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“ENCONTRAR LUZ EM TANTA ESCURIDÃO”: VIOLÊNCIA E SUBJETIVIDADES (MASCULINAS)

Bryan Hogeveen (Trad. Renato Aguiar)

Professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Alberta-Edmonton, Alberta, Canadá.

 

Resumo: A violência está tragicamente entrelaçada à experiência quotidiana de muitos jovens aborígenes canadenses. Questionar como as vidas das populações aborígenes se tornaram saturadas de violência nos permite pensar criticamente sobre não somente as condições estruturais (isto é, o colonialismo), que podem condicionar (acarretar) comportamentos violentos, mas também os significados subjetivos da violência. Pesquisas sobre as vidas violentas expõem os processos sociais e as condições estruturais intrínsicas às ontologias violentas. O presente artigo documenta a vida de um jovem aborígene que se envolveu com gangs e violência em tenra idade. Suas experiências são instrutivas não somente pelo que revelam a cerca da violência, mas também sobre os processos que envolvem o abandono de uma ontologia violenta. Sugiro que sacudir a nuvem escura da violência é extenuante. A história de Caleb revela como seres violentos estão mergulhados em ethos violentos.

Palavras-chave: violência, aborígene, Canadá, masculinidade, colonialismo.

Abstract: Violence is tragically interwoven into the daily experience of many of Canada’s Aboriginal young people. Interrogating how Aboriginal people’s lives become saturated with violence allows us to think critically about not only the structural conditions (i.e. colonialism) that condition violent behaviour, but the subjective meanings of violence. Investigations of violent lives expose the social processes and structural conditions intrinsic to violent ontologies. This paper documents the life of an Aboriginal young person who became involved in gangs and violence at a very young age. His experiences are instructive not only for what they reveal about violence, but also about the process of exiting a violent ontology. I suggest that shaking the dark cloud of violence is grueling. Caleb’s story reveals how violent selves are situated within an ethos of intertwining structural and micro conditions that are folded into the individual and manifested in violence.

Keywords: violence, Aboriginal, Canada, masculinity, colonialism.

Caleb: É tudo violência, pode dizer assim.

Eu: Toda a sua vida?

Caleb: É tudo violência.

 

 

A violência está tragicamente entrelaçada à experiência cotidiana dos jovens aborígines do Canadá. Muitos deles se esforçam para fugir à devastação da violência, mas ainda assim somam-se às baixas que ela produz. Aborígines são em média mais jovens, menos educados, têm menos probabilidade de estar empregados, mais probabilidade de ser sem-teto e muitíssimo mais de ser presos do que qualquer outro grupo (STATISTICS CANADA, 2006). Ao mesmo tempo, suas vidas são amiúde sobrecarregadas de violência. Mulheres aborígines, por exemplo, têm três vezes mais probabilidade de ser vítimas de violência doméstica (STATISTICS CANADA, 2006). Além disso, a taxa de homicídio para pessoas aborígines excede brutalmente aquela de outros canadenses. Entre 1997 e 2000, a taxa de homicídio aborígine era sete vezes maior que a de não aborígines (STATISTICS CANADA, 2006). Por que esta violência afeta desproporcionalmente as pessoas aborígines? Como condições sistêmicas se fixam no ser ontológico?

Trato dessas questões através da história esclarecedora e trágica de um jovem aborígine que chamo de Caleb. Eu não o procurei, mas o conheci enquanto estava pesquisando o impacto da reestruturação neoliberal no gueto canadense. Em nosso primeiro encontro, ele acenou me chamando – eu devo ter parecido gravemente fora de lugar. Apertou minha mão com vigor e força antes de me levar num passeio pelo lugar onde agora trabalha como conselheiro de jovens. Ao conhecer Caleb, qualquer um fica imediatamente impressionado com sua sinceridade, bom humor e seu amor e devoção à família. Porém, há um outro lado de Caleb cuidadosamente escondido sob um exterior cuidadosamente construído. A gente vê que há um eu passado que ele guarda zelosamente, mas que espreita perigosamente perto da superfície. Que ele conhece bem a violência e – talvez mais – que a dor é manifesta nas suas tatuagens de gangue e cicatrizes. Depois de passar um tempo com ele, torna-se claro que ele, como muitos outros jovens aborígines, luta continuamente para escapar de uma vez por todas da violência que atormenta a sua vida.

Perguntar como a vida de Caleb ficou saturada de violência nos permite pensar criticamente não só sobre as condições estruturais (i.e., colonialismo) que se manifestam em seu comportamento abusivo, mas sobre o significado subjetivo da violência. Investigações sobre vidas violentas expõem os processos sociais e condições estruturais intrínsecas a ontologias violentas. Como tal, a história de Caleb nos propicia lições sobre a aquisição de uma masculinidade violenta sob aparência de poder, controle e domínio (MESSERSCHMIDT, 2000; 2004). E talvez mais importante, a experiência de Caleb também é instrutiva pelo que revela sobre deixar para trás uma ontologia violenta. Boa parte da vida de Caleb é hoje uma antítese do seu antigo eu violento. Contudo, livrar-se da nuvem escura da violência foi extremamente penoso. Embora de nada ele gostasse mais do que transformar o seu antigo eu num estranho, seu passado continua a assombrar a sua existência presente. O eco fantasmagórico do seu passado violento retorna sem parar para lembrá-lo da desconfortável verdade do seu eu anterior. De muitas maneiras, Caleb continua preso numa ontologia violenta. Simplesmente, escapar nunca chega a ser uma ruptura completa e absoluta com o passado indesejável.

A história de Caleb revela como um eu violento está situado no interior de um éthos de condições estruturais e microentrelaçadas que são incorporadas pelo indivíduo e se manifestam em violência. Eu sugiro que a vida dele seja moldada por masculinidade violenta, pobreza, racismo, uso abusivo de álcool e drogas, misoginia e violência intergeracional. Mais importante, eu argumento que tais problemas são fundamental e (quase) irrevogavelmente produto de um passado colonial violento. Antes de passar a esta discussão, é importante que eu dê alguns antecedentes que ajudem a estruturá-la e forneçam o necessário contexto.

