UERJ I IMS I FAPERJ

icon

RESENHA
FREUD INDICA: OS CAMINHOS DA CRIAÇÃO1

Ana Beatriz Lima da Cruz *

* – Doutora em Saúde Coletiva (IMS-UERJ), Professora Adjunta do Centro Universitário IBMR, Psicanalista e membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos.

 

A Editora Civilização Brasileira está lançando, sob a coordenação de Nina Saroldi, a coleção Para Ler Freud. Trata-se de uma importante grade de leitura para o texto freudiano, que tem por objetivo despertar a curiosidade pela obra daquele que foi, e continua sendo para muitos de nós, um grande mestre da arte de construção de sentidos.

A coleção se organiza em torno da apresentação dos principais títulos da obra freudiana, considerando-se a importância dos mesmos para os tempos atuais. Assim, solicitou-se dos autores uma exposição didática do texto situando-o na obra e, além disso, uma discussão da pregnância dos temas para as questões da atualidade. A psicopatologia da vida cotidiana como Freud explica de Silvia Alexim Nunes e O mal-estar na civilização: as obrigações do desejo na contemporaneidade de Nina Saroldi são os dois últimos volumes publicados nesta coleção.

Com a publicação da Psicopatologia da vida cotidiana Freud não só pôde demonstrar a pertinência do conceito de inconsciente na normalidade como obteve um grande sucesso com o livro pela identificação do leitor com o tema. Silvia Alexim assinala como o conceito de inconsciente é forjado ou construído a partir de três temas. Num primeiro momento, Freud se utiliza da patologia para afirmar a existência do inconsciente através do sentido oculto dos sintomas. Num segundo tempo, os sonhos se constituem na via por excelência de acesso ao inconsciente. E num terceiro momento, a vida cotidiana dos normais com seus atos falhos é matéria-prima para a afirmação da determinação inconsciente de todos os atos da vida psíquica indicando, ao mesmo tempo, o papel do desejo e do conflito nesses atos.

Esse percurso teve suas sementes plantadas num tempo anterior. Há exatos 120 anos Freud relata seus impasses clínicos com as histéricas que sofriam de reminiscências e, para tais casos, propõe como solução a “magia das palavras” ou, se quiserem, o tratamento psíquico. As palavras, proferidas por um bom sedutor, são mágicas: têm o poder de eliminar as doenças (FREUD, 1891). Esta magia funciona na medida em que ele entende o psíquico como um aparelho de linguagem, ou seja, sua principal característica é a de fornecer sentidos. Assim, a doença psíquica pode ser definida como a perda da capacidade de dar sentidos. Um bom critério para se classificar os sofrimentos psíquicos de nossos dias, tais como: patologias da memória, autismos, compulsões e depressões, para citar algumas.

Silvia Alexim parte dessa discussão sobre a linguagem apresentada no texto Contribuições à concepção das afasias (1891) para demonstrar as trilhas pelos quais se forjou a primeira tópica freudiana, ou seja, o modelo de aparelho psíquico da Interpretação dos sonhos. Enfatiza, neste percurso, a ruptura de Freud com a psiquiatria ancorada no determinismo biológico, fisicalista e com a psicologia clássica da consciência.

As paralisias histéricas vêm desafiar a medicina moderna pautada na anatomoclínica. Esse paradigma associava o surgimento da doença a uma lesão no corpo. Assim, não havia sentido ou lógica para aquelas paralisias que não apresentavam correspondentes somáticos, as histéricas eram impostoras. De dentro dessa mesma medicina, Freud soluciona tal enigma ao propor um corpo representado para o histérico (BIRMAN, 2010). Este não obedece à lógica da racionalidade científica, mas sim à lógica do imaginário popular: troca lesões por história e sentido para marcar seu corpo. Histórias e sentidos que estavam inscritos numa segunda cena, a do inconsciente, e não na condição primeira da consciência e do eu.

Com a Interpretação dos Sonhos, a lógica do imaginário popular ganha sustância e é promovida à condição de metapsicologia. Se para a medicina científica o ato de sonhar era considerado disfunção do sistema nervoso, pois não havia psiquismo durante o sono, para a tradição popular, em contrapartida, os sonhos indicavam caminhos, eram portadores de sentidos. Eles vão se constituir, então, na via privilegiada de acesso ao inconsciente e, ao mesmo tempo, comprovação do psíquico para além da consciência diferente do que pensava a medicina científica identificada à psicologia clássica cartesiana.

Ainda na trilha da sabedoria do povo, o inconsciente é desvelado através dos deslizes da atenção consciente. Silvia Alexim percorre os caminhos freudianos da Psicopatologia da vida cotidiana assinalando o trabalho de pesquisa de Freud com ele próprio e entre seus amigos, ou seja, pessoas tidas normais para indicar que os lapsos de memória, os atos falhos, enfim, tropeços do dia a dia, deviam-se à intrusão do desejo inconsciente na consciência e no eu, independente da vontade deste. O eu não é soberano em seu território, como muitos gostariam que ele fosse.

A autora se encaminha para o final de sua leitura abordando, junto com Freud, a questão do determinismo psíquico. Essa hipótese da causalidade inconsciente, que percorre todo o livro, é fundamental para Freud não só se opor ao determinismo biológico da medicina científica como para alocar a psicanálise no campo científico. Essa tese não se sustenta por muito tempo, mas o tempo suficiente para cunhar no imaginário popular a expressão “Freud explica”. Aos poucos vão surgindo os ruídos dessa postulação teórica ancorada no recalque das representações. Os atos falhos não têm por característica comum uma representação recalcada. O aspecto comum a todas as suas formas é o seu caráter disruptivo. Este evidencia a dimensão intensiva e de força que funciona como motor daqueles atos. Tal aspecto possibilita outra leitura dos atos falhos: essas ações poderiam também indicar a colocação em ato da força pulsional sem representação.

