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VOL.3 | Nº 2 | Julho – Dezembro 2012

PSICANÁLISE E DIZER VERDADEIRO:
PROPOSIÇÕES ACERCA DA ESCUTA PSICANALÍTICA DO MAL-ESTAR NA CONTEMPORANEIDADE

Margarida Maria Tavares Cavalcanti *

* – Doutora em Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ. Membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos.

Resumo: Interrogamos diferentes maneiras de a prática da psicanálise se configurar hoje, fazendo uso das figuras do “dizer verdadeiro” (parrhêsia) e do “dizedor do verdadeiro” (parrhesiastes) para problematizar a escuta e a fala no espaço psicanalítico, com seus efeitos. Se quisermos propor a psicanálise como uma prática de liberdade, precisamos pensar os diferentes modos como o analista exerce sua atividade de “dizedor do verdadeiro”.

Palavras-chave: “dizer verdadeiro”; Freud; Foucault; práticas de subjetivação; contemporaneidade.

Abstract: We work on the different ways psychoanalysis may be practiced today, making use of the figures of “real say” or “free speech” (parrhesia) and “free speaker” (parrhesiastes) to discuss listening and speaking in the psychoanalytic setting (or analytic space), with its effects. If we want psychoanalysis to be a practice of freedom, we need to work on the different ways the analyst exerts his or her activity as a “free speaker”.

Keywords: “to say true”; Freud; Foucault; practices of subjectivity; contemporary.

 

1. A verdade, onde está?

A positivação exclusiva dos efeitos de uma análise como resultado de gestos derivados da intencionalidade e da deliberação do analista sinaliza a presença, na psicanálise, do projeto de transformar o estranho em familiar, o outro no mesmo e neutralizar a conflitualidade que se apresente, por meio da enunciação da verdade.

Nessa perspectiva, o psicanalista operaria como agente de um entorno suposto coerente, benfazejo, estabilizado pela mediação de um firme poder pastoral. A pastoral médico/psiquiátrica acolhe a desrazão, mas na expectativa de neutralizar sua desmedida, acreditando dispor de poderes para tal.

Freud empreende seu percurso na perspectiva de neutralizar a dimensão trágica da experiência transferencial (BIRMAN, 1991a). Mas vê-se às voltas, no espaço analítico, com forças que resistem à recuperação interpretativa em redes de memória e linguagem. A economia pulsional no aparelho psíquico se problematiza e já não é mais possível ao analista aliviar o mal-estar de quem lhe fala ao enunciar, num ato interpretativo, a verdade desse mal-estar.

2. Dizer verdadeiro

Se considerarmos analista e analisando como polos pulsionais heterogêneos com dinâmica própria, experimentada na associação livre e na atenção flutuante, prepara-se um espaço para acontecimentos diferentes dos fenômenos de sugestão e hipnose. Torna-se possível pensar a experiência psicanalítica como uma experiência parresiástica de dizer verdadeiro, tanto para a figura do analista quanto para a do analisando, num contexto de liberdade. Assim, a prática psicanalítica se vê implicada nos últimos desenvolvimentos de Foucault sobre as práticas de si, e de modo especial no que se refere ao papel do dizedor do verdadeiro.

Na questão (…) ‘como o sujeito pode dizer verdadeiro sobre si mesmo?’ as relações de poder são elemento determinante. Se digo verdadeiro sobre mim mesmo é que, em parte, me constituo como sujeito através de relações de poder que são exercidas sobre mim e que exerço sobre outros. É preciso fazer a história da maneira como se estabeleceu a reflexividade de si para consigo e o discurso de verdade que se ligou a ela, num dado momento histórico (FOUCAULT, M., 1983b, p. 450-451).

Em conferências sobre a noção grega de parrhêsia (2001 [1983]), Foucault afirma que a problematização da verdade que caracteriza nossa filosofia tem dois aspectos. O primeiro enraíza uma “analítica da verdade” (preocupada em garantir que um raciocínio esteja correto quando tenta determinar se uma afirmação é ou não verdadeira) e o segundo enraíza nossa “tradição crítica” (preocupada com a importância de dizer a verdade, ter pessoas que dizem a verdade, reconhecê-las). É esta segunda vertente que é capaz de pôr em questão os fenômenos de dominação, de congelamento dos jogos de poder. Foucault implica a questão do “dizer verdadeiro” e de quem é encarregado de fazê-lo, é considerado capaz de fazê-lo, e de por que o faz, em qualquer luta contra fenômenos de restrição da liberdade. Isto põe em pauta a prática analítica e o papel do analista como dizedor do verdadeiro.