Alberta e Edmonton

Alberta é uma província ocidental canadense que ostenta uma população de 3,4 milhões de pessoas, em sua maioria situadas no estreito corredor que se estende de Edmonton até Calgary. Ela está espremida entre as Montanhas Rochosas a oeste e as pradarias a leste. É bem conhecida por sua produção de petróleo, o rodeio Calgary Stampede, as suas proezas de hóquei, e o seu governo conservador de inclinações decididamente neoliberais (LAXER E HAARRRISON, 1995).

Apoiada nas rendas do gás natural e do petróleo, Alberta surgiu como a província mais rica do Canadá. Apesar de os cofres provinciais estarem quase estourando, a rede de bem-estar social, que alcançou e apoiou os oprimidos ao longo da maior parte do século XX, encontrava-se seriamente erodida enquanto a economia ganhava ritmo. Durante os enxugamentos do final da década de 1980 e dos anos 1990, certamente draconianos, os cortes na previdência visaram aos pobres, mas infelizmente não reverteram o curso com a mesma intensidade em tempos mais afluentes. Hoje, a província mais rica do Canadá se gaba de ter uma das menores taxas de assistência social do país (BERGMAN, 2004). Com efeito, entre 1986 e 1996 – conforme medido em dólares constantes – os benefícios previdenciários de Alberta para um solteiro considerado empregável foram cortados em 42,5%, ao passo que pais solteiros com um filho viram seus benefícios sofrerem uma erosão de 23,6% (CANADIAN COUNCIL ON SOCIAL DEVELOPMENT, 2004). O programa Succes by 6, uma iniciativa de prevenção patrocinada pela United Way e dedicada a melhorar a vida de crianças, revelou um padrão neoliberal familiar: enquanto os segmentos mais ricos da sociedade se beneficiam significativamente do boom econômico corrente, os seguimentos mais pobres enfrentam condições adversas (SUCCES BY 6, 2002).

Esta condição, porém, parece contraditória. Se a riqueza aumentou na província, logicamente todos deveriam ser beneficiados de uma maneira ou de outra. Mas isto simplesmente não se confirmou. Em vez disso, a nossa era é de extrema opulência para os ricos e de severa marginalização para os pobres. Ao revés de tentar reverter ou alterar este curso lamentável em tempos econômicos mais robustos, o governo provincial preferiu ancorá-lo. Aliviar ou, pelo menos, diminuir as dores da pobreza parece estar além da jurisdição deste governo. Todo e qualquer programa é descartável para um governo mais aplicado no proverbial resultado financeiro do que na justiça social. Uma contradição inerente e ofensiva aqui é que, numa época em que os números de sem-teto e dos que vivem na miséria estão inchando, esta província continuou a cortar o financiamento de programas sociais que têm potencial de diminuir o impacto da pobreza. Em 7 de abril de 2009, em sua infinita sabedoria neoliberal, o governo provincial ceifou a sua Wild Rose Foundation – um grupo que, há vinte e cinco anos, alocava fundos lotéricos de cerca de 8 milhões de dólares a agências de serviço social. Grupos de serviço comunitários como bancos de alimentos, abrigos para mulheres e programas para crianças de gueto dependiam de suas subvenções de até 50 mil dólares para financiar suas operações básicas.

Os aborígines são os mais afetados. Eles têm mais probabilidade de ser sem-teto, de ter necessidade urgente de assistência social, de viver na miséria e de ser vítimas de muitas formas de violência (INDIAN AND NORTH AFFAIRS, 2001; ROYAL COMMISSION ON ABORIGINAL PEOPLES, 1996). Por que tem de ser assim? O que aconteceu para que condições para um tão trágico estado de coisas fossem criadas? Numa palavra, colonialismo. Durante cinco séculos de ocupação europeia, os povos indígenas do Canadá foram devastados por exércitos invasores quase a ponto da extinção, tiveram suas crenças espirituais e sistemas religiosos destroçados e desvalorizados por missionários, foram removidos à força das terras que habitavam há milênios, e tiveram as suas línguas ofuscadas por imperialistas culturais. A escola residencial, o sistema de reservas e as intervenções intrusivas do Estado estão no centro da questão (MILLER, 1996; HOGEVEEN, 1999). Claramente, injustiças seculares continuam a assombrar os povos aborígines do Canadá.

A Aboriginal Healing Foudation [Fundação para o Restabelecimento Aborígine] (2003) argumenta em seu relatório sobre violência doméstica que:

O legado da experiência da escola residencial tem sido bem documentado e está claramente ligado aos sintomas do transtorno de estresse pós-traumático, assim como a uma ampla gama de problemas sociais, inclusive dependência química e abusos sexuais. Em geral, este corpo de pesquisa, teorias e modelos aponta inteiramente para a mesma conclusão geral – violência familiar e abuso nas comunidades aborígines têm a sua raiz, pelo menos em parte, no trauma histórico e nas realidades sociais criadas por aqueles processos históricos.

Foi neste éthos de violência condicionada por uma lúgubre herança colonial que Caleb nasceu.

A história de Caleb: masculinidade violenta

A violência é central na vida de Caleb, na sua identidade e no seu ser ontológico. De muitas maneiras, como sugere a citação de abertura, ela É a vida dele. Foi este sempre o caso? Por tanto quanto ele possa lembrar-se, houve violência. Lembrar um tempo em que sua vida não foi perturbada por brigas e abusos é difícil para o rapaz de vinte e sete anos. Embora seu pai nunca tenha desempenhado um papel ativo em sua vida, seu relacionamento com a mãe formou amplamente a sua experiência infantil. Ao mesmo tempo em que ela é e foi uma presença, foi através dela que ele, pela primeira vez, travou conhecimento com a violência.

