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O DISCURSO DA TEOLOGIA POLÍTICA NA PRODUÇÃO CULTURAL DA VIOLÊNCIA MÍTICA
(COM HEIDEGGER E WALTER BENJAMIN)

João C. Galvão Jr. *

* – Realiza seu trabalho de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em Teoria Política pelo Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense.

 

Resumo: A tarefa a que o presente trabalho se propõe não se deixa enquadrar no discurso da nomeada “Teologia Política” sem alguma explicação, uma vez que os ditos “elementos” deste discurso não existem e sim intensidades em relações de força capturadas pela representação. Neste sentido, o reconhecimento do nomeado “humano” se dá na esfera da violência mítica da linguagem dos homens: no mundo da fala plena e da imagem. Por outro lado, trava-se aqui o encontro impetuoso entre Heidegger e Walter Benjamin.

Palavras-chave: linguagem; inconsciente humano; humanismo; violência mítica.

Abstract: The task which the present work proposes is not framed in the nominated speech “Political Theology” with no explanation; for the stated “elements” in this speech do not exist and yes intensities respecting the captured force from the representation. Therein, the recognition of the nominated “human” occurs in the sphere of the mythic violence in the language of man: in the world of Plane Speech and Image .On the other hand an attachment an impetuous meeting between Heidegger and Walter Benjamin.

Keywords: language; unconscious human; humanism; mythic violence.

 

HABITAS DUAS CASAS, tu, Eterno, in-
abitável. Por isso
nós construímos e construímos. Por isso
ela aí está, esta
pobre camarata, – à chuva,
aí está ela.
Paul Celan1

 

I. Do “pecado original” do espírito linguístico

E fez-se silêncio no céu quase por meia hora; e houve depois trovões e relâmpagos. E os sete anjos, que tinham as sete trombetas, prepararam-se para tocá-las. Quando o quinto Anjo toca sua trombeta, uma estrela cai na terra e abre o poço do abismo, de onde saem gafanhotos com poderes dos escorpiões, com a permissão de atormentar os homens, que sentirão vontade de morrer. Os gafanhotos assemelhavam-se a cavalos aparelhados para guerra, e estes possuíam rostos como de homens em combate. E tinham sobre si por seu Rei, um Anjo do abismo: Apollyon, que segundo o latim quer dizer exterminador.2

Apocalipse de João, “Escrito(s)” entre 94 e 96 d.C, trata do destino do Mundo de forma profética e imaginosa, na figura de anjos e dragões vermelhos, da vitória de Cristo sobre a Besta e de seu reinado pelos séculos dos séculos sobre o Mal – durante mil anos. Nesta leitura, da imagem do nomeado “poder teológico-político”, na vitória do bem sobre o mal, numa dialética de Apollyon, seguem-se ainda desgraças pelo milagre burguês. Apollyon ou Anjo exterminador está preparado para o combate. Neste combate inúmeras vidas serão sacrificadas pela interferência imediata do “soberano-deus”, interferência pelo milagre ou no excesso da segunda natureza: estado de exceção.

A derrota do nazifascismo não deteve a sociedade industrial ou segunda natureza de chegar em seu excesso institucionalizado na exceção: “Nem a razão hegeliana, nem a razão marxista se aproximaram da realização; nem o desenvolvimento do espírito, nem o da revolução tomaram a forma visada pela teoria dialética”,3 a teoria dialética na prática tomou a forma de Apollyon.

Numa atitude realista (alguns Filósofos do político falam em um realismo político – não menos ideológico), Carl Schmitt chega a declarar que “no dia em que Hitler subiu ao poder, Hegel, por assim dizer, morreu”.4 Ou seja: no dia em que Hitler subiu ao poder, o Estado como razão morreu. Por isso, na contemporaneidade, defender o Estado não é defender o Estado propriamente dito, mas sim defender o nomeado Estado de exceção; “ateísmo” [vários “ismos”...] doutrinário que substitua o fetichismo religioso por um fetichismo estatal. Na base deste “ateísmo”, o que se encontra é a vontade de verdade; a consciência cristã traduzida em consciência científica, em limpeza [“imunização”] intelectual a qualquer preço.5 Questões emergenciais colocadas por Marx no texto Sobre a Questão Judaica: a crítica da religião encontra-se “fundamentalmente acabada”, sendo necessário colocar na ordem do dia a “crítica não religiosa”6 – o simples anticlericalismo burguês não vai ao fundo das coisas; o “Estado” e/ou estado tem necessidade de ilusões – a autoalienação humana em sua forma sagrada ou sacralizada.

