local ponto de encontro da cidade e garante a renda financeira da família. No comando da cozinha, a memória culinária da mãe promove agora a etapa conclusiva na direção da assimilação dos filhos.

Conclusões

1. Pai, projeto e identificação

A interpretação de um evento é construída segundo a significação que se lhe associa. Sua evocação se dará por este nexo e por suas associações que fazem sentido. Para os filhos de Hamad, os traços da “Guerra do Pente” ficam como marcas de uma mensagem e não como fonte de ressentimentos. Dissolvidas essas marcas nas cadeias de seus processos identificatórios, o “evento do pente” ressurge em cada um como filigranas simbólicos que evocam “a abnegação no trabalho e a volta por cima dada pelo (meu) pai” (Ali).

Eles falam de um projeto paterno, que, submetido às exigências da realidade, é implantado com progressões e renúncias. Estratégias comandadas pelas projeções egoicas idealizadas de um imaginário de imigrante, e fadadas à frustração. A aceitação pragmática face ao impasse engendra o apelo de esforços psíquicos de superação e de adequação às novas configurações existenciais. As pulsões de vida se impõem como novos investimentos objetais e como abertura de saúde. Hamad/Eros venceu onde concorriam tendências de um recuo congelador.

O amparo oferecido aos filhos reverte-se como aderência à sua figura de identificação. Desde aí ele promove um continente positivo, tecendo uma membrana fluida que dá aos jovens garantias para partirem rumo ao hibridismo cultural.

2. O jogo dos filhos

Se na primeira infância a relação de identificação no grupo originário se dava pelo jogo de baralho, o encontro com o diferente se dá pelo futebol e acaba no quibe integrador. Como bem observa Meihy em seu artigo sobre a interculturalidade, a aceitação dos árabes em nossa cultura passa por discursos paradoxais, no entanto, “a apreciação da [sua] culinária implica clara aceitação”.4 Em nosso caso, o árabe sai de sua célula privada conduzido pelo futebol. A travessia pelo brasileiríssimo fator de união nacional induz, num segundo momento, o convite do imigrante aos representantes da “sociedade hospedeira” a sentarem à sua mesa. E neste vai e vem estabelecem-se o diálogo e a adesão grupal. Mais tarde, a memória grupal do sabor da comida e da cordialidade familiar reagrupa os velhos amigos em outro momento, para confirmar e soldar os laços simbólicos de um sentir comum. O reencontro no restaurante, como metáfora, estabelece os vetores rumo à assimilação de nossos libaneses a um projeto coletivo mais amplo.

 

Referências bibliográficas

Lesser, J. A negociação da identidade nacional. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 2001.

Hobsbawm, E. J. Rebeldes primitivos. Estudo sobre formas arcaicas de movimentos sociais no século XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

Meihy, J. C. S. B. Ser árabe na cultura brasileira. Construção de identidade. Tiraz 5, p. 8-33, 2008.

Nunes E. A Revolta das Barcas. Populismo, violência e conflito político. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.

Rudé, G. A multidão na História. Estudos dos movimentos populares na França e na Inglaterra. Rio de Janeiro: Campus, 1982, p. 1730-1848.

Tarde, G. A opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Lopes, Nivaldo. A Guerra do Pente. [Filme-vídeo] Direção de Nivaldo Lopes (Palito). Acervo Cinemateca de Curitiba, 1984.

Artigo recebido em 30/9/2010 e aceito para publicação em 5/10/2010.

* Este trabalho é uma nova versão do artigo publicado na revista Tiraz, nº 6, ano VI, 2009.

** Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná. Coordenador do Núcleo de Estudos dos Processos Identitários, das Etnias, das Crises e da Cultura Árabe.

1 Os usuários de embarcações que ligavam o Rio de Janeiro a Niterói, insatisfeitos com os maus serviços prestados pela empresa, promoveram um quebra-quebra de grande envergadura e de “debochado colorido arruaceiro”, segundo algumas fontes. O povo enfurecido enfrentou a polícia, promoveu incêndios em estabelecimentos comerciais, destruiu e saqueou a casa dos proprietários da empresa, e acabou saindo às ruas vestindo roupas e adornos femininos em inusitada performance carnavalesca.

2 Entrevistas realizadas com os filhos Hamud, Ali e Zahra.

3 A grande comunidade dos crentes muçulmanos, que seguem a mesma lei e o objetivo de solidariedade interna.

4 MEIHY, 2008, p. 12.