Desde seus seis anos de idade, ele era encarregado de cuidar do irmão e da irmã. Não importa o acesso de fúria que ele tivesse, sua mãe sempre fugia para beber no bar local. Caleb se lembra que:

… ela não voltava pra casa a noite inteira. Às vezes, eu colocava meus irmãos na cama, e sabe, ficava sentado na frente da janela, olhando a torre de um escritório próximo por horas e horas, pensando se ela estava bem. Às vezes eu pegava no sono. Às vezes ela voltava doidona [embriagada/intoxicada], coisas assim.

Caleb se preocupava muito com sua mãe. Obrigado a viver um papel de guardião muito cedo em sua vida, ele se tornou responsável não só pelos irmãos, mas também pela mãe. Com medo de que ela morresse de overdose ou envenenamento por álcool, Caleb passou muitas noites inquieto, dormindo ao lado da mãe. Em certa ocasião:

Eu lembro uma vez que ela chegou em casa com a blusa toda suja de sangue. Aí finalmente ela desmaiou no quarto dela, e eu fiquei sentado ao lado na cama a noite inteira, porque o nariz dela tava todo arrebentado, pô! Não sei se acabei descobrindo o que tinha acontecido naquela idade mesmo, ou se foi mais adiante que soube que foi meu primo que deu porrada nela. Meu primo pesa entre oitenta e noventa quilos. Tudo porque ela não quis comprar mais cerveja no bar. Aí ele quebrou o nariz dela. Ela não estava conseguindo respirar, então eu fiquei acordado a noite inteira, sentado na cama, preocupado se ela ia ficar legal…

A violência coloriu a infância de Caleb. Sua mãe, como qualquer outra mulher aborígine no Canadá, sofria nas mãos dos seus parceiros. Mulheres aborígines são com muita frequência vítimas trágicas de violência. Não apenas elas têm três vezes mais probabilidade do que as mulheres não aborígines de sofrer violência doméstica, mas 90% das mulheres aborígines sentenciadas pelo governo federal relatam ter sido sexualmente molestadas (CANADIAN ASSOCIATION OF ELIZABETH FRY SOCIETIES, 2006; AMNESTY INTERNATIONAL, 2004). Além disso, as duas últimas décadas testemunharam o desaparecimento de mais de quinhentas mulheres aborígines. A maioria presumivelmente morta.

A topologia da vida indígena é com demasiada frequência moldada pela violência. É nas suas casas e em idades horrendamente tenras que muitos jovens aborígines testemunham e experimentam a violência originalmente. Os homens que sua mãe trouxe para casa abusaram de Caleb física, emocional e sexualmente. Em certa ocasião, ela deixou com ele um dos seus pretendentes enquanto saía para o bar. Pouco depois da partida da mãe, o homem começou a “fazer merda”. A memória era dolorosa demais para ele continuar a falar no assunto, mas basta dizer que Caleb ficou muito machucado depois da violência sofrida.

Os homens que entraram e saíram da sua vida lhe ensinaram muitas lições de violência. Ele se lembra nitidamente de como “vai se foder, seu filho da puta” era a primeira coisa que um dos namorados da mãe gritava para ele. Eles tinham discussões muito particularmente violentas, “ele sentava a porrada nela e coisas assim”. Caleb tinha onze anos quando testemunhou pela primeira vez uma arma sendo usada numa discussão. Este namorado em particular,

… tava bêbado e a minha mãe tava no bar. Ele pôs a mim e ao meu irmão aos chutes pra fora de casa e trancou a porta pra gente não poder voltar. Era outono e nós ficamos sentados do lado de fora. Minha mãe chegou num táxi e nós contamos o que tava acontecendo, aí ela arrombou a porta com o pé e cortou a cara dele com uma faca de açougueiro. Acho que o corte tinha uns quinze centímetros. Começou a esguichar sangue pra todo lado, e em cima de mim…

As lições de violência eram onipresentes. Pense, por exemplo, nas vezes em que Caleb foi obrigado a ficar ouvindo a mãe ser estuprada. Nessas ocasiões, ele estaria tomando conta dela enquanto ela dormia por causa de uma pesada noite de bebedeira.

Eu lembro das vezes em que ele e a minha mãe ficavam na cama. Minha mãe estava dormindo e ele a estuprava enquanto ela estava desmaiada. Eu não disse nada porque era muito novo, certo? Sabe, eu tinha que ficar sentado lá ouvindo aquilo porque estava com medo demais pra me levantar.

O efeito em Caleb foi drástico. Essas ocasiões não foram apenas psicologicamente traumatizantes, mais uma vez ele estava tendo aulas sobre a maneira apropriada de ser homem no mundo. Ele estava aprendendo em primeira mão que conflitos podem ser superados através da violência, e que as mulheres que não cedem podem ser espancadas para se submeterem. Ele estava se tornando intimamente consciente de que poder, controle e intimidação podiam ser alcançados através da violência.

O fato de a violência tornar-se central para o ser ontológico de Caleb não é inesperado. Um sem número de estudos demonstraram os efeitos danosos que testemunhar violência doméstica tem sobre crianças e jovens (ZERK E PROEVE, 2009; MELTZER et. al., 2009; STILES, 2002). Os jovens que travam conhecimento com a violência em casa têm mais probabilidade de sofrer transtornos internalizados como depressão ou ansiedade (JAFFE, HURLEY E WOLFE, 1990). Eles também têm muito mais probabilidade de manifestar seus distúrbios íntimos trapaceando, fazendo bullying e brigando (RHEA et. al., 1996; EDLESON, 1999). Eles também têm mais probabilidade de resolver conflitos através da violência. Quando confrontados a situações bloqueadas ou à não aquiescência, crianças testemunhas de violências frequentemente mostram mais facilidade para empregar a violência (JAFFE et. al., 1986).