Esses singulares [Abseitigem] [“Outsiders”] de hoje, esses irredutíveis em uma coisa, na exigência de asseio intelectual, esses duros, severos, abstinentes, heroicos espíritos que constituem a honra do nosso tempo, todos esses pálidos ateístas, anticristãos, imoralistas, niilistas, esses céticos, efécticos, hécticos do espírito (todos sem exceção, de um modo ou de outro), esses últimos idealistas do conhecimento, únicos nos quais habita e está hoje encarnada a consciência intelectual – eles se creem tão afastados quanto possível do ideal ascético, esses “espíritos livres, muito livres” (…) estão longe de serem espíritos livres: eles creem ainda na verdade… Quando os cruzados cristãos no Oriente depararam com aquela invencível Ordem dos Assassinos, aquela ordem de espíritos livres par excellence (…) pois bem, isto era liberdade de espírito (…) algum espírito livre cristão, europeu, já se extraviou jamais nesta frase [“Nada é verdadeiro, tudo é permitido”] e em suas labirínticas consequências? Conhece por experiência o Minotauro dessa caverna?…7

As forças fracas precisam de “Estado” [ou da imagem do mesmo] e de processos de simbolização instituídos. Nesta sacralização do sagrado, o “Estado” tornou-se num mero instrumento do Capital na mão das classes dominantes e dos grandes grupos econômicos (incluo aqui seus intelectuais singulares [Abseitigem]). Ceticismo cristão, erguendo a cruz no terrível pano de fundo do não-poder-saber.8 O impulso de querer ter apenas certezas nesse âmbito é um retorno religioso – uma forma oculta e só aparentemente cética da “necessidade metafísica” acoplada ao pensamento ou sua reserva mental [Hintergedanke]; então, o “crente”, crente cético, está certo em não se preocupar com todo esse âmbito, não colocando na ordem do dia a “crítica não religiosa”.

A Gestalt do político é “democrática”, seu espírito, teológico; o esqueleto político-jurídico apenas declara direitos burgueses, mas na prática, o que impera é a fantasia da vontade de decisão do “soberano” [príncipe]: quem ou quais esferas tem o poder de decidir.

Hoje não se pode mais definir o âmbito político a partir do Estado, e sim, o que hoje ainda se pode chamar de Estado deve, ao contrário, ser determinado e entendido a partir do âmbito político. Mas o critério do âmbito político ainda não pode ser hoje uma nova substância, uma nova “matéria” ou um novo domínio autônomo. O único critério ainda cientificamente defensável é, atualmente, o grau de intensidade de uma associação ou de uma dissociação, ou seja: a distinção entre amigo e inimigo.9

Esta fantasia do “poder” de “decidir” vincula-se à noção de “inimigo” determinando o mesmo dimensionado pelo imaginário cristão. Esta concepção de “inimigo” [para além da esfera de uma política como uma arte que pulsa nas relações espectrais da vida da horda], inserida num processo secular da metafísica da escritura fonética, sempre deixou aberta [fechada] a relação entre linguagem e ser humano, revelando a prioridade da linguagem para os seres humanos – Ocidental –, resguardando a moralidade estrutural e hierárquica do Ocidente no combate da tradição cristã contra uma esfera da Gewalt [poder-violência] fora deste Estado [estado].

Ou seja: na ordem das imagens imaginárias, o inimigo sendo inumano por não participar das vozes ocidentais que ecoam de forma secular no Ocidente, com todas as consequências de barbárie que esta fantasia ou imaginário podem gerar na realidade. A este feito no espírito deste “político”, circulam três círculos pela realidade de determinar um inimigo, mas acima de tudo por supremacia de sentido; o dito “círculo borromeano” [Le noeud borroméen],10 antes de mais nada, tem seu passe pela questão do símbolo – é um símbolo.

Esta posição estratégica, campo da linguagem ligado à representação no símbolo do soberano com o dito “poder de decidir”, baseia-se no “pecado original” do espírito linguístico com a queda da própria linguagem na função de representação, encontrando no Nazismo o sentido do Cristianismo na fala plena do Senhor [imagem do príncipe dos príncipes soberanos] e na exploração política das técnicas [técnicas teológicas] de representação no soberano.

O reconhecimento do amigo se dá na esfera da “linguagem”, da fala plena e não da condição humana. Basta uma inflexão de voz ocidental nesta época milenar – imemorial –, histórico-metafísica para que o homem não reconheça o homem na sua condição humana, propriamente na sua condição inumana ou sub-humana. Nesta leitura, a linguagem passa a ser o reino da fala plena – neste reino mora o humano. A linguagem enquanto linguagem é em cada situação [civilização cristã] a linguagem humana enquanto discurso da voz e formação do inconsciente humano [l’inconscient humain].11 O homem [homo] se torna humano [humanus]. O cristão crê na humanidade do homem, na humanitas do homo, desde o ponto de vista de sua suspensão.

Sob o ponto de vista desta História imemorial [imagem da História] do sentido do símbolo cristianizado, homem como “filho de Deus”, que, em Cristo, escuta e assume a invocação do Pai. Neste imaginário, a humanitas do homo humanus é determinada a partir do ponto de vista de uma interpretação imemorial da História e seu fundamento. O Cristianismo é um Humanismo e qualquer humanismo permanece metafísico. Os melhores da dita “Filosofia política” queimam no inferno [reificada imagem inconsciente].

A “queda” da linguagem não é a queda na “corrupção do sangue” e na “mistura” ou a “queda” fora do ser, muito embora estas ideologias existam no perigo da “linguagem humana” – demasiada branca na ordem das imagens. A imagem da palavra falada “Judeu” encontrava-se através dos séculos no mítico “inconsciente coletivo ocidental” – demasiado humano.