A questão é: como o sujeito humano entra em conjuntos de procedimentos de produção da verdade, cujos resultados podem ser considerados válidos ou não? Como se estabelecem as formas em que se articulam, num domínio de coisas, discursos suscetíveis de serem considerados, em seguida, verdadeiros ou falsos? “Subjetividade”, define Foucault, é a maneira como alguém faz a experiência de si mesmo, num jogo de verdade em que estabelece uma relação consigo (1984a, 1984c).

Tentando obter um instrumento mais eficaz contra os sintomas, os mal-estares que lhe eram trazidos, Freud modificou o dispositivo hipnótico/sugestivo que herdou, abrindo lugar para os jogos da resistência, criando um espaço analítico que é campo de relações de poder, de conflitualidade. Num sujeito, o estado de equilíbrio identitário é um estado de dominação da instância egoica, sustentada no amor ao objeto “eu”. O aumento da tensão de investimento em outras vias desestabiliza esses circuitos de satisfação solipsistas e impõe investimentos alteritários. A sublevação contra o estado de dominação intrapsíquico transborda para o espaço analítico; dependendo da maneira como o analista se posicionar, ele favorecerá ou dificultará a instauração de um campo onde as forças psíquicas possam jogar, enfrentar-se, construir história. Diferente de um espaço de obrigação de verdade. Prática de liberdade, num mundo governamentalizado.

Uma psicanálise, talvez, que admita a força de influência do médico na produção da verdade no espaço analítico, que não recue diante dessa força, mas que reconheça ao mesmo tempo a força de influência do doente, tirando consequências da constatação de Freud de que está no paciente a fonte dos poderes que revestem o médico. Sem concluir disso que o médico seja anjo, pois ele tem sua parte de responsabilidade no que vai se configurar como verdadeiro no espaço analítico.

Quem sabe deixar aparecer, no ato de analisar, que aquilo que se enuncia e crê ser verdadeiro num dado momento é associação livre do analista, ideia ocorrida em resposta a algo que veio do analisando e que o tocou. Isto deixaria à mostra os bastidores da atividade analítica de dizer verdadeiro, pondo na mesa a vulnerabilidade de um analista que é mediador e mediado, tão atravessado por campos de forças quanto o analisando.

3. Elaboração

Em que consiste exatamente a “elaboração”? Se quisermos afirmar a diferença entre psicanálise e psicoterapias sugestivas, temos de trabalhar o conceito, e sugerir que ele possa se definir como esforço na abertura de caminhos diversos, a partir da sugestão, da transferência erótica amorosa, mas reconhecidos os aparelhos psíquicos do analista e do analisando como não unitários, não identitários, “multicêntricos”. Isto dificultaria que a sugestão por parte do analista se configure como força capaz de, sozinha, imobilizar alguém na esperança da proteção pastoral. Mesmo que o analista seduza poderosamente o analisando durante algum tempo.

É o fato de que há força no paciente, de que seus efeitos atingem o analista, admitir a existência e o poder destes efeitos e propor trabalhá-los, jogar com eles, em vez de negá-los e buscar suprimi-los, que faz a psicanálise “escapar” de ser apenas uma técnica sugestiva. Na hipnose de Charcot e Bernheim os efeitos terapêuticos só surgiam quando o médico ocupava efetivamente o lugar de mestre onipotente; a insubmissão do sugestionado impedia que o dispositivo operasse. A psicanálise propõe um espaço que dê lugar a essa insubmissão, sem querer neutralizá-la por meio de manipulações sutis.