Assim, não é acidental que Caleb respondesse ao abuso quase constante de sua mãe da única maneira que lhe foi ensinada pelos brutais pretendentes dela. Para proteger a mulher que ele tanto amava, ele se voltou para o único recurso aparentemente disponível – a violência. Ele afirma: “Eu sempre pensei comigo mesmo, um dia eu tomo conta disso, de algum modo vou ter de dar um jeito.” Para ele, isto significava revidar. Dois incidentes são particularmente ilustrativos. O primeiro, “eu me lembro que [um dos namorados da mãe] estava encrencando de novo com a minha mãe e tentando bater nela, esse tipo de coisa. Eu me lembro de ter pegado uma caneca de café e jogado, e não é que acertou bem no meio dos olhos e abriu a cabeça dele”. Caleb se sentiu capacitado pelo incidente. Ele estava ficando mais velho, mais forte e cada vez mais convencido de que era responsabilidade sua defender a mãe.

Um segundo exemplo (entre muitos) ocorreu quando a mãe de Caleb impediu seu namorado de entrar na casa da família.

… ele veio até a porta e tentou entrar, mas a mãe não deixou, ela não queria que ele entrasse. Aí ele pegou uma pá e bateu na cabeça da minha mãe com a pá. Eu me levantei de um pulo e fui correndo pra fora com as minhas botinas, de shorts e camiseta. Ele tinha vindo a nossa casa com dois caras que ele conhecia. Quando estava voltando pro caminhão, eu corri por trás dele e lhe dei um chute atrás da cabeça, ele caiu. Quando ele caiu, eu comecei a pular na cabeça dele, e a cabeça dele ficava quicando no gelo e batendo na minha bota. Foda-se, porra, aconteça o que acontecer, né não? E no último pisão que eu dei nele, a cabeça bateu no chão com tanta força, que ele começou a roncar de olhos abertos e os amigos dele ficaram gritando atrás de mim, “pára, solta ele, solta ele, você vai matar o cara”, coisas assim. Eu não dei a mínima pro que eles tavam falando…

Esperando escapar da violência que dominava crescentemente a sua vida e acabar com os abusos sofridos pela mãe, Caleb apelou para a única coisa que, naquela época, ele odiava. Afinal, ele teve poucas oportunidades ou recursos para agir de outro modo. Ele comenta que “aos treze anos eu comecei a mandar a porrada, porque já era velho o bastante, eu achei, pra brigar com homens”. Brigar era o que ele sabia. Era central para o seu estar no mundo e mesclava-se à sua compreensão do manejo de conflitos. Ser homem era lutar com homens, e comportar-se deste modo o capacitava a proteger a mulher que ele tanto amava. Proteção e amor significavam violência, e violência significava cumprir o seu dever como homem.

A violência estava intrinsecamente vinculada à sua compreensão da virilidade. Em sua vida, todos os homens inculcaram lições de masculinidade violenta. Seus tios, por sua vez, “diziam a mesma coisa, você não pode ser frouxo. Meus tios estavam todos na penitenciária, e quando saíram, falaram de como a gente tem que ser durão, homem tem que ser durão, e não deixar ninguém te sacanear nem nada parecido”. Ser um “homem de verdade” significava, para Caleb, ser fisicamente capaz de proteger mulheres que fizessem parte da sua vida e de tomar conta de si, amiúde mediante meios muito violentos.

Caleb igualava vulnerabilidade com fraqueza e o sentimento de ser menos homem. Certa vez, ele acordou e viu que estava preso com correias numa cama de hospital, depois de uma briga particularmente brutal com uma gangue rival. Ele havia sido esfaqueado no lado e estava sofrendo com o pulmão perfurado. Quando seus amigos chegaram para visitá-lo, ele foi informado de que quem havia feito aquilo estava sendo tratado de ferimentos semelhantes naquele mesmo corredor do hospital.

… quer dizer, a garota que veio me visitar conhece uma das garotas que tava visitando ele, e elas se encontraram no corredor. Aí a garota que tava visitando o carinha disse pra garota que tava me visitando, “bem, é melhor dizer ao Caleb pra ele ficar ligado, porque os amigos do carinha estão no quarto dele agora mesmo, armando de vir ao quarto do Caleb quando não houver ninguém por perto, pra acabar o trabalho”. Aí ela ficou histérica e entrou no meu quarto dizendo, “oh, meu Deus, oh, meu Deus, ele vai te matar…

A resposta de Caleb foi indolente: “e eu disse, ‘bem, se tá na hora de morrer, tá na hora’.” Sem se emocionar, a namorada informou aos funcionários do hospital sobre a trama assassina. A resposta do hospital foi a esperada – um guarda de segurança foi estacionado diante do quarto dele vinte e quatro horas por dia. Caleb não gostou e até hoje considera esta resposta “uma das piores coisas que jamais aconteceu comigo”. Considerando que isto vem de um homem que já foi esfaqueado inúmeras vezes, espancado com taco de beisebol, e que assistiu a mãe apanhar quase até morrer, a reação dele é surpreendente. Entretanto, se voltarmos à nossa discussão sobre masculinidade, podemos ver que, para Caleb, homens de verdade protegem a si mesmos e àqueles que amam – não importa o que for preciso para este fim. Nenhuma ajuda é necessária.

Caleb estava extremamente fraco e vulnerável naquela situação. Em contraste, homens de verdade são fortes e nunca mostram sinais de fraqueza. Ele explica seus sentimentos:

Eu me senti como se não tivesse colhões [eu: sério]. É, me senti um cagão, porque tinha um guarda sentado no meu quarto, me vigiando, pra me proteger. Na minha cabeça isso é fraqueza. Foi o ponto mais vulnerável da minha vida.

Para Caleb, vulnerabilidade significava fraqueza e fraqueza era a antítese do éthos masculino violento que encobria a sua vida. Ao longo da vida, todos os homens lutam para definir a si mesmos como homens (CONNEL, 2005). Quando meios convencionais aparentemente não estão disponíveis e os únicos modelos à mão projetam um ser violento, um eu violento é o resultado quase certo. James Messerschmidt (2000) atesta que “por causa de sua conexão com masculinidade hegemônica, para muitos homens a violência serve como recurso adequado para construir masculinidade.”