II. Do limite do homo humanus

No decurso dos últimos séculos, estas formas tradicionais de tratamento e reconhecimento do homem foram acopladas pelos desenvolvimentos conjuntos de saberes biológicos sempre inseparáveis de técnicas de intervenção no seu objeto – inimigo – de transformação de seu objeto mesmo e do meio e do mundo de seu objeto, pelo adestramento sem nenhuma comparação com o passado, pela industrialização, manipulações humanas a serviço de certo estar e suposto bem-estar humano do homem ocidental. Da figura do genocídio não se deveria nem abusar nem se desembaraçar rápido demais, como lembra Derrida,12 por exemplo, em lugar de jogar um povo nos fornos crematórios e nas câmaras de gás, os médicos ou os geneticistas deveriam ter decidido organizar por inseminação artificial a superprodução de Judeus que, cada vez mais numerosos, deveriam ter sido destinados, ao mesmo inferno, o da experimentação genética imposta, o da exterminação pelo gás ou pelo fogo. Nos mesmos abatedouros industriais o sofrimento é intensificado pelo patológico mundo cristão na imagem imaginária da pureza do espírito.

Em vez de colocar essas imagens sob seus olhos ou de trazê-las a sua memória, o que seria ao mesmo tempo fácil demais e sem fim, direi apenas uma palavra deste “pathos”. Se essas imagens são “patéticas”, é também por que elas abrem pateticamente a imensa questão do pathos e do patológico, precisamente, do sofrimento, da piedade e da compaixão.13

A marca dessa humanidade seria a crueldade cristianizada [cruzeldade] – fazer sofrer e sofrer articulando-se estrategicamente com a soberania inextensiva no político. Eles se deram a palavra falada para dispor um grande número de viventes numa imaginária guerra de espécies: humanos e inumanos. Algumas espécies serão colocadas na “parte inumana da sociedade humana”,14 exatamente por serem separadas entre as espécies, ou seja, “entre espécies humana e o animal”.15 As decisões, com a força do poder da dimensão imaginária, com todas as suas consequências, metafísicas, morais, jurídicas, políticas etc., passam a depender do que se pressupõe ser o “inimigo” [imagem da espécie inumana]. Em sua condição humana o homem inumano privado de linguagem deixa esta condição para inserir-se à ciência do bem e do mal. O limite do homo humanus limitado pelo poder da substância fônica: o inumano ou o a-humano marcado por esta cruzeldade da humanidade sofredora nas imagens inconscientes do soberano senhor – imagem do espírito absoluto.

Este “espírito” [violência mítica] representa no político a ordem das imagens como aquilo que anula ou suspende o domínio interior e exterior da vida.

No mundo exterior, o Filósofo do político Carl Schmitt vai falar que enquanto a Filosofia Política do século XIX se baseou numa dicotomia entre o Estado e a sociedade [e a “sagrada” família], o Nacional-Socialismo substituiu esta dicotomia pelo Estado, Movimento [partido] e o povo. E o Estado não seria a realidade política última: o Estado seria superado pelo “Movimento ou partido” e a sua liderança. “O fato de no nosso Estado, existir apenas um titular da vontade política, o Partido Nacionalsocialista, foi expressamente sublinhado pelo Führer no seu discurso no Reichstag. Mas faz parte de uma sociedade politicamente organizada [Gemeinwesen], que se estrutura e ordena de tal modo em Estado, Movimento e povo, também o direito intrínseco próprio àqueles ordenamentos vitais e comunitários que sustentam o Estado e estão fundamentados de modo especial no juramento de lealdade ao Führer”.16 E esta liderança – carismática – teria o poder de decidir. A trindade hegeliana [La famille, la société civile, l’Etat]17 aparentemente desaparece,18 e no seu lugar, na prática, surge uma unidade totalizante ou total que devora todo o pluralismo de direitos e princípios burgueses.

O governo, na prática, é totalitário,19 as “democracias modernas” tornam-se “totalitarismos suaves”. O estado de exceção não declarado e portanto permanente nas “democracias modernas” é a prova por si só que “Hitler” venceu, ou seja, que o estado racional foi sacrificado em nome de um estado irracional. Na era das “neutralizações” políticas das massas, o conflito político social é dissolvido por uma elite que tem o poder de decidir sobre a instauração do “estado de exceção” [Ausnahmezustand]. Uma “permamente exceção”, que é a “regra”,20 pois que deste ponto de vista, do controle das massas, estas devem estar vulneráveis e dóceis, para que não venham a instaurar o “real [verdadeiro] estado de exceção” benjaminiano.

Os “novos” anjos na segunda natureza não precisam de asas, eles têm jatos e blindados, como “escudo de proteção”. Sua espada transformou-se na metralhadora. No entanto, as imagens do mal permanecem na figura [Gestalt] do inimigo, onde o lema dos anjos burgueses é o mesmo a serviço do soberano absolutista ou Deus: “Minha honra é a lealdade.” O impacto deste lema, formulado por Himmler, é difícil de traduzir. Em alemão, Meine Ehre heisst Treue indica uma devoção e uma obediência absolutas, que transcendem o significado da mera disciplina ou fidelidade pessoal. Uma obediência absoluta que lembra a expressão perinde ac cadaver,21 a renúncia a priori da liberdade e a rendição sem controvérsia da vontade. Mario Ferreira, em seu Prólogo sobre a Vontade de potência, de 1945, explica que a sentença perinde ac cadaver era a prescrição de Santo Inácio de Loyola aos Jesuítas, como norma de disciplina e obediência aos superiores. Toda mentalização desta cultura é para a formação de massas bovinas que transfiram sua vontade para a vontade do soberano – nazista ou cristão. Com exceção dos “nazistas”, nenhuma outra ordem religiosa pôs, como os jesuítas, a obediência em primeiro plano. Os seus membros são soldados de Cristo [imagem do soberano], obedecem cegamente e não se rendem, sequer, às maiores dificuldades.22

