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OS ARQUÉTIPOS DO PENSAMENTO KANTIANO NA METAPSICOLOGIA DE FREUD E A SUA RUPTURA POR WINNICOTT: O RESGATE DA CAPACIDADE CRIATIVA DO INDIVÍDUO

Helena Colodetti G. Silveira *

* – Doutoranda em Direito Constitucional e Teoria do Estado pela PUC-Rio. Advogada e professora dos Cursos de Pós-Graduação lato sensu e extensão da PUC-Rio.

 

Resumo: O ensaio tem como objetivo apontar a continuidade dos avatares epistemológicos da modernidade nas formulações freudianas acerca da metapsicologia. A preocupação de Freud em inscrever a psicanálise no rol das ciências acarretou para sua teoria compromissos com uma matriz kantiana: redução do aparelho psíquico à analogia do homem-máquina; determinação causal das condutas e inescapabilidade do sujeito a certo destino trágico. Winnicot, ao seu turno, tem o importante papel de contraste à ortodoxia freudiana, na medida em que reintroduz no interior da constituição do psiquismo as especificidades das experiências históricas, bem como sua relação dinâmica com o ambiente, que também é protagonista no processo de formação do ego. Para ele, no cerne dos processos de individuação está a capacidade desta singularidade emergente de fazer escolhas, de exercer sua capacidade criativa, enfim, de ser livre, a partir de uma condição natural vital que não lhe chega de fora, opressora, mas que oferece ao sujeito a possibilidade de se constituir na história, com e pela natureza.

Palavras-chave: modernidade; epistemologia; Kant; metapsicologia; Freud; Winnicot.

Abstract: This essay aims to point out the continuity of the epistemological modern avatars on Freud’s formulations regarding metapsychology. Freud’s concern about labeling psychoanalyze as “science” caused sideways compromises with kantian matrix: reducing the psyche to the analogy “human-machine”; causative determination of behaviors; and inescapable destinies for human beings. Winnicot, on his turn, has the important role of contrasting Freud’s orthodoxies, since he reintroduces inside the psyche the very aspects of human historical experience with the environment, which has for him a leading role on the process of ego’s formation. To Winnicot, the core of individuation processes rests on the subject capacity of making choices, being creative, which means bottom line, being free, departing from a vital natural condition that doesn’t arrives from the outside, oppressing, but instead offers to the subject the possibility to constitute himself through history and nature.

Keywords: modernity; epistemology; Kant; metapsychology; Freud; Winnicot.

 

1. Introdução

Ícone da metafísica moderna, o pensamento de Kant, mais que uma filosofia, pretende estabelecer as bases epistemológicas para o desenvolvimento do conhecimento científico, não apenas da natureza, mas igualmente do agir humano. Dentro dessa empreitada, o nível de análise se desloca da descrição dos fatos e das condutas, para focar a reflexão sobre as possibilidades racionais deste mesmo material, respectivamente empírico e pragmático.

Kant passa a problematizar as condições do saber que almeja o título de científico, expressando seus limites através de testes da razão, a fim de apontar os traços que garantem a qualidade de ‘verdadeiro’ a determinada produção científica, ou de ‘livre’ a determinada conduta. Nesse sentido, os esforços kantianos transitam num segundo plano de análise, das metateorias, que se mostram ao mesmo tempo como um roteiro epistemológico e metodológico de cientificidade.