Conseguindo escapar?

Poucas áreas da vida de Caleb permaneceram intocadas pela crueldade da violência. Na sua tenra infância e, depois, mais tarde, a violência era uma prisão da qual ele queria escapar. Ele nunca esteve plenamente em paz consigo mesmo com a vida que estava levando. Encontrar maneiras de livrar-se do que ele chama de “a escuridão que encobriu a minha vida” adquiriu várias formas, que podem livremente ser subdivididas em estratégias de retirada e estratégias ativas. Eu penso na primeira como comportamentos envolvendo retirada do ambiente pessoal através do auxílio, por exemplo, de drogas e/ou álcool. Aqui o eu permanece firmemente plantado no éthos corrente, com apenas rupturas momentâneas efetuadas pela intoxicação. Meios mais ativos de escape sugerem um eu que foge propositalmente mediante tentativas de romper os grilhões da sua existência ontológica corrente. Em contraste com uma aspiração mais permanente de sair, as estratégias de retirada envolvem uma interrupção temporária e intermitente do ser.

Drogas e álcool eram frequentemente os companheiros mais próximos de Caleb. Desde muito jovem, Caleb aprendeu a medicar sua dor através de álcool e drogas, que eram abundantes. Sua casa frequentemente acolheu as exalações regulares de convivas que consumiam todo tipo de tóxico. Ele afirma que “tinha festa toda noite na minha casa, e o pessoal passava e ficava bebendo e festejando. Basicamente, eu só ficava sentado por perto, olhando a noite inteira”. Ele não podia deixar de ser profundamente influenciado por esta conduta.

Drogas e álcool representam problemas significativos para as comunidades aborígines. Uma avaliação recente da Aboriginal Healing Foudation (2003) verificou que o colonialismo, especificamente o sistema de escolas residenciais, tem grande parte da responsabilidade. Funcionários da escola residencial, o mais amiúde com vínculos religiosos, forçavam o afastamento de crianças aborígines de seus pais e do seu meio cultural durante anos, enquanto tentavam doutrinar ideais eurocanadenses. Os efeitos foram devastadores. Afastados de suas comunidades e obrigados a renunciar aos seus eus antigos em favor de valores e símbolos alienígenas, os sobreviventes da escola residencial nunca se recuperaram plenamente. Arrancados do convívio com os pais e obrigados a viver a certa distância de suas terras tradicionais, a sua maneira de estar no mundo foi quase completamente moldada pelos funcionários da escola residencial, que, é notório, eram fisicamente violentos e sexualmente abusivos. Autores aborígines, como Fourneir e Crey (1997), mantêm que o impacto intergeracional, particularmente no tocante a abusos físicos e sexuais, contribuiu coletivamente não só para altas taxas de abuso de drogas e de álcool entre os povos aborígines, mas se manifesta em outros problemas sociais, de saúde e psicológicos (ROYAL COMMISSSION ON ABORIGINAL PEOPLES, 1996; ABORIGINAL HEALING FOUDATION, 2003).

Pessoas indígenas, como Caleb, têm uma longa história de medicar ou lidar com seus tormentos através de tóxicos (WALDRAM, HERRING E YOUNG, 1995; DENOV E CAMPBELL, 2001). Testemunhar o abuso contra sua mãe dilacerou a alma de Caleb. Aos dez anos, ele começou a usar pílulas como um meio para escapar. Lembremo-nos que ele era obrigado a ficar quieto enquanto a mãe era estuprada. Incidentes como este exauriram a sua resolução. Ele sentiu que não podia mais suportar a dor. Sua mãe estava sendo violentada, estuprada e, quando presente, estava tão embriagada ou drogada que cuidar do filho se mostrou quase impossível. Pílulas e álcool aliviavam a dor. Caleb afirma que o alívio que os tóxicos propiciavam era, contudo, temporário. Quando a onda passava, vinha a compreensão de que a violência e o abuso permaneciam.

A escola permitia fugir regularmente do lar abusivo. Caleb mantém que apesar de ser importunado pelas crianças mais velhas, “ir para a escola era uma fuga, porque me afastava da amargura e da nuvem escura que pairava sobre o lugar onde vivíamos”. Por um tempo, o dia na escola provia um porto num mundo “amargo” e “escuro”. Mas mesmo lá, ele enfrentava racismo e desrespeito da parte dos adultos. Em certa ocasião, Caleb estava brincando com um cogumelo enquanto esperava a sua vez no taco durante uma partida de beisebol. O professor “me tomou o cogumelo, colocou em cima da minha cabeça e esmagou em cima da minha cabeça… Ele me desrespeitou e dessa vez eu soube o que o respeito era, e eu quis ser respeitado”.

Quando ele estava na sétima série, o professor de Caleb zombou, “você é um desperdício de vida, você nunca vai dar em nada, você não passa de uma estúpida criança índia que nunca vai dar em nada”. Este tipo de racismo tão diretamente claro contra a sua identidade de jovem aborígine teve um impacto dramático. A escola já não era mais um santuário ou uma suspensão temporária da sentença de violência dentro de casa. Ela também se tornou um espaço cruel e finalmente despedaçou o seu eu já claudicante. Caleb estava começando a aceitar que as admoestações de seu professor sobre a sua nulidade estavam fundamentalmente corretas. Parecia, para ele, que o mundo direito, como ele o chama, tinha pouca utilidade para um jovem aborígine que nunca parecia harmonizar-se com seus contemporâneos caucasianos.

Seus piores temores – que de fato ele fosse pouco mais que um usuário de droga com pouco mais a contribuir que um eu violento – foram confirmados aos treze anos de idade, quando ele foi detido depois de uma briga no pátio da escola que resultou no seu oponente sendo levado para um hospital. Até onde pode lembrar-se, sempre enfiaram na cabeça dele que ele nunca ia dar em nada. “Você vai ser como os seus tios, catando guimbas e bebendo Lysol* pelas ruas.” Para Caleb, a pior parte era que esta era a voz do namorado de sua mãe que ele ouvia na cabeça. Ele continua: “quando a gente escuta o bastante, a gente começa a creditar, e eu comecei a acreditar. Quando fui preso, a primeira coisa que pensei quando me trancaram na cela foi, ‘ele estava certo. Ele estava certo. Aqui estou. Ainda nem tenho dezesseis. Estou aqui dentro e lá vamos nós’. Foi aí que começou.”