A onipotência do analista e de sua palavra se funda no eixo do narcisismo, pois é para preservar sua própria integridade narcísica que o paciente atribui poder à palavra do analista. Pequeno e fraco, é amado pelo mestre grande e forte que o protegerá. Quebrar o absoluto da mestria do analista é um movimento contrário ao movimento narcísico, implica uma refundação do eu, em experiências de satisfação e de dor no espaço analítico, decorrentes da instabilidade e da imprevisibilidade – de certa incoerência – da figura do analista. O mestre parresiasta cínico, que age de um modo que impede seu interlocutor de tomar sua palavra como absoluta, age contra a corrente centradora narcísica do interlocutor. Aparentemente, o mestre cínico desautoriza a si próprio, mas com essa “autodesautorização” ele impede que o discípulo estabeleça uma inteireza narcísica própria pela relação com um mestre que lhe permitiria instituir sua palavra como onipotente, por uma aparente coerência, um aparente saber, por dar a entender que a verdade existe e que ele a conhece, domina e é capaz de transmiti-la, prometendo ao discípulo esse acesso, segundo a vontade do mestre, caso o discípulo se mostre merecedor, segundo o critério do mestre.

Viderman sublinha que, para o eu do analisando consentir em investir toda sua libido no espaço analítico, é preciso, da parte do analista, uma atividade dissimulada em ausência de atividade. O hipnotizador impunha e prometia; sua onipotência era minada por seus fracassos e pela expressão dos seus desejos. Já o analista que se pretende neutro não impõe: sua entonação é homogênea e sem paixão, a atitude impávida. Para Viderman, isso tem uma eficácia de assujeitamento muito maior que a autoridade bruta da relação hipnótica. O personagem atrás do divã pode ouvir qualquer coisa envolvendo sentimentos que o põem em causa, e só responde com a interpretação, dotado de uma potência que faz com que o sentido de tudo que diz seja imediatamente evidente.

Ocorre que a distância entre analista e analisando é real. Deriva das multiplicidades desejantes de ambos, não precisa ser imposta artificialmente pelo analista; se este entende que precisa “criá-la”, é porque não acredita que a distância independa dele, que exista na “ordem das coisas” tal como a vivemos, todos, em nosso tempo, na multiplicidade de nossos investimentos. Acreditar que dependeria dele, analista, estabelecê-la, seria acreditar num poder infinito do seu próprio eu para unificar e tornar coerente sua própria pluralidade desejante. Esta crença encobre a distância que existe de fato, independentemente de qualquer atitude deliberada do analista.

Viderman observa que a reflexão teórica da psicanálise quis negar que a interpretação fosse uma forma de sugestão, prática histórica que sempre participou em qualquer terapêutica dirigida ao psiquismo e ficou sujeita a desconfiança pelos abusos a que se prestou. Mas sublinha que sugerir é um ato que pode ter conotação positiva. “Fazer uma sugestão” não implica imposição, quem a recebe pode ou não segui-la. Ocorre que, em psicanálise, quando o analista afirma um sentido, o paciente não tem meios para recusar a sugestão interpretativa, pois nunca é dado à sua recusa o valor de recusa verdadeira. O paciente perde, pela situação em que se colocou (ou deixou-se colocar) a possibilidade de ter reconhecida a validade de sua recusa (VIDERMAN, S., 1987, p. 231-232).

Falar de “enquadre” ou de “situação analítica” subentende uma metapsicologia da identidade, pois vela a dissimetria entre o recalcamento e aquilo que o retorno do recalcado atualiza. São diferentes as consequências do conceito de espaço analítico; este seria metaforogênico. Nele, o retorno do recalcado não é um reflexo do recalcado, é o que advém de novo no confronto entre as forças que pressionam e o estado que sofre a pressão. Quando se concebe o originário como uma origem sem origem, cria-se no ponto zero o vazio de sentido, que não pode ser preenchido pondo-se de volta o que foi; retira-se do originário o caráter pânico que priva o sujeito de liberdade, o futuro de modos de existência diferentes do passado reiterado e o sentido de qualquer criatividade (ibid., p. 258-276).

Para Viderman, se a obra estética inventa o verdadeiro, e se a análise tem parentesco com ela, como Freud indica na analogia via di porre/via di levare, o analisando não está no seu inconsciente, como a estátua não está na pedra. Não há nele nenhum sentido dado de antemão. O inconsciente do analisando será informado pela análise, na análise, como a estátua será esculpida pelo escultor. O espaço analítico deixa de ser um espaço de assujeitamento, de imposição, tornando-se espaço para propor sentidos, variá-los, fazê-los trabalhar uns com os outros e contra os outros. O analista assinala, indica, sugere, sem o caráter imperial de enunciar o único verdadeiro (ibid., p. 322-325).