Esse modo peculiar de construção do saber próprio da Modernidade1 não nasceu com Kant, porém, a sistematicidade do seu pensamento e a difusão que obteve pela Europa permitem que este trabalho estabeleça um recorte. O objetivo é nos restringirmos às específicas contribuições kantianas ao paradigma moderno, seja nos seus elementos diretos, quanto naqueles acidentais, frutos de apropriações diversas feitas pelo próprio filósofo alemão de seus predecessores.2

Evidente que muitos dos pressupostos ontológicos e antropológicos das metateorias kantianas foram ocultados e naturalizados, retirando da reflexão histórica aquilo que deveria ser seu objeto de estudo.3 Entretanto, também os elementos prima facie da teoria kantiana foram submersos e incorporados das mais diversas maneiras pela produção científica e filosófica subsequente. Todavia, ao absorver as formulações kantianas, o filósofo ou cientista não se restringe a uma opção teórica, mas alcança a extensão das premissas epistemológicas. Como consequência, a influência kantiana tem uma repercussão que extrapola o ‘fazer’ científico, e se estende ao modo de ‘pensar’ científico, isto é, o kantismo vem associado a uma visão de mundo específica: o paradigma da modernidade.

Dentro desse contexto de comprometimento, a questão que se coloca é em que medida os ecos kantianos ainda ressoam no canto dos cisnes da Modernidade representada pela teoria psicanalítica ortodoxa? Em outras palavras, seria possível sustentar certo “kantismo de Freud” (FULGÊNCIO, 2007, p. 64), cuja consequência seria a continuidade do paradigma moderno, e não a sua superação pelo pai da psicanálise?

No curso deste ensaio procurar-se-á expor de maneira sintética as implicações deste tipo de raciocínio, a partir da análise das construções metapsicológicas de Freud, e, como contraponto, a sua refutação por Winnicott. O objetivo será evidenciar como o psicanalista inglês abandona os conteúdos semânticos da metapsicologia freudiana, reinterpretando-os no sentido de permitir ao indivíduo o uso da sua capacidade criativa na tarefa de autoconstituição como sujeito, em parceria com o ambiente que o cerca.
O foco, portanto, não estará na compreensão dos dilemas da prática clínica, mas, ao contrário, nos pressupostos paradigmáticos que orientam as próprias formulações teóricas, uma vez que não existe observação neutra, nem teorização a-histórica.

2. As influências kantianas na metapsicologia de Freud

Kant concebia a ciência em sentido amplo como uma atividade de resolução de problemas. O desafio científico, por assim dizer, consistiria em encaminhar soluções válidas para questões que demandam “razões” diferentes: (i) o conhecimento da natureza, envolta com os percalços de uma razão teórica, preocupada em estabelecer um saber verdadeiro, explicativo e fenomenológico; (ii) e a determinação do agir livre, operada pela razão prática do sujeito que se autodetermina porque autor de suas próprias leis morais.

Seguindo esta sistemática, também o homem poderia ser estudado segundo as diretrizes acima, isto é, como um elemento da natureza, regido por relações de causalidade dos fenômenos observados, passíveis de universalização e previsibilidade, a chamada psicologia empírica; ou ainda como sujeito moral, livre das determinações sensíveis, na área denominada por Kant de antropologia pragmática.

No campo da psicologia, portanto, não haveria espaço para o livre-arbítrio, de maneira que o enfoque dado por Kant é aquele que trata o homem enquanto fisiologia, máquina-pensante, submetida às leis físicas universais, inclusive em relação às condutas ligadas à satisfação dessa esfera de necessidade natural. Nessa perspectiva, a humanidade é considerada “somente como um espectador de suas representações” (KANT, Antropologia, parágrafo 5, apud FULGÊNCIO, 2007, p. 66), e não como soberano de sua vontade.
Como qualquer saber natural que almeja a condição de científico, a psicologia kantiana deveria ser tributária dos limites da razão teórica, cuja sistematicidade seria fornecida por uma metaciência da natureza: a metafísica,4 que pode ser compreendida dentro de um escopo maior de reflexão epistemológica. O cerne das indagações metafísicas se dirige ao processo de validação do conhecimento científico, a fim de se constituir num roteiro de garantia de veracidade dos resultados empíricos, ou, ao contrário, de falsidade dos mesmos.