Com a narrativa de fracasso iminente finalmente confirmada, Caleb afundou ainda mais na violência e na criminalidade. Seu caminho para uma vida violenta de gangue foi assim pavimentado. Que chance tinha ele? Políticos e funcionários de classe média frequentemente vendem a ideia de que a violência resulta de más escolhas individuais em contextos isolados. Antes de ser uma simples escolha, empregar ou não a violência, ser ou não ser violento, o ser ontológico de Caleb foi formado quase desde a infância por sua imersão num meio lamentavelmente violento (MINAKER E HOGEVEEN, 2009). Ele fora testemunha e partícipe da violência, de brigas, uso de drogas, abuso de álcool, violência sexual e crime desde que era capaz de lembrar-se. Quase todos os adultos significativos de sua vida o constrangeram, abusaram dele, o desrespeitaram e perderam a esperança nele. Exposto somente a lições violentas sobre o significado da masculinidade, Caleb encontrou muito poucas oportunidades para levar uma existência inteiramente conforme os ideais sociais.

Na época em que chegou aos quatorze anos, seus professores tinham perdido toda esperança. Estavam convencidos de que Caleb carecia dos recursos necessários para encontrar uma vida no mundo convencional e se recusaram a oferecer o tipo de assistência necessária para este fim. Brigas dentro e fora da escola eram uma ocorrência diária. Por causa disso, na oitava série ele foi compulsoriamente separado de quase todos os demais estudantes. Ele conta:

Eu senti o gosto da minha primeira experiência de segregação na oitava série. Na escola, eles tinham duas salas de castigo, uma do lado da outra. Eu e Jason passamos mesmo o ano todo da oitava série naquelas salas. Todo dia, o dia inteiro, a única hora em que saíamos era na hora do almoço e, depois, quando acabava a aula. Quer dizer, nós ficávamos sentados lá o dia inteiro. A gente dormia, sentava aqui e ali, desenhava nas paredes, desenhava na escrivaninha, a gente ficou lá tanto tempo que fizemos um buraco entre as duas salas. [eu: Eles ensinavam alguma coisa ou era só um lugar para colocar vocês?] Era só pra pôr a gente lá e ir embora.

A mensagem era clara: ele era um pária, estava fora de lugar e não era digno do tempo e dos preciosos recursos de seus professores. Alienado de um mudo crescentemente hostil, ele procurou outros que fossem parecidos com ele – jovem, aborígine e zangado. Expulso da sociedade dominante, Caleb buscou refúgio na gangue. Fazer a transição para a vida de gangue pareceu natural. Abandonado de uma vez por todas pela conformidade,

eu comecei a vender droga nas ruas e a conhecer gente metida com isso, que tava na vida de gangue, aí eu comecei a andar com uma turma só de caras mais velhos. Comecei aprendendo isso, aprendendo aquilo, comecei a vender droga e comecei a machucar ainda mais as pessoas.

A progressão rumo a uma existência ainda mais violenta era lógica e, para ele, nada tinha de fora do comum. Ele mantém que, situado no nexo da sua história de vida, a vida de gangue “era o caminho em que eu estava, se tornou natural… era normal”.

Uma vez na gangue e comprometido com o estilo de vida, sua existência foi saturada de violência. Violência era aquilo. Ele afirma:

… se tivesse que resumir a coisa toda, eu amava a violência, não havia nada como machucar alguém. Não havia remorso. Não havia piedade. Piedade nas ruas significa que você virou vítima e tem de ser eliminado. Você mostra emoção e você está acabado. Não havia emoção. Eu não me importava com a gravidade com que machucava as pessoas. Quando batia em alguém, tudo o que eu pensava na minha cabeça era “a gente vai te ensinar a não se meter da próxima vez”.

Antes de chegar à idade legal para dirigir automóveis, a identidade de Caleb estava completamente confinada à violência.

Os recursos e oportunidades de Caleb foram gravemente limitados por sua posição estrutural na hierarquia social, por sua educação infeliz e pela carência de recursos convencionais. Vida de gangue e violência foram resultados aparentemente naturais. Mas, por favor, não se deixem enganar, ele desejava todos os recursos e bens que a sociedade convencional podia oferecer. Ele afirma: “eu queria aquele dinheiro, eu queria aquele respeito, eu queria aquele poder.” Nisto ele não era em nada diferente de indivíduos mais conformes que alcançam poder, respeito e recompensas financeiras através de meios convencionais (i.e., educação e emprego). Caleb, contudo, carecia dos recursos e oportunidades necessários para alcançar esses fins. A sua capacidade de violência e propensão a utilizá-la substituiu educação e emprego como meio para chegar a fins convencionais (dinheiro, poder, respeito).

Dado o seu conjunto único de habilidades e a escassez de oportunidades convencionais, poucas opções restavam. As suas oportunidades de vida foram determinadas precocemente pelo exemplo que teve. Os namorados da mãe, seus tios, seus professores e uma cultura mais ampla que glamoriza a violência lhe propiciaram lições de masculinidade, violência e desconsideração generalizada para com a vida humana.

Saída: abrindo uma brecha

Quando Caleb decidiu que havia mais vida do que a violência tinha em estoque, ele saiu em busca de uma “luz em tanta escuridão”. Aventurar-se no desconhecido mostrou-se precário. Não obstante, uma série de incidentes que abalaram a sua confiança e fé no mundo da gangue violenta lhe deram resolução. Ele tinha vinte e um anos de idade quando se comprometeu plenamente a romper os ferros que o prendiam à escuridão. Ele afirma: “Se pude me comprometer com uma coisa tão negativa quanto uma gangue, então posso me comprometer com uma coisa que seja um benefício para mim e para os outros a longo prazo.” Escapar era buscar algo diferente que o ajudasse a romper e libertar-se da sujeição à violência.