Para Birman, o discurso freudiano passa de um saber sobre a interpretação a uma indagação sobre suas impossibilidades, quando se impõe em primeiro plano a dimensão quantitativa da pulsão (BIRMAN, 1991a, p. 19). Se a palavra do analista for enunciada como verdade última, disfarçando sua condição de interpretação, trabalha no sentido de obturar o deslizamento para interpretações ulteriores. Daí a importância de delinear os três descentramentos da “função sujeito” presentes no discurso freudiano. Uma palavra de analista que pressuponha a consistência de um “saber inconsciente” (primeiro descentramento) ou de um eu narcisicamente investido (segundo descentramento) pareceria brotar de um centro, nublando sua condição de interpretação sujeita a ser interpretada e a condição correlativa do analista, intérprete sujeito a ser interpretado. A interpretação que tenta justificar-se quer ser sólida, dificultar que outros se apoderem dela para mudar sua significação; trabalha contra os acontecimentos – quer ser o acontecimento último, definitivo.

Três descentramentos do eu no discurso freudiano: o primeiro, da consciência para o inconsciente; o segundo, do eu narcísico para o outro; o terceiro, da consciência, do eu narcísico e do inconsciente para uma pulsionalidade originária e informe (BIRMAN, 1993). Os dois primeiros permitem manter a perspectiva de um aparelho psíquico que, em última instância, se funda numa unidade, ou tem como destino uma unidade. Mas com Introdução ao narcisismo (1914) e Psicologia das massas e análise do eu (1921), Freud introduz em sua construção teórica uma multiplicidade de “eus” que põe em questão até mesmo a centralidade da neurose de transferência no trabalho clínico: seu uso como “ferramenta” só se justifica se pressupusermos uma estrutura una e invisível da neurose. Nesse ponto, Análise com e sem fim (FREUD, 1937a) é o texto decisivo, e seu exame não permite sustentar o ponto de vista de Viderman, de que as posturas clínicas de Freud teriam permanecido invariáveis ao longo do seu percurso: ali ele formula que o imprevisível no futuro do analisando impossibilita a cura absoluta.

Os esforços de Ferenczi se orientaram por sua crença de que a força da transferência pudesse ser instrumentalizada. O analista teria de ser capaz de trabalhar “objetivamente” com a força da transferência, conduzindo-a, “sabedor” do que é melhor para o doente. Mas as quantidades não são domáveis por artifícios intencionais, deliberados; os aprendizes de feiticeiro são arrastados por sua própria feitiçaria, as receitas não funcionam. Correlações quantitativas de forças, na sua atualidade, determinam os destinos psíquicos. Qualquer decisão de um conflito pulsional só vale para uma dada relação entre a força da pulsão e a força do eu, sempre um vetor resultante, contingente; se a força do eu cede, as pulsões voltam a reivindicar satisfações substitutivas. Em Análise com e sem fim, constatamos dois deslocamentos no campo analítico: (1) o peso do passado recua diante do peso reconhecido às correlações atuais de forças em jogo no aparelho psíquico, e (2) a força de domínio do eu (do logos, da continuidade da narrativa histórica, do complexo edipiano norteado pelo referencial fálico-narcísico, da tópica e da dinâmica psíquicas supostas estabilizáveis, da constelação edípica concebida como ponto de chegada esperado e antecipável das forças em movimento) recua diante da imprevisibilidade das resultantes dos jogos de forças, a cada momento.

O divisor de águas na condução da transferência seria a crença do analista na possibilidade de instrumentalizá-la. Esta crença supõe, no analista, a crença também na sua própria capacidade de, firmemente, dominar-se, dominar o “outro” que nele habita. Supôs-se que a análise prévia do analista fosse capaz de garantir-lhe, de uma vez por todas, o domínio das paixões em si mesmo. Mas em Análise com e sem fim Freud afirma, com toda a simplicidade, que isto não é possível.