Em um de seus discursos, numa “passagem aberta para o Reino da vida e da paz”,23 Bento XVI, em 1 de novembro de 2009, comemorou os quatro séculos desde quando o Panteão, um dos mais antigos monumentos de cultura da época romana, foi destinado ao culto cristão e intitulado à Virgem Maria e a todos os Mártires: “Sancta Maria ad Martyres”, exortando a massa de fiéis a viver segundo o autêntico espírito cristão na anual Comemoração de todos os fiéis defuntos. Conscientemente, direcionando a estratégia do discurso às massas vivas; inconscientemente, transformando-as em massas mortas obedientes como um cadáver, reflexo [espelho] imaginário dos “fiéis defuntos” em absoluta devoção à imagem do soberano.

Na linguagem [Casa] cristã, uma identificação ao Juramento de Fidelidade que o soberano exigia a todos os oficiais e membros das forças armadas. O juramento rezava:

Faço perante Deus este sagrado juramento de que renderei incondicionalmente obediência a Adolf Hitler, o Fühter do povo e do Reich alemão, supremo comandante das forças armadas, e de que estarei pronto como um corajoso soldado a arriscar minha vida a qualquer momento por este juramento.24

Os anjos na segunda natureza transformaram-se em águias puras turbinadas na luta contra a Gestalt do “mal” ou “inimigo”. Na democracia liberal da segunda natureza, os anjos não precisam ser mais secretos, pois têm toda “legitimidade” das massas para exterminar a própria massa. Evidentemente, no final do século XIX, não se poderia sonhar com a emergência do complexo industrial-militar como agente todo-poderoso e efetivo do deslocamento das contradições internas da segunda natureza.25 Esta sociedade produtora de mercadorias não é apenas força de produção, mas também força destrutiva, e estas forças fornecem ao Capital em crise novas margens de expansão. Num complexo industrial-militar, as forças destrutivas atuando na segunda natureza em nome da lei do Capital se mantêm na esfera da dita “Teologia Política”; nenhum sistema político pode sobreviver sequer a uma geração, unicamente com técnica e afirmação do poder,26 renascendo ou emergindo de séculos em séculos a Gestalt do inimigo, por outro lado, a imagem do Anjo exterminador.

Apollyon, numa pós-modernidade cibernética, encontra-se aparentemente nas máquinas [a exemplo do computador Hal 900027]: infalível e impossível de cometer erro, perfeição em suas habilidades, com a missão de vigiar o inconsciente [na “hibernação”28 não se sonha: não se deseja]. O olho de Hal é o mesmo do Exterminador. Na pós-modernidade o Anjo exterminador (a figura de Apollyon enquanto imagem) é um organismo cibernético que apaga os traços e elimina as intensidades. Apollyon é o próprio humano [discurso humanista] enquanto imagem e organismo dominado pela cibernética.29

A “cadela que pariu”30 “Hitler” está constantemente no “cio”, o parto pode ocorrer em vários lugares do mundo, ou seja: a permanente exceção não declarada dos mundos. A verdade desagradável é que a crise estrutural – estrutura transcendental – da segunda natureza não mostra nenhum sinal de se abater, pelo contrário, a crise se aprofunda com o passar do tempo trazendo a destrutividade em todas as esferas do domínio: a produção destrutiva sob a forma das guerras sem limites31 encontra “legitimidade” no poder da imaginação na figura política do inimigo. O aumento das forças de produção é a perigosa multiplicação das forças de destruição, não importando o quanto sejam devastadoras as consequências da imposição de um projeto fetichista de extermínio das massas e expansão incontrolável da segunda natureza em excesso. Para controlar o excesso naturalizado da segunda natureza, o instrumento político-jurídico de fundo teológico estado de exceção torna-se a regra. Seu excesso é naturalizado na exceção.

Numa leitura normativa da dita “Filosofia Política”, tanto nos Estados totalitários, quanto nos totalitarismos suaves, este último, forma de governo conhecido e nomeado de “democracia moderna”, o Estado de exceção está presente. Naqueles, o Estado de exceção é declarado; nestes, o Estado de exceção não é declarado, com isso, torna-se a regra, de forma permanente. Isto não impede que nas “democracias modernas” se instaure declaradamente um Estado de exceção e que nos Estados “totalitários” se corte a própria carne.

Nesta tradição do discurso filosófico, que traz a ordem da experiência do consciente, da mesma forma que Carl Schmitt, o conhecido criador do conceito moderno de soberania, Jean Bodin, a tornar-se um decisionista no sentido do poder do Estado soberano,32 passa a habitar o mundo exterior desta “soberania”; na verdade, as nomeadas “marcas de soberania”,33 ou suas “verdades”, passam antes de mais nada pela linguagem; estas marcas são antes de mais nada marcas psíquicas de uma experiência interior.