Mas estamos apressando um pouco as coisas. As mensagens que Caleb vinha recebendo dos seus assim chamados irmãos de gangue eram cada vez mais incoerentes e contraditórias. Quando ele entrou na gangue, seus “irmãos” juraram “proteger as suas costas” (apoiá-lo). Eles prometeram que, se jamais ele se visse na prisão, eles estariam seguindo de perto para pagar a fiança. Que, se ele precisasse de dinheiro ou drogas, a gangue se comprometia a dar. Se ele se metesse num abriga, eles prometiam que iam estar ao lado dele. Lenta mas dolorosamente, Caleb tomou consciência de que pouco do que foi inicialmente vendido era verdade. Ele passou quatorze meses na cadeia depois de ter sido preso por agressão com circunstâncias agravantes. Sua mãe não podia de jeito nenhum se dar ao luxo de depositar a fiança, tampouco algum dos seus “irmãos” se apresentou. Embora a sua confiança na gangue estivesse algo abalada, uma vez fora da prisão pouco mudou. Ele voltou a traficar e a brigar sempre que a violência parecia adequada.

Pouco depois de sair da cadeira, ele estava bebendo com seus colegas de gangue num bar local. Eles estavam jogando sinuca quando um dos proprietários, que por acaso também tinha vínculos com gangue, achou que Caleb e seus amigos o tinham desrespeitado. Insultado, o membro da gangue rival saiu para buscar apoio. Ao abrir a porta da frente do bar, Caleb descobriu que o estacionamento estava cheio de rivais. Para Caleb, não havia escolha. Ele e um outro amigo:

… saltaram no meio da multidão com duas lâminas canivetes abertas. Aí a gente começou a lutar e se esquivar de facas, e a se esquivar de espadas. Meu amigo Northface recebeu um corte de espada na parte de trás da cabeça e eu levei uma facada no braço. Quando tudo tinha sido dito e feito, basicamente nós todos saímos vivos dali. Todo mundo tinha sido esfaqueado, nós inclusive, mas a gente saiu por cima – acho… Northface foi para o hospital.

Uma vez de volta ao apartamento deles, Caleb e Northface não puderam deixar de notar que nenhum dos irmãos de gangue que estavam bebendo no bar naquela noite tinha “protegido as costas” deles. Ele afirma:

Northface tinha voltado do hospital e nós estávamos sentados fumando uns baseados, aí nós basicamente nos perguntamos pra que a gente tava fazendo aquilo tudo? Nós estávamos perdendo tempo. Aquilo só estava dando numa ficha criminal mais longa, e ninguém estava protegendo as nossas costas.

Ninguém os apoiou quando eles estavam mais vulneráveis e suas vidas estavas em perigo. Evidentemente, a retórica de fraternidade que a sua gangue vomitava estava se mostrando sem sentido.

O fato de ele não ter nenhum dinheiro em seu nome e de ter um poder muito pequeno além do que pôde amealhar com os próprios punhos acrescentava à sua decepção com sua história de vida. Ele queria sair. Mas não era só uma questão de sair, e sim de ir para algum lugar (LEVINAS, 1935). Inicialmente, a fuga foi a única destinação de Caleb. Como resultado da sua falta de objetivo, ele escorregou e voltou ao estilo de vida da gangue algumas vezes. Era o que ele conhecia, o que era confortável e no que ele era bom. A violência, a gangue e as drogas eram prisões das quais ele queria ardentemente liberdade condicional. Mas abandonar aquilo e sair da escuridão exigia uma ruptura radical com o seu estar no mundo corrente: uma ruptura com o presente em curso, e a criação de alguma outra coisa.

Conforme já foi mencionado, os recursos de Caleb para este fim eram severamente circunscritos. Ele não fora educado e a violência era a sua única habilidade disponível – o que é de muito pouca utilidade no mundo do trabalho assalariado. Do que ele precisava desesperadamente era de uma oportunidade que o ajudasse a transcender o seu eu de gangue. Felizmente, tal abertura entrou na sua vida justo no momento em que ele mais precisava. Depois de emergir da névoa provocada por seus baratos de crack-cocaína, que nesta altura já não eram mais uma fuga temporária das dores da vida violenta, mas parte do problema, ele soube que precisava de ajuda. Esta assistência surgiu sob a forma de uma programa de intervenção junto a gangues, que ajuda membros de gangue a saírem das ruas arranjando-lhes empregos, primeiro em várias tarefas servis e, então, posteriormente, como trabalhadores sociais que aconselham membros correntes de gangues sobre as falácias do estilo de vida. Caleb foi um dos primeiros clientes do programa, e o mais bem-sucedido. Aqui ele estabeleceu várias ligações significativas com pessoas que viviam um estilo de vida mais convencional e menos violento. Essas pessoas acreditaram nele e realmente o apoiaram – finalmente alguém estava “protegendo as suas costas.”

Uma parte fundamental do seu trabalho era falar com jovens rapazes sobre os perigos do envolvimento com gangues. Este mostrou ser um momento decisivo na sua jornada. Por meio da sua história de vida, ele orientou jovens garotos e garotas aborígines, ajudando-os a seguir outros caminhos – esta é a mensagem que ele queria ter recebido na sua tenra juventude.

O antigo eu de Caleb agora parece o estranho de quem ele tanto quis separar-se. Contudo, nós nunca escapamos plenamente dos nossos antigos eus. Eles sempre retornam para assombrar nosso presente. De muitas maneiras, enquanto procuramos novos começos, nós somos condenados a restar com um pé de apoio no passado. Para Caleb, a oportunidade a ele concedida para escapar tornou-se dialética. Por um lado, falar com jovens aborígines sobre o seu envolvimento com gangues era a brecha em que ele precisava investir para se desprender da sua vida de violência. Por outro, ao falar para plateias e tornar-se conhecido como “ex-membro de gangue”, a sua identidade restava presa àquilo que ele esperava que um dia fosse o seu antigo eu. A sua oportunidade para escapar tornou-se um pesado albatroz que o aprisionava num eu com o qual ele estava tentando romper. Esta tensão, esta dialética, continua a agitar o sentido de eu atual de Caleb.