Portanto, a chave principal do conhecimento verdadeiro no campo teórico, segundo Kant, seria a síntese que a razão realiza entre uma forma universal inata e um conteúdo particular oferecido pela experiência. É uma relação entre o sujeito e o objeto. Nota-se, todavia, que embora o sujeito do conhecimento seja dependente da esfera da necessidade (sein), a preocupação de Kant não é tanto com o objeto, não quer ele o empirismo. Seu foco reside justamente no que faz essa ligação entre o sujeito e o objeto. Em outras palavras, o que me faz perceber a realidade como fenômeno. Ora, o “eu penso” é que tem esse poder de ligação. Isso significa dizer que reside na unidade da consciência, portanto a priori e subjetiva, a capacidade de conhecer, que só tem sentido, contudo, enquanto voltada para o mundo sensível.

Mas também Kant está aberto ao saber especulativo, que, embora não possua a qualidade de científico, tem uma função epistemológica de grande valia para a metafísica. Nesse sentido, quando a razão passa a elaborar conceitos puros, sem qualquer referencial empírico (alma, Deus, força, massa, vg.), ela constitui apenas ideias, que possuem o papel de apresentar um pensamento problematizante, hipotético, crível, mas jamais verificável empiricamente. Segundo explica o próprio Kant,

Os conceitos da razão (…) são meras ideias e não têm, evidentemente, objeto algum em qualquer experiência, mas não designam por isso objetos imaginados e ao mesmo tempo admitidos como possíveis. São pensados de modo meramente problemático, para fundar em relação a eles (como ficções heurísticas) princípios reguladores do uso sistemático do entendimento no campo da experiência. Se sairmos deste campo, são meros seres da razão, cuja possibilidade não é demonstrável e que não podem também, por hipótese, ser postos como fundamento da explicação dos fenômenos reais (CRP, B 799, apud FULGÊNCIO, 2007, p. 67/68

A aplicação destas ideias especulativas tem lugar no momento em que se deve pôr fim à cadeia de explicações causais dos fenômenos empíricos. Ora, a partir do instante em que se expõe uma determinação causal, é preciso, num segundo momento, apontar a causa da causa, e assim por diante, até uma regressão infinita que deixaria o conhecimento científico diante do paradoxo de não haver uma causa primeira, o que arruinaria a cadeia de fundamentação para as causas secundárias. Para solucionar este problema, Kant faz uso justamente dessas ideias da razão, que, por carecerem de conteúdo empírico, poderiam ser utilizadas como ficções heurísticas, ou seja, um recurso epistemológico para pôr fim à cadeia de regressão causal dos fenômenos observados.5 De acordo com Fulgêncio,

Trata-se de estabelecer um ponto de partida em relação ao qual nenhuma causa deve ser procurada, uma causa incondicionada (PMCN, cap. 2). Não se pode encontrar essa causa incondicionada na experiência, ela é apenas uma ideia pura da razão, uma ficção heurística. Kant dirá que há duas possibilidades efetivas a serem consideradas como causas originais ou incondicionadas: a ideia de átomo, que constitui um ponto de vista mecânico, e a ideia de força, que constitui um ponto de vista dinâmico (…). [Este] suporia que os fenômenos e os movimentos deveriam ser explicados em função de forças motrizes, agindo na matéria e no encontro entre os corpos. Não se trata, nesse ponto de vista, de supor infinitas forças, (…) mas sim de considerar apenas duas forças básicas: as de atração e as de repulsão (2007, p. 68, itálico nosso).

Ora, a solução para o problema do fechamento da cadeia de explicações causais vai representar um dos principais exemplos de como os arquétipos do pensamento kantiano permeiam as formulações de Freud, tanto na forma de solucionar o problema como nos motivos que levaram à própria indagação.