4. Cura

No contexto da segunda tópica e do segundo dualismo pulsional, poderíamos talvez formular que o projeto da psicanálise se mantém como um projeto de “cura pela verdade”, mas por “verdades novas e múltiplas”, as “realidades/verdades de um novo tipo” referidas por Freud em Formulações sobre os dois princípios do curso dos acontecimentos psíquicos (1911, p. 141). Manter-se leal às realidades psíquicas, na sua multiplicidade: paradoxalmente seria esta, para nós, a “coerência” possível. Nossa “realidade material”, na modernidade em crise, com a morte de Deus e do homem, torna-se múltipla e aberta; podemos reconhecer a pregnância da realidade psíquica sem que o projeto de reduzi-la e modificá-la se imponha. Só uma coisa autoriza um analista a intervir na realidade psíquica de alguém: o lugar que esse alguém lhe atribui, quando com ele estabelece vínculo transferencial. Quando alguém designa a um analista um lugar na sua realidade psíquica, isto pode ser concebido não como consequência de uma inadequação à realidade material, decorrendo disso seus sofrimentos, mas supondo-se que as múltiplas verdades subjetivas que ali se estabeleceram estão em guerra a ponto de gerar níveis insuportáveis de angústia, perdida a hegemonia econômica dos emblemas identitários capazes de sustentar realidades calmas. Num contexto assim concebido, o que o analista pode oferecer ao paciente é espaço para o engendramento de “verdades de um novo tipo” passíveis de “espessar-se” através da atribuição, a elas, de valor. Os destinos da “batalha” se definem na luta de forças psíquicas presentes no analisando, tendo nisso o analista um lugar “emprestado”, uma delegação, uma “representância” de algo que está além dele. (Assim entende Sêneca o lugar daquele que exerce poder sobre alguém, ou alguns, em dado momento (FOUCAULT, M., 2001 [1982], p. 361). Daí a importância de não abusar deste poder, um poder que não lhe pertence, do qual só desfruta por procuração de um outro, que o delegou livremente.

No espaço analítico, dizer verdadeiro é mostrar, tanto o analista quanto o analisando, os bastidores da atividade fantasística; é fantasiar e enunciar fantasias. O analista fantasia, sua atenção flutuando, em contraponto à fantasia nas associações livres do analisando:

…no processo analítico, essa fantasmatização encontra limite na singularidade da experiência transferencial do analisando e na presença deste como outro, isto é, outro sujeito-intérprete da mesma experiência. [Assim] a fantasmatização encontra (…) obstáculos para se transformar num delírio interpretativo do analista. (…) Considerar o limite colocado pela experiência transferencial implica definir o eixo da transferência como solo originário para o trabalho de interpretação, e não o contrário. (…)

O fantasmar é uma forma de interpretar e, por isso, [é] o fundamento da psique concebida (…) como interpretação insistente e infinita. (…) A formulação dos conceitos de pulsão de morte e compulsão à repetição se liga à necessidade de interpretar [o] obstáculo no plano das inscrições originárias, (…) desenhando (…) as fronteiras do campo da interpretação. Após os anos vinte a construção psicanalítica se expande como instrumento complementar à interpretação sensu strictu, exatamente para possibilitar esta inscrição através do processo analítico (BIRMAN, J., 1991a, p. 121-122.).

Psicologia das massas e análise do eu (Freud, 1921): poder é poder de sedução, de agir sobre as ações do outro. A racionalidade que enraíza o poder pastoral põe todo esse poder na figura do pastor.

…Inconscientemente o hipnotizado concentra (…) toda sua atenção no hipnotizador e se põe diante dele na posição da relação hipnótica, da transferência. (…)

Pelas medidas que toma, o hipnotizador desperta no sujeito uma parte de sua herança arcaica, (…) que conheceu uma revivescência individual na relação ao pai, herança que é a representação de uma personalidade onipotente e perigosa, diante da qual só se pôde assumir uma posição passiva-masoquista. (…) O guia da massa permanece sempre o pai originário temido, a massa quer sempre ser dominada por uma potência ilimitada, é (…) ávida de autoridade e tem (…) sede de submissão (FREUD, S, 1921, p. 194-196.).

Em vez de pensar que esses efeitos decorram de revivescências de traços mnêmicos hereditários das experiências na horda originária, como propõe Freud, podemos pensar que decorram da maneira como nos subjetivamos, no rebanho, diante do pastor todo-poderoso, divino e profano, na sociedade pastoral moderna.