A ênfase na dimensão econômica do psiquismo com a introdução do conceito de pulsão de morte leva Freud, em definitivo, para o campo do indeterminismo psíquico. A autora destaca que a partir daí surgem múltiplos e renováveis caminhos para a constituição da subjetividade. E essa via do indeterminismo entreaberta por Freud ocasionou uma ruptura ainda mais significativa com o discurso biologizante, determinista da medicina científica.

Essa perspectiva biologizante e determinista seguiu seu caminho e, a partir de 1970, ganha força com a expansão dos psicofármacos em duas vertentes, quais sejam: do determinismo genético e das neurociências. Esta última tenta reduzir o funcionamento da vida psíquica à bioquímica dos neurotransmissores. O cenário mudou bastante, mas experimentamos algo semelhante ao incômodo freudiano: o reducionismo do homem à sua condição biológica. Surge, então, como questão de honra, que se a gente não acha graça em ser ameba, se a gente não quer ser robotizado, melhor continuar buscando inspiração no texto freudiano, além, é lógico, nos dos poetas, para sustentar a potência dos afetos como forma de criação do novo e, assim, de novos sentidos e percursos para nossas vidas.

No entanto, como enfatiza Nina Saroldi, não é tão simples assim este trabalho de criação. Ela visita O mal-estar na civilização no intuito de encontrar inspiração em Freud para lidar com o mal-estar contemporâneo. A autora entende que Freud apresenta, nesse texto, a tese de que é preciso renunciar ao gozo para viabilizar a criação de cultura. Ela, então, indaga-se sobre como sustentar essa tese na atualidade, uma vez que nossa cultura não se pauta pela renúncia, mas pela incitação ao gozo.

Como pano de fundo para suas reflexões, a autora se vale da indicação de Freud, em Psicologia das massas e análise do eu, de que não há diferença entre psicologia individual e psicologia coletiva ou social. Estamos, desde sempre, lançados nos braços da cultura porque fomos forjados ou subjetivados a partir de um outro. Mais ainda, viver em cultura é sempre um mal-estar, pois não temos, de imediato, um objeto que nos apazigúe e o que se impõe é a dor. Daí a urgência de um trabalho de criação (BIRMAN, 2009).

Percorrendo os arredores de O mal-estar na civilização, através dos textos de cultura de Freud, Nina Saroldi não só alinhava com ponto firme a construção daquele texto, como visita os arredores contemporâneos relacionando-os às contribuições freudianas. Estabelece, neste percurso, um diálogo da psicanálise com as questões sociais tendo, desde já, como interlocutores alguns filósofos e sociólogos por considerar que esse texto é eminentemente filosófico e sociológico.

Isto posto é hora de se encarregar de O mal-estar na civilização propriamente dito. Ela explora, junto com Freud, os percalços dos tempos modernos indicando a condição de desamparo que a perda da proteção do pai gerou. E os filhos, assim desamparados, seguiram um caminho de “salve-se quem puder”. Na leitura de Nina Saroldi, as indicações de Freud, nesse texto, constituem-se numa dica de como evitar essa barbárie e, ao mesmo tempo, coloca uma das grandes questões que têm desafiado filósofos da ética e da política: é possível conciliar interesses individuais e coletivos por alguma via civilizatória ou este é um conflito insolúvel?

Com esses subsídios freudianos, a autora ingressa na última parte de sua reflexão: houve época mais feliz que a nossa? O mal-estar melhorou? Aqui, mais uma vez, ela escuta o mestre e procura fazer uma “patologia das comunidades culturais”. Toma Bauman por guia da pós-modernidade e aborda os diversos sofrimentos psíquicos de nossa época através das lentes da filosofia e da sociologia além da psicanálise, o que lhe permite escapar de um psicologismo do social. Com Zizek, assinala o surgimento de uma nova economia psíquica que não se organiza pelo recalque e sim pela exibição do gozo. À época de Freud, da sociedade de produção, o supereu foi concebido como barreira ao gozo; em nossa sociedade de consumo, o supereu incita ao gozo. Assim, muitos de nossos males se devem, em grande parte, à impossibilidade de pensar e agir coletivamente – perdemos a habilidade para discernir o que seja um interesse coletivo.
Para concluir, a autora entende que o mal-estar persiste e que uma boa e eficaz prescrição, para este quadro, é a leitura do texto de Freud. Em doses moderadas, ele se apresenta, ainda hoje, bastante potente para fazer frente à barbárie e favorecer a criação de novos ideais que suscitem apenas uma infelicidade comum.

 

Referências bibliográficas

BIRMAN, J. Discurso freudiano e medicina. In: BIRMAN, J.; FORTES, I.; PERELSON, S. (Orgs.). Um novo lance de dados: psicanálise e medicina na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2010.

_____. As pulsões e seus destinos: do corporal ao psíquico. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009 (Para Ler Freud).

FREUD, S. (1891) Tratamento Psíquico. In: Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (ESB). Rio de Janeiro: Imago, 1972.

Notas

1 Resenha dos livros: NUNES, Silvia Alexim. A psicopatologia da vida cotidiana: como Freud explica (Nina Saroldi organizadora). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, e SAROLDI, Nina. O mal-estar na civilização: as obrigações do desejo na contemporaneidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011. (Coleção Para Ler Freud.)

Recebida em 02/09/2011
Aceita para publicação em 20/09/2011