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O PLURAL EM PAUTA

Joel Birman *

* – Psicanalista, Professor Titular do Instituto de Psicologia da UFRJ. Professor Adjunto do Instituto de Medicina Social da UERJ. Diretor de Estudos em Letras e Ciências Humanas da Universidade Paris VII. Pesquisador associado do Laboratório de Psicanálise e Medicina e Sociedade, da Universidade Paris VII.

 

I. Das fronteiras às bordas

Foi pela conjunção entre as categorias de genealogia, de subjetivação e de violência que se construiu uma linha de pesquisa no campo das ciências humanas e sociais, no Instituto de Medicina social, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Como nessa instituição se sustenta uma leitura ao mesmo tempo abrangente e renovada do que constitui o campo da saúde, formalizada na concepção de saúde coletiva, uma linha de pesquisa como essa pode legitimamente se inscrever nesse espaço acadêmico, de fato e de direito.

Aquelas três categorias, que poderiam se apresentar ao mesmo tempo como temas, poderiam ser analiticamente exploradas de maneira separada, sem que se pretendesse estabelecer qualquer articulação entre elas. No entanto, a nossa proposição é a de também costurá-las numa outra arquitetura conceitual, investindo decididamente para isso no que se processa entre tais categorias e temas, de forma exaustiva e insistente. Daí porque enfatizamos na ideia da conjunção existente entre essas, nas suas múltiplas possibilidades de relação e de engendramento recíprocos, além de também explorá-las, é claro, de maneira autônoma e separada.

Portanto, a intenção primordial dessa linha de investigação é a de sustentar uma perspectiva interdisciplinar de pesquisa, dos pontos de vista teórico e metodológico. Por isso mesmo, tal linha de pesquisa reúne diversos pesquisadores, oriundos dos diferentes campos da saúde coletiva, da filosofia, da psicanálise, da psicologia, da história, da antropologia, da sociologia, da criminologia, da comunicação e da teoria dos discursos.

Por que a escolha dessa perspectiva de pesquisa? Porque propomos romper decididamente com as fronteiras disciplinares e apostamos efetivamente que o que se apresenta hoje como fundamental, para ser teórica e empiricamente investigado, se inscreve nas bordas existentes entre as disciplinas canonicamente instituídas. Em oposição à ideia de fronteira, que se caracteriza topologicamente pelo traçado fixo e inamovível, a borda, em contrapartida, seria necessariamente porosa e maleável nas suas linhas de força, de forma a poder promover, assim, ativamente, a reconfiguração das fronteiras bem estabelecidas e instituídas pela ordem social e pela instituição universitária.

Em decorrência disso, os diferentes territórios disciplinares seriam redesenhados nos seus componentes, assumindo então novos arranjos e outras relações. O que implica assumir, além disso, que os diversos territórios instituídos pelas diferentes disciplinas não seriam substanciais, na medida em que poderiam ser reconfigurados pelos imperativos da leitura interdisciplinar.

Antissubstancialista na sua perspectiva ontológica, portanto, a linha de pesquisa em questão pretende promover a desterritorialização disciplinar de maneira sistemática e metódica, enfatizando, em contrapartida, o que existe de movente nos diversos objetos teóricos de cada uma das disciplinas implicadas num projeto interdisciplinar. Daí porque o que está em pauta nessa linha de pesquisa, no horizonte que esse delineia, é a constituição de problemáticas, que perpassariam os diferentes e diversos territórios disciplinares com vistas a transformar as fronteiras desses em bordas propriamente ditas.

II. Problemáticas

Trata-se, assim, de constituir efetivamente problemáticas teóricas, que teriam a potência de ultrapassar e de transcender o campo dos objetos teóricos, delineados pelos diversos registros disciplinares. No entanto, as ditas problemáticas, nas suas singularidades e especificidades, seriam forjadas numa perspectiva marcadamente plural. Seria essa palavra, com efeito, o que marcaria a direção teórica dessa linha de pesquisa, que, como uma metáfora reveladora do que estaria em causa, sintetizaria a orientação conceitual dos trabalhos que procuramos realizar. Daí porque a conjunção e articulação que foi proposta, entre genealogia, subjetivação e violência, além da exploração de tais campos de forma separada.

Assim, mesmo que a questão da violência tenha sido o ponto inicial que promoveu a reunião do grupo de pesquisadores desta linha de investigação, o que ficou claro desde o começo é que não se tratava de conceber a violência em si própria, na sua suposta linearidade, mas de articulá-la com a sua inscrição no registro genealógico, por um lado, e com os seus efeitos de subjetivação, pelo outro. Portanto, a intenção teórica que foi enunciada seria a de partir do tema da violência para problematizá-lo, seja em direção à sua historicidade, seja em direção de seus efeitos subjetivantes. Enfim, considerada em si própria na sua linearidade, a violência seria muda e silenciosa, fora de sua inscrição nos registros simbólicos da genealogia e da subjetivação.

Seria ainda em decorrência de suas problemáticas singulares, declinadas sempre no plural, que as diferentes categorias/temas que estão no solo da linha de pesquisa passaram a ser conjugadas no plural. Daí porque a conjunção inicial foi propriamente reconfigurada como genealogias, subjetividades e violências.

Isso implicou assumir, desde então, que nos defrontamos não apenas com diversas modalidades de violência, mas também que essas se inscrevem em diferentes registros genealógicos, nos quais aquelas produzem ainda múltiplas formas de subjetivação.

Seria então para a abertura efetiva em direção à pluralidade de enunciações, enfim, que as violências passaram a ser declinadas com as genealogias e as subjetivações.

III. Disseminar pela escrita

Para promover e disseminar essa linha de pesquisa na comunidade acadêmica foi instituída essa publicação eletrônica pelo grupo EPOS. A intenção é a de constituir uma revista regular, com publicação semestral, que seja aberta ao conjunto de pesquisadores interessados nessas múltiplas conjunções em torno da questão da violência.
Nosso desejo é de que a comunidade acadêmica possa aderir à nossa proposta, sob a forma de proposição de trabalhos para os futuros números desta revista. Este desdobramento será crucial não apenas para disseminar pela escrita e pelas trocas disso decorrentes a linha de pesquisa em questão, mas também para que essa se torne efetivamente plural. Seria preciso, enfim, colocar o plural em pauta, de múltiplas maneiras.