O pai originário é o ideal da massa, que domina o eu no lugar do ideal do eu. A hipnose (…) é uma massa a dois; resta, como definição da sugestão, que ela é uma convicção que não se funda na percepção e no trabalho do pensamento, mas num laço erótico (ibid.).

Ocorre que, através da transferência, o analisando também exerce poder sobre o terapeuta, esboçando-se a possibilidade de o analisando “equilibrar” a potência do analista em relação a ele, exercendo, por sua vez, sua potência:

Se, mantendo no espírito as descrições (…) dos autores que tratam da psicologia das massas, lançarmos um olhar sobre a vida do homem isolado de hoje, (…) ficamos desencorajados para resumi-la. Cada indivíduo tomado isoladamente é parte constitutiva de diferentes massas, ligado por identificação de diferentes lados, e edificou seu ideal do eu segundo os modelos mais diversos. (…) Participa portanto de várias almas de massas: de sua raça, de sua classe, de sua comunidade de fé, de seu Estado, e pode, além disso, aceder a uma parcela de autonomia e originalidade (ibid., p. 198.).

Descrição que corresponde à do “Édipo completo” de O eu e o isso (FREUD, 1923), numa variedade de posições subjetivas possíveis e simultâneas. Trazemos ao analista uma variedade de ideais do eu, o que nos deixaria menos vulneráveis à transferência hipnótica.

Duas maneiras possíveis de o analista intervir: uma é a que Viderman critica, justificada pelo projeto de recuperação de uma verdade firme, existente, mas esquecida. Quando Viderman propõe uma desconstrução do espaço analítico (1987, p. 323), trata-se da desconstrução do espaço analítico em que o analista se coloca como mestre de memória, de princípios, de conhecimento e de saber, mesmo que de modo sutil. Outra é a que vem sendo aqui sugerida: a partir da experiência da transferência, no quadro conceitual do segundo dualismo pulsional, o analista pode, na espessura da paixão transferencial do analisando, à qual dá suporte, e que confere eficácia à sua palavra, administrando a pulsionalidade que o atravessa, a ele, analista, gerindo suas próprias transferências, participar de um processo de constituição no analisando, no qual ele mesmo não fica intocado.

5. O analista como parresiasta (“dizedor do verdadeiro”)

No dizer verdadeiro enunciado por Sêneca não basta dizer que algo é verdade. É preciso dizer que sou eu, que falo, quem avalia serem estes pensamentos verdadeiros; eu sou aquele para quem eles são verdadeiros. É preciso fazer compreender que efetivamente experimento como verdadeiras as coisas que digo. A franqueza de um discurso exige que seja sensível a presença de quem fala naquilo que diz, e a verdade do que ele diz precisa ser selada pela maneira como vive. O sujeito que enuncia a verdade se conduz de acordo com esta verdade, e só essa adequação entre sujeito da enunciação e sujeito da conduta lhe dá o direito e a possibilidade de falar fora das formas tradicionais (FOUCAULT, 2001 [1982], p. 384-388, CAVALCANTI, M. 2004). Quem pronuncia essa palavra estabelece um compromisso entre o sujeito da enunciação e o sujeito da conduta. É esse pacto que, proponho aqui, o analista precisa firmar se pretende sustentar um espaço analítico onde a conflitualidade psíquica possa se desdobrar.

Para Birman, o mal-estar nas subjetividades contemporâneas se configura devido à impossibilidade de temporalização de sua conflitualidade. A partir das transformações no nosso entorno (mundialização, desmapeamento do mercado de trabalho, exigência de flexibilização do caráter para que a sobrevivência seja possível), uma pregnância da espacialidade se teria estabelecido. Estaríamos como que congelados no espaço, obrigados a viver um presente imutável e eterno, impedidos de envelhecer e impossibilitados de sonhar. O sonho toma forma desdobrando-se no tempo, num trabalho metaforizante e simbolizante, tornando possível desejar e encaminhar a conflitualidade pulsional. Ficaríamos presos assim no horror de um pesadelo que se repete, sempre igual. A própria compulsão de repetição, enunciada por Freud como potente para inscrever as intensidades traumáticas numa rede temporalizada, inconsciente, significante, teria, na contemporaneidade, perdido essa potência (BIRMAN, 2012).