Tal como Kant, Freud nos seus escritos iniciais coloca a psicanálise no rol das ciências naturais. Esta seria uma psicologia empírica, que lida com as manifestações do psiquismo humano, consideradas como ‘fatos’ passíveis de explicação. Segundo ele, “the intention is to furnish a psychology that shall be a natural science; that is, to represent psychical processes as quantitatively determinate state of specifiable material particles, thus making the processes perspicuous and free from contradiction” (1954, p. 345).6 Desta feita, o dever do analista seria fornecer as chaves de solução para os problemas clínicos, não apenas por conta do seu compromisso médico, mas principalmente em virtude de sua postura como cientista. Segundo esclarece o próprio Freud,

[...] sou de opinião que o médico tem deveres não somente em relação ao doente, mas também em relação à ciência. Com relação à ciência quer dizer, no fundo, com relação a muitos outros doentes que sofrem ou sofrerão do mesmo mal (1905e, p. 8 apud FULGÊNCIO, 2003, p. 132).

Seguindo as diretrizes epistemológicas kantianas, os fenômenos psíquicos são encarados por Freud como dados empíricos que deveriam ser coletados, estudados e solucionados. O homem e as suas manifestações psíquicas são compreendidos fora de um contexto criativo, contingente, mas, ao revés, inseridos numa trama de explicações, cuja regra é a da determinação causal. Seu comportamento é fruto do conflito de várias forças, como a libido e a agressividade, sobre as quais não se tem quase nenhum controle, e, pior, que sequer se tem consciência (HELLER, 2005, p. 184). O papel da psicanálise seria justamente o de alterar comportamentos indesejáveis a partir do momento em que expõe as determinantes inconscientes, de forma a modificar o seu curso causal, mas sem questionar as próprias relações de determinação.

Com efeito, a inquietação de Freud é, acima de tudo, uma inquietação moderna, e, em grande medida, kantiana, residindo nos pressuposto que tornarão científicos, isto é, verdadeiros e não contraditórios, as descobertas do campo da empiria anímica. Este tipo de indagação não pode ser respondido no bojo da práxis clínica, que opera num nível primário de resolução de problemas. Ela exige um esforço suplementar do cientista, que deve recorrer a uma metateoria para fornecer o arcabouço epistemológico necessário para consolidar a psicanálise.

Tal como a metafísica serviu de amparo para a estruturação das ciências da natureza, a metapsicologia de Freud pode ser compreendida como uma variante da metafísica aplicada à psicanálise, com as especificidades próprias da nova ciência. Assim, a metapsicologia de Freud procura refletir não imediatamente sobre os dados clínicos, como se fosse uma instância legitimadora destes, mas sobre categorias fictícias que ajudarão a estruturar e organizar estes mesmos dados. A relação, portanto, é de coordenação e não de subordinação entre os dois níveis da teoria.

O problema da necessidade de pôr fim à cadeia infinita de relações causais da metafísica kantiana é retomado sob novas premissas. Ao invés de se procurar uma causa incondicionada que permitisse o fechamento coerente de determinado saber natural, a metapsicologia de Freud tem como foco apresentar explicações meramente especulativas, sem conteúdo empírico, para problemas de natureza psíquica. A questão se desloca, logo, para a apresentação de soluções provisórias, hipotéticas, para uma ciência que ainda não possui vigor experimental suficiente para deixar de recorrer às hipóteses para resolver os problemas da psicologia do inconsciente, mas que tão logo o detenha, possa ir progressivamente abandonando os mecanismos especulativos que lhe dão sustentação. Como disse Freud, “me pareceu legítimo completar as teorias, que são expressão direta da experiência, por hipóteses que são apropriadas ao controle do material, e que se reportam aos fatos que podem se tornar objeto de observação imediata” (apud FULGÊNCIO, 2003, p. 137).