Para além desta normatividade do discurso filosófico, a problemática insere-se na soberania que não reina a não ser sobre aquilo que ela é capaz de interiorizar – soberania da imagem.34

A “política de extermínio” [Apollyon ou do Anjo exterminador] que toma efetivamente a forma do genocídio35 pelo seu instrumento político-jurídico-teológico estado de exceção, revelando-se na realidade pela barbárie, declarado ou não, toma forma instrumental no social no domínio das almas das massas humanas; no modo de vida burguês ou segunda natureza em excesso naturalizada na exceção a subjetividade encontra-se eclipsada pelo “poder teológico-político“ e pela ”lei do valor“. Não há subjetivação por parte das massas e uma consequente ética, pelo contrário, existe uma estetização (ou posição estetizante das coisas) das relações encontrando na pureza do belo a moral transcendental (coisa que os “nietzschianos” não perceberam), legitimando por parte deste rebanho de humanos seu próprio extermínio.

Situações de alarme nas “democracias modernas”, principalmente o alarme permanente, é um forte indício de que as democracias não são democracias, e que o modo de vida da segunda natureza somente é possível através de uma política de extermínio ou estetização da violência. A centelha chegou à dinamite,36 a segunda natureza revela suas contradições internas e explodiu por si própria, ou melhor dizendo: implodiu. A “vitória” das forças absolutistas ou contrarrevolucionárias revela ao mesmo tempo sua “derrota” e o processo imaginário de “secularização” do “poder” “teológico-político” no combate contra o “mal”.

Talvez, este domínio da metafísica do mal antes ainda se fortifique e isto sob a forma da técnica pós-moderna [cibernética] e seu frenético desenvolvimento (im)previsível. Esta metafísica é (a partir da unidade unificadora da decisão) Teologia [ilusão] enquanto produção desejante. Talvez também tudo o que esteja na estrada desta História imemorial seja apenas utilizado como resultado de um pensamento representativo pela metafísica que continua perdurando por resíduos – resíduos imaginários –, produções desejantes. Mas, antes de mais nada, o problema surge da linguagem, da dificuldade que está na linguagem – pois que as línguas ocidentais revelam-se como línguas do pensamento metafísico.

Que é a linguagem? A linguagem não é a casa do “ser”. O que significa o morar?

Quando o Reitor fala que: “a linguagem é a linguagem do ser, como as nuvens são as nuvens do céu”,37 não percebe em seu próprio Humanismo [Cristianismo] que o céu não existe – o que existe é o Universo, suas energias. Quando o Universo se formou, a energia pura transformou-se em matéria. Energia e matéria uma noutra. Mas isso, o nomeador do Daisen [ideologia cristã] parece desconhecer. Reifica por outros meios uma sensibilidade religiosa cristã, “teologia sem Deus da coincidência dos opostos”.38

Por isso, a linguagem, para além do homo humanus, deveria ser interpretada como “linguagem em geral39 das coisas. “Nas coisas mesmas, a linguagem mesma não se encontra expressa de modo perfeito” (…) “As linguagens das coisas são imperfeitas, e elas são mudas. Às coisas é negado o puro princípio formal da linguagem que é o som.”40 Como a de qualquer comunicação linguística, a linguagem das coisas também tem a sua magia. Agora começamos também a compreender a “magia” da linguagem das coisas relacionando-se com a langage humain.41 Nesta “magia”, a linguagem deve existir como escrita material das coisas, não tendo seu passe pelo regime da representação.

Mas o que é incomparável na linguagem humana [langage humain] é que sua harmonia ou comunhão com as coisas é puramente espiritual e isto é simbolizado – representado – pelo som; o som do simbólico e o simbólico do som na estruturação imaginária do inconsciente humano e seu domínio. As coisas são cercadas pelas leis da fala.42 Mas, se esta palavra falada for um símbolo, pode significar tudo. “Seus símbolos, são deuses”.43 O símbolo [violência mítica] adquire a função de encobrimento da interpretação da linguagem em geral; organizando-se em seu interior um jogo de complexas oposições e forças reativas. A existência absoluta [um Absoluto que só se mostra ao se ocultar] dos símbolos representa seu “pecado original”; quando num mundo exterior esta representação passa a suspeitar da linguagem das coisas.

Enquanto os símbolos cristalizam a linguagem e sua expressão, a linguagem das coisas abre para a interpretação ao infinito. Se se quer interpretar, então os reflexos cristalizados devem ser fraturados. Diante dos símbolos e da linguagem em geral, nesta interpretação, a desconstrução destrutiva [déconstruction destructrice] faz-se necessária diante do retorno da linguagem das coisas.