Chegar plenamente a algum modo de ser diferente do seu eu de gangue está se mostrando difícil, mas Caleb luta para seguir em frente. Um dos problemas que ele encontra continuamente ao lutar pela e rumo à conformidade é o quão estreitamente o seu antigo eu está amarrado ao seu presente. Isto é, o seu eu masculino violento reside inconfortavelmente próximo à superfície da sua pele. Ele sustenta que:

a coisa mais difícil com que tenho tido de lidar desde que me endireitei são as mentalidades e as personalidades das pessoas. Posso dizer que ainda tenho traços de membro de gangue, ou de uma pessoa das ruas. Eu sei com certeza que levo isso comigo por aí.

Apesar de sua ruptura com a gangue, ele permanece preso em sua mentalidade. O seu eu subjetivo e as suas interações no mundo são moldados por uma vida chagada pela violência. Este antigo eu às vezes borbulha para vir à tona. Por ocasião do funeral do seu tio, que tinha apoiado o saída de Caleb, dois membros da família estavam fora da igreja fumando crack-cocaína. Ele considerou que isto o desrespeitava e a memória do tio.

Sei lá, eu quebrei. Eu disse “ei vocês, eu estou pedindo numa boa, dá pra vocês seguirem o seu caminho, sabe como é, ir para qualquer lugar que quiserem, mas não justo aqui”. Um dos caras se levantou e disse, “e que merda cê vai fazer a respeito?” O amigo dele se levantou e disse, “é, o que é que cê vai fazer” Então eu meti uma porrada num e uma porrada no outro e os dois apagaram. Aí finalmente eles se levantaram cambaleando e eu tirei meu paletó. Fiquei só ali, de pé, gritando, “vem, porra”, “vem”. Minha mulher me agarrou pelo braço e disse, “o que você está fazendo, o que você está fazendo?”

Escapar de um eu violento é cheio de armadilhas e perigos. Não há uma estrada fácil para alguém completamente outro. Nós nunca podemos nos desembaraçar completamente de nós mesmos, porque o eu antigo é um fantasma.

Recordações do antigo eu de Caleb não residem só perto da superfície, mas na sua pele. Seu corpo é coberto de tatuagens que servem como lembretes constantes. O seu eu violento está inscrito no seu corpo, não só em tinta, mas também na carne. Cicatrizes de violentas batalhas com membros de gangues rivais estimulam a memória de uma vida que resta desconfortavelmente à mão.

Nenhuma fuga pode romper completamente com aquilo de que se está saindo. Não obstante, a libertação necessária daquele eu antigo deita raízes quando resistimos (DERRIDA, 1976). Reconciliar o ser e, nas palavras de Jean Paul Sartre, “fazer alguma coisa daquilo de que fomos feitos”, é o desafio. Caleb luta diariamente rumo a este fim.

Conclusão

Muitíssimos jovens aborígines se esforçam para encontrar seu caminho no mundo muito embora sejam obstruídos pela pobreza, o racismo, o abuso de álcool e de drogas, a misoginia e a violência intergeracional (BENNETT E BLACKSTOCK, 2007; BASKIN, 2007). Através deste artigo eu liguei elementos da existência de Caleb com as tragédias do colonialismo. Isto dito, quase incompreensivelmente o primeiro-ministro Stephen Harper informou recentemente a uma plateia internacional que o Canadá “não tem história de colonialismo” (LJUNGREEN, 2009). Embora possa ser conveniente para o nosso primeiro-ministro descartar o passado violento e bestial do Canadá, jovens como Caleb são obrigados a suportar o seu legado. A história de Caleb nos lembra que o colonialismo não foi relegado à lixeira da história. Na sua esteira, vieram o desabrigo, a violência, a taxa grosseiramente exagerada de encarceramento e a extrema pobreza. O estar-no-mundo masculino violento de Caleb foi uma consequência da sua imersão em condições sociais lamentáveis e trágicas, amplamente decorrentes do legado colonial do Canadá.

Há muito a se ganhar epistemologicamente com o estudo de vidas individuais em vívidos detalhes. Por si mesmas, vidas individuais, como a de Caleb, provêm ricos detalhes sobre os significados subjetivos da violência. Parar neste ponto, contudo, seria prematuro. É imperativo que juntamente e dentro dessas narrativas intensas as condições estruturais intrínsecas ao ser ontológico dos nossos sujeitos sejam interrogadas e substanciadas. Eu mantenho que condições estruturais, tais como o colonialismo, pairam à volta e fora do indivíduo só para nele se incorporarem. Como tal, elas devem ser escrutinadas.

Apesar dos efeitos crônicos, Caleb conseguiu navegar, seguir seu caminho relativamente livre de uma vida saturada de violência. Mesmo que ainda assombrado por seu passado violento, ele desfruta um emprego de tempo integral, uma vida familiar ativa e pode ver futebol na televisão. A julgar pelos indicadores sobre encarceramento, alcoolismo, pobreza, homicídios e desabrigados, a maioria dos aborígines não tem tanta sorte. É preciso muito mais esforço para melhorar essas tristes condições de vida. Negar a história assustadora do colonialismo, como o primeiro-ministro do Canadá parece pretender, só contribui para agravar os problemas hoje enfrentados pelos aborígines.

Para proteger a identidade dos sujeitos de minha pesquisa, todos os nomes foram mudados.

* Lysol é uma marca de produtos desinfetantes. Há registro do uso por alcoólatras de algumas de suas fórmulas que contêm álcool. (N. do T.)

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Artigo recebido em 9/8/2010 e aceito para publicação em 30/9/2010.