A metapsicologia, assim, pode ser explicada como uma superestrutura especulativa (LOPARIC, 2003, p. 12), uma ficção heurística, que vem no auxílio do analista para ordenar e dar sentido ao trabalho empírico, este sim verdadeiro fundamento da ciência psicanalítica. Os conceitos metapsicológicos são predominantemente operativos, isto é, possuem o papel de preencher os vazios explicativos que o cotidiano da observação clínica ainda não conseguiu determinar. Não configuram como os fundamentos da psicanálise, que, como toda ciência da natureza, deve repousar sobre a experiência sensível, e não sobre o uso especulativo da razão, marcada pela indeterminação dos seus conceitos. Daí o motivo pelo qual estas categorias fictícias podem ser trocadas, tão logo se mostrem insuficientes para lidar com a base empírica. A metapsicologia, portanto, não tem a função julgadora de determinar o que faz parte ou não dos domínios psicanalíticos, como uma espécie de superior hierárquico. A distância que possui da prática clínica é somente aquela suficiente para lhe dar perspectiva reflexiva, capaz de auxiliar nas formulações hipotéticas que darão norte ao psicanalista nos pontos em que a experiência ainda não avançou o necessário para dispensá-las.

O léxico da metapsicologia de Freud igualmente se aproveita da matriz kantiana, tendo o pai da psicanálise optado por um ponto de vista dinâmico como metodologia estruturante. Nesse contexto, Freud concebe o psiquismo como um aparelho, movido pelo jogo de forças em conflito, e que lhe empurra e dá vivacidade, formulando daí toda a sua teoria sobre as pulsões de vida e de morte:

Não queremos apenas descrever e classificar as aparências, mas concebê-las como sinais de um jogo de forças dentro da alma, como expressão de tendências dirigidas para fins, e que trabalham umas de acordo com as outras, ou umas contra as outras. Esforçamo-nos por elaborar uma concepção dinâmica das aparências psíquicas. Nessa nossa concepção, os fenômenos percebidos devem ficar em segundo plano, atrás das tendências apenas supostas (FREUD, 1916-17, p. 67, apud FULGÊNCIO, 2003, p. 141).

Mesmo sendo especulações, ainda assim os conceitos metapsicológicos são “naturais”, isto é, são causais. Logo, não há espaço para a autodeterminação do sujeito que não é senhor do seu psiquismo, no sentido de que não pode ele escapar do jogo de forças entre Eros e Tanatos. O que lhe resta, contudo, é tentar controlar os rumos da dinâmica, mas nunca eliminar o conflito. Este é inerente ao psiquismo humano. Essa naturalização da teoria pulsional acaba retirando o próprio psiquismo da história, e o substituindo por um fatalismo do sentimento de culpa, do mal-estar da civilização, que é projetado também para o âmbito cultural, determinando-o.7

Todos os conceitos metapsicológicos (pulsão, aparelho psíquico, energia sexual, vg.) pressupõem uma relação entre sujeito e o objeto do seu desejo, como sendo algo externo e distinto daquele que o deseja, mesmo que seja de fato outro ser humano.

Enfim, a utilização da metapsicologia aponta muito sobre o tipo de ciência que Freud quer, e o tipo de cientista que preza ser. O saber verdadeiro, tal como advogava Kant, é o saber empírico. As especulações possuem sua função de tornar operativo o sistema causal de explicações, mas não são elas mesmas os fundamentos da ciência. O grande traço distintivo de Kant e, via de consequência, de Freud, é que a metafísica ou metapsicologia não estão acima da ciência natural ou psicologia, como uma hierarquia entre princípios fundantes e dogmática aplicada. Elas são primeiramente parceiras na empreitada científica.