III. Profissão de fé [e o habitar o silêncio]

A “vontade de decisão”, “vontade de união” na subordinação de uma comunidade nacional expurgada de seus elementos impuros, favoreceu o esforço nacional-socialista de conquistar o monopólio do poder estatal [violência mítica]. O nome oficial dado a esse processo de subordinação e sincronização foi Gleichschaltung, cujo significado literal é “mudar na mesma direção, linha ou corrente”.44 O objetivo da Gleichschaltung era o de produzir uma Volksgemeinschaft uniforme, uma comunidade nacional fundada na relação cultural e vínculo de parentesco “racial” na busca do objetivo comum da reconstrução nacional – a vontade de uma verdadeira comunidade-popular [Volksgemeinschaft].45 Este é um dos momentos culturais do discurso do Guia espiritual [der geistige Führer]46 do pensamento filosófico contemporâneo, culminando com a Confissão de fé de 11 de novembro de 1933: Profissão de fé em Adolf Hitler e no Estado Nacional-socialista [Bekenntnis zu Adolf Hitler und dem nationalsozialistischen Staat]. Em sua escrita fonética, declarava o Reitor:

O povo alemão é convocado pelo Führer a votar; mas o Führer nada pede ao povo, ao contrário, ele dá ao povo a possibilidade mais imediata da livre e mais grandiosa decisão, se todo este povo quer a sua própria existência ou se ele não a quer… O povo escolhe amanhã nada menos que seu futuro. O caráter único deste voto é a simples grandeza da decisão que se realiza nele. Essa última decisão se apodera do limite mais extremo do Daisen de nosso povo. E qual é este limite? Ele consiste nessa exigência originária de todo ser, que é a de conservar e salvar sua própria essência.47

“Retorno à essência do ser como Revolução Nacional-Socialista”, diria o Prof. Dr. Heidegger. A vontade de uma verdadeira comunidade-popular [Volksgemeinschaft]; “esta vontade cria a relação aberta e viril para si e de uns para com os outros entre povos e Estados. O que acontece em um tal querer? É uma recaída na barbárie? Não! Isto é a clara profissão de Fé na inviolável posição que é a própria de todo povo. Seria isto a negação da criatividade de um povo de Espírito e a destruição de sua tradição histórica? Não! É a ruptura inicial [Aufbruch] de uma juventude purificada retornando às suas raízes para crescer. Sua vontade de Estado fará com que este povo se torne duro contra si mesmo e respeitoso frente a toda obra autêntica” (…) “Essa vontade, o Führer a ofereceu ao povo como um todo para o seu pleno despertar e a fundiu numa simples e única resolução. Ninguém pode se abster no dia em que este querer se manifesta. Heil Hitler!”48 Todos deverão acreditar no Ser por meio de um ato de fé como pedem as religiões.49

“(…) do gelo em frente / acena aquele que é para mim / e para o mundo o mais perigoso / dos nomes”,50 escreve Paul Celan em sua experiência na forma de um resíduo cantável [singbarer Rest],51 “No poço do tempo”. Esse resíduo é a memória dos mortos. Esse “tempo” é o perigo de um “Ser” que não assina, é neutro ou neutral, não se posiciona. “Depois” do “Nazismo”, Celan volta-se para o Reitor e diz: “… e aí Heidegger ?”. Habitamos o silêncio. O mundo habitado pelo nomeado humano [discurso humanista] perdeu significado; a caminhada passa por portas fechadas em “Fuga da morte”:

Na Casa [linguagem] vive um homem que brinca com serpentes escreve escreve ao anoitecer para a Alemanha.
(…) E grita toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha.52

O alemão nazi referido no poema acima é o Mestre. A redundância “neutral” da confissão do Reitor no ano de 1933 tem, portanto, seu ponto de ancoragem em um acontecimento fundamental [Grundgeschehnis], um processo de sincronização ou ajuste perfeito entre os elementos visuais e sonoros. Uma teoria que de forma “neutra” está presa numa trama de conceitos neutrais tem suas relações com acontecimentos políticos e sociais; o massacre dos Judeus em perfeitas máquinas de morte [Leviathan cibernético53], construídas e estruturadas por Mestres neste ofício.

O Nazismo não nasceu no deserto [Le nazisme n’est pas né dans le désert]54 – nasceu na Cidade.

Nesta cultura do discurso do ser enquanto estratégia do poder, fica clara a posição heideggeriana nas derivações lexicais do Reich hitlerista, nas pesquisas sobre “A Filosofia heideggeriana e o Nacional-Socialismo”.55 Uma ideologia que chegou ao poder no vento de uma História imemorial, utilizando-se da linguagem sob as iniciais LTI [Lingua Tertii Imperii] – Língua do Terceiro Império. Nesta estrutura imemorial, o termo Völkisch atinge de fato mais que qualquer outro, sendo a germanização da palavra “nacional”, introduzida a partir de 1875 e divulgada sobretudo por volta de 1900 pela Liga Pangermanista, no sentido de um nacionalismo fundado sobre a doutrina e os dogmas da raça e, por consequência, decididamente antissemita.

Politicamente de extrema direita com forte característica antissemita [discurso da Filosofia Política do inimigo] precisando: “comum a todos os grupos Völkische [incluído aí os da “Cidade de deus”] é o símbolo da cruz gamada”56 na purificação ou limpeza [leia-se: assassínio em massa] da comunidade-popular.

Sobre este discurso do “ser” enquanto violência mítica, certamente, Paul Celan, sendo um filho de Auschwitz, responderia esta questão em seus silenciosos poemas.