Seria urgente, assim, pensar como a clínica psicanalítica acolhe e encaminha isto que se lhe apresenta. De que meios disporíamos para favorecer que os psiquismos imobilizados que nos procuram ganhem movimento e possibilidade de fluir, sonhar, desejar?

Se o analista, ao falar, se crê respaldado e protegido por uma verdade pacificada e estabilizada da qual seria detentor – verdade do sexo, verdade do erotismo, verdade do corpo, verdade das relações – está, insensivelmente, operando num espaço congelado, num eterno presente resultante da realização das verdades últimas num mundo em que a história teria chegado ao fim. Mas se ele fala como sujeito do enunciandum, isto é, sujeito da sua crença, da sua opinião sobre o que está dizendo, ele dá a ver e torna sensível, no espaço analítico, a sua própria condição de psiquismo em movimento, que muda no tempo, desejante e, por isso mesmo, às voltas com o conflito em sua própria psique. Na parrhêsia de Sêneca o orador enfatiza que é ao mesmo tempo sujeito da enunciação e sujeito do enunciandum, que é ele o sujeito e a fonte da opinião que está emitindo. Ele se responsabiliza por essa opinião, e mantém a abertura para que ela mude, no jogo de forças que vai se desdobrando no espaço de interlocução. Sua “atividade de fala” é: “Sou aquele que pensa isto, e isto, e mais isto.” Sua opinião é a verdade, e há coincidência entre crença e a verdade. Ora, a verdade como crença está sujeita a mudar no tempo. Está sujeita ao jogo de forças em que foi produzida, enquanto ele continuar se desdobrando. Pois no espaço analítico da contemporaneidade, como no tempo de Freud, mas de modo ainda mais radical, manifesta-se um mal-estar que exige ser dito, ou agido, não recua e insiste em se impor como verdade. Ignora os sinais de perigo figurados na angústia sinal (FREUD, 1926). Um mal-estar que se descreve no campo do corpo, da ação e das intensidades, com parcas referências aos campos do pensamento e da linguagem, e que resiste inclusive ao domínio pela compulsão de repetição (BIRMAN, 2012).

Nesse contexto, o analista dirá daquilo que, em cada momento, crê do enamoramento, do amor, do ódio de transferência, dos movimentos desejantes que ali venham a se desenvolver. Dirá daquilo que ele, analista, fantasia acerca do que se passa, sem certeza. Exposto, não delega responsabilidade pelo que pensa e diz; assume riscos no campo conflitual estabelecido no espaço analítico.

Nas grandes instituições psicanalíticas de ontem, como nas de hoje, faz-se um esforço para dar consistência, na enunciação analítica, a um prestígio de verdade que tende a anular os riscos do analista. Sua fala tenta ser portadora de tanto poder de verdade quanto possível, com o respaldo institucional dos mestres, para neutralizar o conflito que surja, com um mínimo de dificuldade. A proposta não é a de que o campo conflitual se radicalize na análise, considerando inclusive a possibilidade de o analisando abandonar o campo. A tentativa é para instaurar e manter um estado de dominação, sustentado na concepção da existência da verdade firme, única, institucionalizada, sempre no horizonte, sempre prometida.

Numa clínica que considere que não há verdade última nos sujeitos, nos aparelhos psíquicos, o analista enunciará verdades que se produzirão nele, a cada momento, a partir do que o analisando diz; o analisando fala ou silencia movido pela pressão de moções pulsionais dispersas, despertadas, impactadas, estimuladas pelo dizer do analista. Analista que estará, aí, implicado com todo o seu ser, também movente, também conflituado.

Assim, psicanalisar, hoje, exigiria do analista sustentar a dispersão das moções pulsionais na sua conflitualidade indomável, na perspectiva de que desse caldeirão fervilhante surjam, ao longo do tempo, lineamentos que se prolonguem em redes sempre abertas de desejo, verdade movente, engendrando passado, presente e futuro. O analista toma seu lugar na longa tradição dos dizedores do verdadeiro no Ocidente, na sua genealogia, na sua filiação: psicanálise como prática parresiástica de subjetivação, possível, na contemporaneidade.

 

Referências bibliográficas

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Recebido em: 20/12/2012
Aceito para publicação em: 28/12/2012