3. A ruptura paradigmática de Winnicott

A vasta experiência clínica com bebês e suas mães indicou a Winnicott que a metapsicologia de Freud se mostrava insuficiente para lidar com alguns fenômenos que escapavam das construções basilares da psicanálise ortodoxa, tampouco suas diretrizes terapêuticas se mostravam eficazes para eliminar o sofrimento dos pacientes. Diante dessa inquietação, as reformulações feitas pelo psicanalista inglês devem ser entendidas sob perspectiva que transborda o simples falseamento empírico de explicações teóricas prévias, para ir residir num novo horizonte, muito mais amplo: como repensar a psicanálise como ciência, e quais deveriam ser então seus novos pressupostos ontológicos:

Estou tentando descobrir por que é que tenho uma suspeita tão profunda com esses termos [metapsicológicos]. Será que é por que eles podem fornecer uma aparência de compreensão onde tal compreensão não existe? Ou será que é por causa de algo dentro de mim? Pode ser, é claro, que sejam as duas coisas (WINNICOTT, 1987, p. 51, apud FULGÊNCIO, 2003, p. 168).

Winnicott refuta a necessidade de uma metapsicologia, de cunho especulativo, e, por isso, também seus conceitos-chave de pulsão, aparelho, libido, procurando fundar uma psicanálise com base exclusiva na experiência, sem reduzir, contudo, o fenômeno psíquico à objetividade naturalizante de Freud. Ele opera essa virada paradigmática reintroduzindo no interior da constituição do psiquismo as especificidades das experiências históricas, bem como sua relação dinâmica com o ambiente, que também é protagonista no processo de formação do ego.

A ontologia do sujeito não é mais aquela determinada pela natureza, que existe objetivamente no tempo e no espaço como uma representação externa de uma máquina pensante que funciona segundo leis causais. Na ontologia winnicottiana, há um resgate da parceria entre natureza e sujeito, expressada pelo conceito de psicossoma, que exprime justamente uma relação de integração entre os elementos culturais e naturais de constituição do psiquismo, que será constantemente revisitado no curso do processo de amadurecimento. Nesse sentido, o psiquismo não opera segundo um aparelho movido por pulsões voltado para a satisfação objetal externa, mas, ao contrário, possui uma relação de integração com o ambiente, que facilita ou dificulta o crescimento. Conforme expôs Plastino,

Winnicott pensa a relação da cultura com a natureza que se afastam tanto da disjunção quanto da redução (…) No ponto de partida desta reflexão Winnicott postula sua perspectiva vitalista, pensado como uma tendência inata ao desenvolvimento do indivíduo humano. Partindo de um estado inicial de não integração (WINNICOTT, 2000a, p. 223), esta tendência caminharia, no contexto de um ambiente favorável, para a integração egoica, num processo dinamizado pelo erotismo e motilidade (s.n.d).

Ao invés de se valer da energia sexual ou das pulsões, Winnicott atribuiu à própria capacidade criativa de se constituir como “ser-no-mundo” (LOPARIC, 2006, p. 17), isto é, de atualizar suas tendências dentro das condições oferecidas pelo ambiente para explicar o que impulsiona a subjetividade. Portanto, para Winnicott, no cerne dos processos de individuação está a capacidade desta singularidade emergente de fazer escolhas, de exercer sua competência criativa, enfim, de ser livre, a partir de uma condição natural vital que não lhe chega de fora, opressora, mas que oferece ao sujeito a possibilidade de se constituir na história, com e pela natureza.

Nada há de determinista nessas tendências à integração ou personificação. São apenas linhas de força da nossa natureza, ou seja, de uma realidade virtual que só vem a ser na história concreta do indivíduo como atualização. Em outras palavras, como autocriação do sujeito em parceria com o ambiente facilitador. Segundo Fulgêncio,

Para Winnicott, o homem não é jamais considerado como um efeito, mas sempre envolve uma ação de dação de sentido ao mundo, ação na qual sempre está presente uma criatividade, seja na doença, seja na saúde. Para ele esta criatividade deve ser compreendida neste cenário propriamente humano à luz da sua teoria do amadurecimento pessoal (2007, p. 73).

Como consequência, a relação do sujeito com o meio que o circunda deixa de ser meramente objetal, e perpassa pelo movimento dúplice de individuação a partir do reconhecimento da alteridade como humanidade, ao invés de simples objeto. Assim, para ser sujeito, o indivíduo deve conquistar a capacidade de ver o outro como algo distinto e também singular.