 

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Notas:

1 CELAN, P. Habitas duas casas. In: Sete rosas mais tarde. Trad. João Barrento e Y. K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996, p. 112, 113.
2 Apocalipse 8:1; 8:5 (segunda parte); 8:6; 9:11.
3 MARCUSE, H. Raison et Révolution – Hegel et la Naissance de la Théorie Sociale. Trad. Robert Castel et Pierre-Henri Gonthier. Paris: Les Editions de Minut, 1968. Ver o Epílogo (escrito em 1954) da edição brasileira Razão e Revolução. Trad. Marília Barroso. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 367-374.
4 Idem, p. 464.
5 NIETZSCHE, F. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 147 [GM, III, § 27].
6 MARX, K. Sobre a Questão Judaica. Trad. Nélio Schneider Bensaïde e Wanda Caldeira Brant. São Paulo: Boitempo, 2010, p. 15.
7 NIETZSCHE, F. GM, III, § 24.
8 NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, vol. II, p. 19 [HH II, I, § 8].
9 SCHMITT, C. Teologia Política. Belo Horizonte: Del Rey, 2006, p. 76.
10 LACAN, J. L’Esprit des noeuds (1975). In: Le Sinthome. Paris: Seuil, 2005, Livre XXIII, p. 20.
11 DERRIDA, J. Et si l´animal répondait? In: L’animal que donc je suis. Paris: Galilée, 2006, p. 165.
12 “De la figure du génocide il ne faudrait ni abuser ni s’acquitter trop vite”. DERRIDA, J. L’animal que donc je suis. Paris: Galilée, 2006, p. 46.
13 “Au lieu de vous mettre ces images sous les yeux ou de les réveiller à votre mémoire, ce qui serait à la fois trop facile et sans fin, je dirai seulement un mot de ce ‘pathos’. Si elles sont ‘pathétiques’, ces images, c’est aussi qu’elles ouvrent pathétiquement l’immense question du pathos et du pathologique, justement, de la souffrance, de la pitié et de la compassion.” DERRIDA, J. L`animal que donc je suis. Paris: Galilée, 2006, p. 47.
14 LÉVI-STRAUSS. C. O Indivíduo como espécie. In: O Pensamento selvagem. Trad. Maria Celeste da Costa e Souza e Almir de Oliveira Aguiar. São Paulo: USP, 1970, p. 240.
15 Idem, p. 238.
16 SCHMITT, C. O Führer protege o direito: sobre o discurso de Adolf Hitler no Reichstag em 13 de julho de 1934. Trad. Peter Naumann (mimeo, s/ data), p. 224.
17 HEGEL, G. W. F. Précis de l’encyclopédie des sciences philosophiques. Traduction J. Gibelin. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1970, p. 275.
18 Pensando esta “cultura cristã” e não aprofundando a problemática levantada por Hegel entre a Igreja Luterana e a Igreja Católica, nesta “cultura”: “(…) a religião é a base da eticidade e do Estado. É o enorme erro de nosso tempo querer considerar esses inseparáveis como separáveis um do outro, e mesmo como indiferentes um ao outro.” “(…)A eticidade do Estado e a espiritualidade religiosa do Estado são as firmes garantias recíprocas” [“La moralité (Sittlichkeit) de l’Etat et sa spiritualité religieuse se prêtent ainsi l’une à l’autre une sérieuse garantie”]. Idem, p. 295, 300.
19 MARCUSE, H. Raison et Révolution – Hegel et la Naissance de la Théorie Sociale. Trad. Robert Castel et Pierre-Henri Gonthier. Paris: Les Editions de Minut, 1968, p. 459.
20 BENJAMIN, W. Sur le concept d’histoire (1940). Thèse VIII. Trad. Maurice de Gandillac. In: Oeuvres III. Paris: Gallimard, 2000, p. 433; Sobre o conceito da História. In: O Anjo da História. Trad. João Barrento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, v. 4, p. 13.
21 NIETZSCHE, F. Vontade de potência. Rio de Janeiro: Livraria do Globo, 1945, p. 65.
22 HERRMANN. P. A Conquista da Ásia. Trad. João Távora e Marina Guaspari. São Paulo: Boa Leitura, s/ data, p. 166.
23 L’Osservatore Romano www.vatican.va. Consulta realizada em 03.11.2009.
24 SHIRER, W. L. Ascensão e Queda do Terceiro Reich: Triunfo e Consolidação (1933 – 1939). Trad. Pedro Pomar. Rio de Janeiro: Agir, 2008, vol. I, p. 308.
25 MÉSZÁROS, I. Para além do Capital – rumo a uma teoria da transição, São Paulo: Boitempo: 2006, p. 675.
26 SCHMITT, C. Catolicismo Romano e Forma Política. Hugin, 1998, p. 31.
27 Filme 2001: A Space Odyssey (1968).
28 A “hibernação” é um processo (divulgado pelo cineasta Kubrick em seu filme 2001: A Space Odyssey) usado na missão dos tripulantes da nave espacial, comandada pelo computador Hall 9000. Os homens começam a “hibernar” antes da partida da missão para atingir a máxima capacidade de preservar a vida Quem cuida de quem está hibernando é Hall, uma inteligência artificial que pode reproduzir ou mimetizar a maioria das atividades do cérebro humano. Nenhum 9000 jamais cometeu erro [infalível], nem falsas informações. Hall fala e é visto pelos humanos da tripulação como uma pessoa humana. Precisão e perfeição são as marcas de Hall. O filme é um alerta em relação à tecnologia. Kubrick previu o futuro da natureza da alma humana, dominada pelas relações cibernéticas.