Winnicott, portanto, vai refutar o fatalismo do sentimento de culpa e do mal-estar da civilização, dando espaço para a reinvenção humana na história, entendendo o conflito como positivo, se desenvolvido de forma sadia, pois implica acima de tudo na capacidade de criação do indivíduo. A cultura constitui o espaço de exercício da sua criatividade, e não a instância necessária de repressão dos instintos primários em confronto. Criticando Freud, diz Winnicott:

Nas suas formulações teóricas iniciais ele [Freud] estava interessado no id, nome pela qual ele se referia aos impulsos instintivos, e no ego, nome pelo qual ele chamava aquela parte do eu total que se relaciona com o ambiente. O ego modifica o ambiente para conseguir as satisfações para o id, e freia os impulsos do id para que o ambiente possa oferecer o máximo de vantagens, do mesmo modo para a satisfação do id. Mais tarde (1923) Freud usou o termo superego para denominar o que é aceito pelo ego para o uso no controle do id. Freud lida aí com a natureza humana em termos de economia, simplificando o problema deliberadamente com o propósito de estabelecer uma formulação teórica. Existe aí um determinismo implícito em todo esse trabalho, a premissa de que a natureza humana pode ser objetivamente examinada e que podem ser aplicadas a ela leis que são conhecidas da Física (1990, p. 20).

Em última instância, o giro de Winnicott pode ser pensado em termos mais filosóficos, isto é, como uma refutação do essencialismo platônico, e o resgate da ideia de devir, de acontecer na história, de virtualidade da natureza humana. Esta, aliás, é a chave do seu pensamento e a motivação de suas reformulações, pois a ‘natureza humana’ para ele nada mais seria que uma ‘experiência humana’, no sentido de açambarcar a variabilidade das escolhas criativas do indivíduo na história, e, assim, a partir das diversas singularidades, extrair das diferenças o potencial unificador da capacidade criativa que conferiria a qualidade de humano ao sujeito historicamente livre.

4. Conclusão

As influências kantianas não chegaram ao pensamento de Freud sem o custo também da continuidade em vários aspectos do paradigma moderno, apesar da abertura feita pelo pai da psicanálise ao inconsciente e aos afetos.

Persiste, contudo, a preocupação basilar com a mensurabilidade e previsibilidade dos fenômenos. Determinação implica eliminar a dúvida, e consagrar a certeza como o grande valor para o paradigma moderno de cientificidade.

Todavia, Freud, ao levar a natureza para o interior da psique humana, tem ao mesmo tempo de explicar o paradoxo de como indivíduo determinado por suas paixões pode ser ele também sujeito da história, isto é, ser livre. Não fica claro o papel da liberdade na metapsicologia freudiana, mas se pode apenas especular um início de reconciliação pela via da retomada da dicotomia principal kantiana entre ‘razão prática’ e ‘razão teórica’, entre ‘ser’ e ‘dever ser’. Assim, o sujeito da psicanálise ortodoxa seria sempre um sujeito cindido, e não total, no sentido de oscilar entre um ser determinado pelas paixões e um sujeito criador de sua história.

Winnicott, ao contrário, traz a incerteza para dentro da psicanálise, mediante ideias de ‘virtual’, ‘linhas de força’, que se mostram receptivas ao elemento criativo, e, portanto, ‘livre’, das estruturas psíquicas, reconciliando a empiria com a liberdade. Para o psicanalista inglês, não haveria dois sujeitos, um determinado e outro autônomo, tal como a lógica dualista kantiana-freudiana, na medida em que não há antítese entre natureza e liberdade. Esta também está aberta ao acontecer enquanto natureza virtual, que só irá se concretizar na história a partir da criatividade livre do sujeito.