29 Ver o texto de LACAN Psychanalyse et cybernétique, ou de la nature du langage (1955). In: Le moi dans la théorie de Freud et dans la technique de la psychanalyse. Paris: Seuil, 1978, Livre II.
30 Leia-se: Cultura cristã logocêntrica.
31 MÉSZÁROS, I. A Teoria da Alienação em Marx. São Paulo: Boitempo: 2007, p. 14.
32 SCHMITT, C. O Leviatã na teoria do Estado de Thomas Hobbes – sentido e fracasso de um símbolo político (1938). Trad. Cristiana Filizola & João C. Galvão Jr. In: GALVÃO JR. J. C. Leviathan Cibernético – da quebra das máquinas ao Leviatã cibernético (Manifesto II). Rio de Janeiro: NPL, 2008, p. 228.
33 BODIN, J. Das Verdadeiras Marcas de Soberania. In: Os Seis Livros da República (Livro Primeiro). Trad. José Carlos Orsi Morel. São Paulo: Ícone, 2011, p. 292.
34 “la souveraineté de l’image”. BIRMAN, J. Je suis vu, donc je suis: la visibilité en question. In: Les Tyrannies de la visibilité. Paris: Érès, 2011, p. 43.
35 BIRMAN. J. Cadernos sobre o Mal: Agressividade, Violência e Crueldade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 114.
36 BENJAMIN, W. Alarme Contra Incêndio. In: Imagens de Pensamento. Trad. João Barrento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 44.
37 HEIDEGGER, M. Sobre o “Humanismo” – Carta a Jean Beaufret, Paris. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Victor Civita, 1973, p. 373.
38 VEYNE. P. A Despeito de Heidegger, o homem é um animal inteligente. Trad. Marcelo Jacques de Morais. In: Foucault: seu pensamento, sua pessoa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 122-123.
39 BENJAMIN, W. Sur le langage em général et sur le langage humain (1916). Trad. par Maurice de Gandillac. In Oeuvres I. Paris: Gallimard, 2000.
40 “Dans les choses mêmes, le langage même n’este pas exprimé de façon parfait. (…) Les langages des choses sont imparfaits, et ils sont muets. Aux choses est refusé le pur principe formel du langage, c’est-à-dire le son”. Idem, p. 152.
41 BENJAMIN, W. Sur le langage em général et sur le langage humain (1916). Trad. par Maurice de Gandillac. In Oeuvres I. Paris: Gallimard, 2000, p. 152.
42 “Que les lois soient par nous gardées (…) Ce sont les lois de la parole, par quoi la Chose est cernée”. LACAN, J. Le Triomphe de la religion – précédé de Discours aux catholiques. (1960/1974). Paris: Seuil, 2005, p. 64.
43 JUNG. C. G. Excerto de 16 de janeiro de 1916 do Livro Negro 5. In: O Livro Vermelho: Liber Novus. Trad. Edgar Orth. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 370.
44 STACKELBERG, R. A Alemanha de Hitler. Rio de Janeiro: Imago, 2002, p. 149.
45 FAYE, J-P. A Razão Narrativa – a Filosofia Heideggeriana e o Nacional-Socialismo. Trad. Paula Martins, Henrique Antoun e Joaquim Humberto Oliveira. São Paulo: ed. 34, 1996, p. 151.
46 Idem, p. 376.
47 Idem, p. 151.
48 FAYE, J-P. A Razão Narrativa – a Filosofia Heideggeriana e o Nacional-Socialismo. Trad. Paula Martins, Henrique Antoun e Joaquim Humberto Oliveira. São Paulo: ed. 34, 1996, p. 154. De forma truculenta, diria o Filósofo da Política Carl Schmitt: “Todo o direito tem a sua origem no direito do povo à vida.” SCHMITT, C. O Führer protege o direito: sobre o discurso de Adolf Hitler no Reichstag em 13 de julho de 1934. Trad. Peter Naumann (mimeo, s/ data), p. 221.
49 VEYNE. P. A Despeito de Heidegger, o homem é um animal inteligente. Trad. Marcelo Jacques de Morais. In Foucault: seu pensamento, sua pessoa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 124.
50 vom Eis gegenüber
nickt der selbst-
und gemeingefährlichste aller
Namen

CELAN, P. No poço do tempo [Im Zeithub]. In: A Morte é uma flor. Trad. João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1998, p. 110-111.
51 Idem, p. 133.
52 CELAN, P. Fuga da morte. In: Sete rosas mais tarde. Trad. João Barrento e Y. K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996, p. 15 e 17.
53 GALVÃO JR. J.C. Leviathan cibernético – da quebra das máquinas ao Leviatã cibernético (Manifesto II). Rio de Janeiro: NPL, 2008.
54 DERRIDA, J. De l’esprit. Paris: Flammarion, 2010, p. 139.
55 Ver o texto A Razão Narrativa – a Filosofia Heideggeriana e o Nacional-Socialismo de Jean-Pierre Faye.
56 Idem, p. 160.

Recebido em: 10/11/2011
Aceito para publicação em: 23/01/2012