 

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Notas

1 Embora não haja um conceito unitário de “Modernidade”, podemos provisoriamente defini-la como um processo no qual a razão é usada explicitamente como instância reguladora da vida, ou seja, a legitimidade das chaves de interpretação no mundo passa necessariamente pela capacidade de ser racionalmente justificada. Perdem lugar, portanto, a referência ao sagrado ou à tradição. Nesse sentido, ver Lima Vaz: “[...] entendemos aqui por modernidade o universo simbólico formado por razões elaboradas e codificadas na produção intelectual do Ocidente nesses últimos quatro séculos e que se apresentam como racionalmente legitimadas” (2002, p. 7). Mais adiante: “Modernidade, acepção com que aqui empregamos este termo, pretende designar especificamente o terreno da urdidura das ideias que vão, de alguma maneira, anunciando, manifestando ou justificando a emergência de novos padrões e paradigmas da vida vivida. Em suma, modernidade compreende o domínio da vida pensada, o domínio das ideias propostas, discutidas, confrontadas nessa esfera do universo simbólico que, a partir da Grécia, adquire no mundo ocidental seu contorno e movimento próprios [...]” (ibidem, p. 12).
2 A matriz cartesiana, que seculariza a alma no conceito da consciência, fazendo uma cisão entre corpo e mente, também está presente em Kant, e serve de exemplo das apropriações racionalistas que faz o próprio filósofo de Konisberg.
3 Sobre o humanismo liberal da matriz kantiana que está na base do conceito negativo de liberdade, diz Berlin: “Em sua versão a priori, (o humanismo) é uma forma de individualismo protestante secularizado, em que o lugar de Deus foi assumido pela concepção da vida racional e o lugar da alma individual que se esforça para unir-se com Deus é substituído pela concepção de indivíduo dotado de razão, esforçando-se para ser governado pela razão e tão somente pela razão, e a não depender de nada que pudesse desviá-lo ou enganá-lo cativando sua natureza irracional” (2002, p. 243).
4 Se a metafísica é a reflexão epistemológica sobre as ciências naturais, a metafísica dos costumes terá a mesma função para o agir moral, mantendo assim a dicotomia “ser” (mundo natural) e “dever ser” (mundo da liberdade) inclusive no campo de análise metateórico.
5 A norma fundamental de Kelsen pode ser compreendida dentro desse mesmo contexto de ficção heurística com o intuito de estabelecer um marco inicial de identificação das normas jurídicas pelo próprio sistema. A norma fundamental para Kelsen nunca teve a pretensão de possuir uma existência empírico-histórica, seria um recurso lógico, uma ideia crível, embora não verificável, que daria início à cadeia de reconhecimento do direito através da fonte.
6 Claro que no seu “Projeto de uma psicologia”, de 1895, Freud acaba por pecar por um ecletismo no trato dos sistemas neurais e dos processos psicológicos, exagero que o levou a renegar por toda sua vida este manuscrito. Todavia, o “Projeto” nos serve justamente para demonstrar de maneira rebuscada a ligação nunca totalmente rompida de Freud com a Modernidade. Como bem pontuou Lothane, “Freud was fundamentally a philosopher of mind, a person-oriented methodologist of mind. In spite of his medical education and his early career as a neuropathologist, his true love remained philosophy and it shaped psychoanalysis as a method of therapy and research: a unique empirical personalist psychoanalytic psychology, like none before it and none since. However, some of the materialism Freud acquired in his scientific days left an imprint on the Project and also endures in some of his later speculations about mind. Thus, he never abandoned entirely the determinist causes of behavior, as in his sexual instinctual drive theories in health and disease, which he cherished as his most important scientific contribution” (1998, p. 45).
7 “O que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode haver dúvida sobre sua eficácia, ainda que seu programa se encontre em desacordo com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias. (…) Assim, nossas possibilidades de felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição” (FREUD, 1974, p. 94-95).

Recebido em: 08/05/2012
Aceito para publicação em: 04/06/2012